terça-feira, março 10, 2026
16.8 C
Pinhais

Investigação do caso Master deve ultrapassar período eleitoral

A investigação sobre o colapso do Banco Master e as atividades de seu controlador, Daniel Vorcaro, ainda está longe de chegar ao fim, segundo fontes ligadas às investigações. A reportagem apurou que ela deve se estender por todo o ano, ultrapassando o período eleitoral, se não for interrompida por ordem do Supremo Tribunal Federal.

A Polícia Federal já produziu relatórios e realizou prisões em três fases da operação Compliance Zero, inclusive a captura do próprio Vorcaro. Mas, assim como ocorreu em outras operações do passado, essa terá desdobramentos. Isso porque o volume de provas físicas e digitais apreendidas e a complexidade das conexões financeiras indicam que parte considerável da apuração ainda está só iniciando, com muito para vir à tona.

“Certamente ainda teremos meses de revelações e muitos nomes influentes em todos os poderes da República alcançados ou revelados. Não será um inquérito curto e [terá] um potencial de devastação significativo que deve ultrapassar outubro”, destaca o advogado constitucionalista André Marsiglia.

A expectativa de investigadores é de que evidências mais relevantes apareçam conforme o material for analisado, o que deve ampliar o escopo das acusações ou revelar novas conexões políticas, institucionais e financeiras. Investigadores consultados pela Gazeta do Povo indicam que, somente do material já disponível, há base e fundamentação para novas fases da operação.

“Será um ingrediente extra ao processo eleitoral. Temos visto as investigações escalarem e não restam dúvidas de que vão avançar para o período eleitoral, deixando nas mãos do ministro André Mendonça [relator do caso no STF] dar o tom das apurações”, afirma o constitucionalista Alessandro Chiarottino.

Com as eleições presidenciais se aproximando, partidos e líderes políticos tentam evitar a associação direta com o escândalo. Enquanto setores da oposição procuram vincular o caso ao atual governo, aliados do Palácio do Planalto afirmam que as investigações só avançaram por ocorrerem durante a atual gestão.

“Há também o temor de que a crise reforce o sentimento antipolítica na sociedade brasileira, criando espaço para candidatos que se apresentem como outsiders ou representantes de uma ruptura com o sistema político tradicional”, destaca o cientista político Gustavo Alves.

Durante as três fases das operações de busca e apreensão que miraram diretamente Vorcaro e seu entorno, os investigadores recolheram cerca de 120 dispositivos eletrônicos, entre celulares, computadores e HDs. Muito desse material ainda aguarda por perícia técnica especializada.

“Se apenas 30% de um celular periciado de Vorcaro já levou ao que se revela até o momento, não temos ainda como dimensionar o que está por vir em mais sete celulares dele”, destaca a doutora em Direito Público Clarisse Andrade.

Os celulares do próprio empresário se tornaram uma das principais linhas de investigação. Vorcaro teve oito aparelhos telefônicos apreendidos pela PF desde novembro, mas até agora apenas um deles, o que foi apreendido na primeira fase da operação, começou a ser periciado.

A experiência de investigações digitais mostra que a extração e análise de dados de dispositivos móveis pode levar meses, especialmente quando há necessidade de recuperar arquivos apagados ou quebrar sistemas de criptografia”, afirma o especialista em segurança cibernética Luan Monteiro.

Quanto tempo ainda pode levar a investigação

Fontes ligadas à Procuradoria-Geral da República e à PF estimam que a análise das provas pode levar entre quatro e seis meses após a coleta de evidências, mas o período de investigação pode levar anos. A operação Lava Jato, por exemplo, se estendeu por cerca de sete anos.

“Desde a primeira fase da operação já são quatro meses de apuração e muito ainda precisa ser revelado. Acredito que tenhamos um caso para anos”, avalia o especialista em segurança pública Sérgio Gomes, investigador aposentado das forças federais de segurança.

Na prática, explica ele, investigações complexas como essa costumam seguir três etapas principais: análise inicial das provas apreendidas; identificação de novos alvos e linhas de investigação e eventual apresentação de denúncias criminais.

“Há um caminho longo e muitos capítulos a serem revelados até o encaminhamento de uma possível denúncia contra os investigados, lembrando que essas denúncias vão para o procurador-geral da República, que decidirá se as aceita ou não e se propõe indiciamento ou não ao STF”, salienta Gomes.

Mensagens levam a novas frentes de investigação

Com apenas parte do conteúdo analisado, os celulares já produziram resultados relevantes. Mensagens encontradas em um dos aparelhos de Vorcaro contribuíram para reforçar suspeitas de conluio com autoridades, lavagem de dinheiro, invasão de sistemas informáticos e intimidação de adversários, além de indicar que o grupo investigado tinha uma estrutura organizada para obtenção de informações sensíveis e sigilosas.

A Polícia Federal também investiga um núcleo suspeito de atuar na obtenção ilegal de dados e monitoramento de jornalistas e autoridades.

Essas revelações levaram os investigadores a tratar os dispositivos eletrônicos como uma espécie de “mapa da rede de relações” de Vorcaro, o que explica a importância de examinar integral e minuciosamente todos os aparelhos apreendidos.

Outro fator que tende a prolongar as investigações é a multiplicidade de crimes sob apuração. A Compliance Zero investiga um conjunto amplo de suspeitas, incluindo: gestão fraudulenta de instituição financeira; emissão de títulos sem lastro; lavagem de dinheiro; corrupção de agentes públicos; manipulação de mercado; invasão de sistemas informáticos; obstrução de justiça e ameaças.

“São tantas frentes de apuração que não se pode esquecer que elas também examinam a relação do Master com outras instituições financeiras e com estruturas societárias utilizadas para movimentação de recursos que podem ser ilegais”, reforça a economista Regina Martins.

Uma das linhas de investigação, em que tudo começou, envolve operações entre o Banco Master e o Banco Regional de Brasília (BRB). Essa é a frente de apuração considerada mais adiantada. O BRB teria comprado títulos bilionários ligados ao Master em operações que são investigadas por possível fraude financeira.

A PF acredita que essa frente do inquérito seja concluída ainda no mês de março, enquanto as demais seguem sem previsão. “Muita água ainda deve passar debaixo dessa ponte. Tanto se revelou com essas investigações que muito ainda deve surgir, inclusive as explicações da relação de Vorcaro com ministros do STF”, reforça o doutor em Direito pela USP e comentarista político Luiz Augusto Módolo.

O Banco de Brasília (BRB) afirmou que sempre atuou em conformidade com as normas de compliance e transparência nas operações envolvendo o Banco Master. Segundo a instituição, todas as transações foram regularmente informadas aos órgãos de controle, incluindo o Banco Central e o Ministério Público Federal.

O BRB também declarou que vem adotando “inúmeras medidas institucionais, administrativas, extrajudiciais e judiciais” relacionadas a fundos de investimento, garantias e carteiras de crédito adquiridas do Banco Master. A instituição afirmou ainda que a atual diretoria colaborou com as investigações e forneceu documentos e informações às autoridades, o que teria contribuído para a abertura de apurações sobre as operações.

Centenas de pessoas e empresas sob análise

Outro elemento que explica a complexidade e a demora no caso é a quantidade de envolvidos. Os procuradores e policiais federais precisam analisar registros financeiros, fiscais e societários ligados a mais de cem pessoas físicas e jurídicas, além de milhares de documentos e dados coletados em dezenas de endereços alvos de buscas.

“Esse tipo de investigação exige cruzamento de dados, análise contábil, rastreamento internacional de recursos e cooperação entre diferentes órgãos de controle. Então ele não funciona em uma única frente, mas em diversas atuações dentro de um processo que depois vão se fechando”, destaca Luan Monteiro.

Especialistas em investigação financeira apontam que, em casos dessa magnitude, apenas a etapa de análise documental pode durar meses, até anos a depender da força-tarefa empenhada. “Não é apenas periciar, é confirmar transações, relações, transferências, contatos e isso depende de corpo técnico. É uma teia que precisa ser resolvida e, pelo que temos visto, ela só começou a ser desvendada”, segue.

Um caso que ainda pode revelar novos personagens

Na avaliação de especialistas, o verdadeiro alcance do caso, incluindo possíveis responsabilidades políticas e institucionais, só deverá ficar claro quando a perícia digital estiver concluída e as conexões reveladas pelos dispositivos apreendidos forem investigadas.

“Por mais que existam fortes indícios de suas relações nada republicanas, apesar das prisões e do impacto político já produzido, o caso Master ainda pode estar apenas no começo de sua fase mais reveladora”, destaca o investigador aposentado Sérgio Gomes.

O conteúdo do celular do ex-banqueiro já revelou diálogos com autoridades do Executivo, parlamentares de diferentes partidos e integrantes do Judiciário, o que ampliou a expectativa sobre novos desdobramentos da investigação.

Juristas afirmam que a incerteza sobre o conteúdo completo dos dispositivos apreendidos tem provocado forte apreensão entre líderes políticos e institucionais em Brasília. “Ninguém sabe exatamente quais informações ainda podem surgir à medida que a perícia digital avança”, reforça Marsiglia.

Vorcaro teria tido interlocução com atores políticos e institucionais de diferentes correntes, transitando entre figuras da direita, da esquerda e do chamado Centrão, além de membros do Judiciário. “Essa diversidade de relações ampliou o impacto potencial do caso, já que nenhum grupo político e as instituições parecem distantes das conexões reveladas até agora”, completa Gomes.

Escândalo que atravessa partidos

Segundo especialistas em ciência política, o padrão revelado pelas conversas mostra, até o momento, uma rede de relações que ultrapassa divisões ideológicas e conecta atores de diferentes áreas do poder público.

Esse fenômeno é interpretado como reflexo de uma mudança estrutural no sistema político brasileiro. “Desde a última década, o poder institucional se tornou mais fragmentado, com maior influência do Congresso e do Judiciário nas decisões nacionais.

Nesse cenário, eventuais esquemas de influência tendem a se distribuir entre vários atores e instituições, em vez de se concentrar exclusivamente no Executivo, como ocorria em escândalos de corrupção de décadas anteriores”, menciona o cientista político Gustavo Alves.

O que a defesa de Vorcaro já disse sobre o caso Master

Em diferentes momentos das investigações envolvendo o Banco Master, a defesa do banqueiro Daniel Vorcaro e a própria instituição negaram irregularidades atribuídas ao empresário ou ao banco.

Os advogados levantaram questionamentos sobre a condução das investigações e o tratamento de provas. Em petição apresentada ao STF, eles pediram a abertura de um inquérito para apurar o vazamento de mensagens e dados extraídos de celulares apreendidos e argumentaram que o material teria sido divulgado antes mesmo de os advogados terem acesso integral ao conteúdo. Em manifestação semelhante, a assessoria do banqueiro afirmou que o pedido ao Supremo buscava identificar quem poderia ter violado o dever de custódia do material sigiloso apreendido na investigação.

A defesa também negou as alegações de que Vorcaro teria atuado para monitorar ou intimidar testemunhas ligadas às investigações e afirmou que o banqueiro não praticou qualquer ato de obstrução e que o esclarecimento completo dos fatos demonstrará a regularidade de sua conduta.

Em outro momento, os representantes legais do controlador do Master afirmaram que a prisão foi executada sem que a defesa tivesse acesso prévio às provas e solicitaram ao STF esclarecimentos sobre os elementos que fundamentaram o pedido de detenção.

Em depoimento à PF, Vorcaro também apresentou sua versão sobre a crise que levou à liquidação do Banco Master. Ele afirmou que a intervenção teria sido resultado de uma “ofensiva articulada” de concorrentes e de setores do Banco Central, que teriam se incomodado com o crescimento da instituição.

Já em relação a operações financeiras específicas, o próprio Banco Master alegou publicamente que não houve irregularidades em contratos firmados com o Banco de Brasília (BRB) e que o Banco Central tinha conhecimento prévio dessas transações.

Fonte: Gazeta do Povo

Destaques da Semana

Infraestrutura e mobilidade são temas do novo episódio do podcast Notícia Boa Paraná

Os investimentos em infraestrutura e mobilidade que conectam regiões...

Esperando Gonet

Li outro dia na “Folha de S.Paulo” um artigo...

Trump avalia tomar o controle do Estreito de Ormuz

O presidente dos EUA, Donald Trump, alertou o Irã...

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas