Declarações inesperadas do Federal Reserve em um fim de semana, para dizer o mínimo, geralmente não são um bom sinal.
Nas últimas duas décadas, elas foram raras e ocorreram apenas em resposta a emergências graves: o colapso do Bear Stearns e, depois, do Lehman Brothers em 2008; a pandemia de Covid-19 em 2020; e a quebra de vários bancos regionais dos EUA em 2023.
Em todas essas ocasiões, o banco central americano correu para divulgar um comunicado, a fim de demonstrar liderança e ação antes da abertura dos mercados diante de uma crise séria.
Vale muito a pena enxergar o vídeo divulgado no domingo (11) pelo presidente do Fed, Jerome Powell, sob essa ótica. O Fed está sob ataque. Isso não é uma simulação.
A notícia em si —de que promotores abriram uma investigação criminal contra Powell por causa de reformas em propriedades do Fed— não deveria surpreender quem vem acompanhando a relação cada vez mais tensa entre o banco central e o novo regime político.
O presidente dos EUA, Donald Trump, há muito tempo fala em termos truculentos sobre Powell e sobre a relutância do presidente do Fed em cortar os juros tão rapidamente quanto ele gostaria.
Mas os xingamentos evoluíram para ameaças legais nos últimos meses. A única mudança agora é que essas ameaças parecem estar se concretizando —e Powell está reagindo.
O próprio Trump nega qualquer envolvimento na investigação conduzida pelo Departamento de Justiça e diz que ela não tem relação com a política de juros do Fed. Mas ninguém sério acredita que algo assim teria ocorrido com outro presidente na Casa Branca —assim como não teriam ocorrido as tentativas de remover a diretora do Fed Lisa Cook de seu cargo, a nomeação do aliado Stephen Miran para o comitê que define a taxa de juros ou a demissão de Erika McEntarfer do Bureau of Labor Statistics. (Seu erro, aparentemente, foi supervisionar a divulgação de dados de emprego menos otimistas.)
Faz meses que participantes do mercado vêm se dedicando a pensar sobre quem substituirá Powell quando ele deixar o cargo em maio. Qual Kevin será o novo presidente? Hassett ou Warsh? Quantos décimos de ponto percentual um cortaria a mais do que o outro? Que suspense!
Enquanto isso, o risco de uma reformulação profunda da instituição financeira mais importante do mundo vinha crescendo silenciosamente. Não precisamos mais falar sobre Kevin.
Investidores já pensam e falam sobre os mercados americanos e sobre a política de juros de maneira radicalmente nova. Membros do comitê que define as taxas agora são classificados em grupos de acordo com o presidente que os indicou —assim como acontece com os juízes da Suprema Corte. Isso nunca havia acontecido antes; agora é rotineiro.
Gestores tentam diversificar para mercados de dívida fora dos Treasuries americanos, reduzindo a dependência de mudanças erráticas na política dos EUA. Novidade, mas já normal. E cresce o ceticismo de que, no longo prazo, a política monetária do Fed será sensata o suficiente para justificar o papel central que os títulos do governo americano e o dólar ocupam nas finanças globais.
O mais recente sinal claro e contundente de que os novos comandantes políticos dos EUA falam sério quando se trata de exercer maior controle sobre o Fed leva isso ainda mais longe.
O próximo presidente do Fed será, em tudo menos no nome, Donald Trump —com todas as aventuras em política de juros e supervisão regulatória que isso implica. Boa sorte para todos nós.
Então, por que os mercados não estão entrando em pânico? Em primeiro lugar, especialistas ainda se agarram à esperança de que, de alguma forma, tudo acabará dando certo. Em um evento em Londres nesta segunda-feira (12), poucas horas após o mais recente drama envolvendo o Fed, Jan Hatzius, economista-chefe do Goldman Sachs, destacou que a política monetária dos EUA é definida por um comitê, não por uma única pessoa.
“Não tenho dúvida de que [Powell], no restante de seu mandato como presidente, tomará decisões com base nos dados”, acrescentou. “Minha expectativa é que o comitê continue tomando decisões com base em seu mandato e nos dados econômicos.”
Hatzius pode estar certo. Os freios e contrapesos podem, de fato, entrar em ação —e devemos torcer para que isso aconteça. Mas, olhando para a Venezuela, a Groenlândia e tudo o mais, não tenho tanta certeza. Também é preciso lembrar que profissionais do mercado estão se esforçando ao máximo para parecer politicamente neutros e não irritar Trump.
Grandes nomes das finanças deveriam estar fazendo uma defesa enfática da independência do Fed neste momento —mas não prenda a respiração.
Em segundo lugar, é preciso lembrar que o grande risco aqui é o Fed permitir que a economia americana —e a inflação— aqueçam demais. Mantidas as demais condições, ao menos no curto prazo, isso é positivo para as ações, não negativo.
Não há uma boa razão para que o mercado acionário desabe com essa notícia —e, por isso, não desabou. Para os títulos, sim, trata-se de um risco terrível no longo prazo, mas, por ora, com a economia dos EUA perdendo fôlego, alguns cortes de juros provavelmente já seriam necessários de qualquer maneira. A nova escalada recorde do preço do ouro é, por enquanto, o melhor termômetro de alerta.
Mas este é claramente o mercado de Trump agora. Ele quer limitar juros de cartão de crédito, quer impedir que certas empresas paguem dividendos a seus acionistas, quer forçar petroleiras americanas a extrair petróleo da Venezuela mesmo sem querer. Ele espera que as empresas façam o que ele manda.
O próximo passo é o Fed. E, a esta altura, precisamos partir do pressuposto de que há um risco elevado de que ele consiga.





