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Investigação do NYT aponta quem criou o bitcoin – 08/04/2026 – Tec

Em uma noite de outono de 2024, minha esposa e eu ouvíamos um podcast no carro quando me deparei com um documentário da HBO que afirmava ter revelado a identidade de Satoshi Nakamoto, o pseudônimo do criador do bitcoin.

A conclusão do filme —que apontava um desenvolvedor canadense— me pareceu fraca. Mas uma cena me prendeu a atenção: Adam Back, criptógrafo britânico e figura central no mundo do bitcoin, ficou visivelmente tenso quando seu nome foi mencionado como suspeito. Sua linguagem corporal —os olhos esquivos, a risada nervosa, o movimento brusco da mão— me pareceu suspeita.

Dois anos antes, eu havia passado vários meses pesquisando sobre o assunto, mas logo percebi que estava além das minhas capacidades e desisti a contragosto. Depois de ver o documentário, decidi tentar, mais uma vez, desvendar o mistério.

AS PRIMEIRAS PISTAS

Satoshi deixou poucos rastros digitais, mas deixou um corpus de textos: um white paper de nove páginas e centenas de posts no fórum Bitcointalk. Durante um julgamento envolvendo um impostor australiano, o programador finlandês Martti Malmi, que colaborou com Satoshi nos primórdios do bitcoin, divulgou centenas de e-mails trocados com ele. Convenci-me de que a chave para identificar Satoshi estava nesses textos.

Duas pistas iniciais me ajudaram a estreitar as buscas. Primeira: Satoshi misturava inglês britânico com expressões americanas, e havia embutido no primeiro bloco de transações do bitcoin uma manchete do jornal The Times de Londres —forte indício de que era britânico.

Segunda: Satoshi muito provavelmente era membro dos Cypherpunks, um grupo de anarquistas dos anos 90 que usava criptografia para proteger indivíduos da vigilância governamental. Foi nesse grupo que surgiu a ideia de “dinheiro eletrônico”, e foi justamente numa lista derivada dos Cypherpunks que Satoshi apresentou seu white paper.

Mergulhei nos escritos de Satoshi e compilei uma lista de mais de cem palavras e expressões incomuns. Ao cruzá-las com as contas no X (antigo Twitter) dos principais suspeitos, um nome se destacou com quase todas as correspondências: Adam Back.

O PERFIL DE BACK

Back, 55, é britânico e foi membro ativo dos Cypherpunks. Mais importante: inventou o Hashcash, um sistema de resolução de problemas matemáticos que Satoshi utilizou no mecanismo de mineração do bitcoin e citou em seu white paper. Back possui, portanto, o perfil técnico e ideológico necessário para ter criado o bitcoin.

Durante o julgamento do impostor Craig Wright, Back apresentou e-mails que sugeriam que Satoshi o havia contatado em agosto de 2008 para verificar a citação do paper do Hashcash —o que provaria que seriam pessoas distintas. Mas quanto mais eu pensava, mais me ocorria outra possibilidade: Back poderia ter enviado esses e-mails para si mesmo como cortina de fumaça.

Viajei a Las Vegas para conhecê-lo pessoalmente, durante a conferência Bitcoin2025. Back se mostrou falante sobre bitcoin, mas mais reservado sobre sua vida pessoal. Contou que aprendeu a programar aos 11 anos, interessou-se por criptografia no colégio e, na Universidade de Exeter, onde fez doutorado em ciência da computação, mergulhou no universo do PGP, o programa de criptografia que, assim como o bitcoin, usa criptografia de chave pública. O tema de sua tese foi sistemas computacionais distribuídos, outro pilar tecnológico do bitcoin, programado em C++, a mesma linguagem usada por Satoshi.

PARALELOS INTELECTUAIS E IDEOLÓGICOS

Ao vasculhar o arquivo dos Cypherpunks, encontrei algo revelador: entre 1997 e 1999 —uma década antes do bitcoin—, Back havia esboçado em posts praticamente todos os elementos que comporiam o bitcoin.

Em abril de 1997, ele sugeriu criar um sistema de dinheiro eletrônico “completamente desconectado” do sistema bancário, com quatro atributos: privacidade de pagador e recebedor, distribuição em rede de computadores, escassez embutida para evitar inflação e ausência de necessidade de confiança em qualquer banco. Dois dias depois, acrescentou um quinto elemento: um protocolo publicamente verificável. Todos os cinco viraram pilares do bitcoin.

Em dezembro de 1998, Back sugeriu combinar o Hashcash com o b-money —uma proposta de moeda digital de Wei Dai— para criar um sistema de dinheiro eletrônico. Satoshi citou exatamente essa combinação em seu white paper, descrevendo o bitcoin como “uma implementação da proposta b-money de Wei Dai.” Coincidência?

Back também antecipou a solução de Satoshi para o problema da inflação: exigir cada vez mais esforço computacional para criar novas moedas ao longo do tempo. E, em 1999, propôs o uso de árvores de hash para criar um registro público e imutável de transações —a mesma ideia que Satoshi usou, substituindo apenas o componente de publicação.

Havia também paralelos ideológicos. Satoshi embutiu no primeiro bloco do bitcoin uma mensagem política contra os resgates bancários do governo britânico. Back, por sua vez, fizera algo parecido anos antes: criou camisetas com algoritmos de criptografia impressos para protestar contra leis americanas que equiparavam a exportação de software de criptografia ao comércio de munições.

Ambos consideravam o Napster —derrubado por ação judicial— uma advertência, e citaram o Gnutella como modelo de sistema descentralizado resistente a ataques. Back fez essa comparação três vezes distintas nos Cypherpunks; Satoshi a repetiu quase nos mesmos termos.

O SILÊNCIO E O RETORNO

Um padrão ainda mais intrigante emergiu ao examinar a cronologia. Durante toda a década anterior ao bitcoin, sempre que dinheiro eletrônico era debatido nos Cypherpunks ou na lista Cryptography, Back participava ativamente. Quando o bitcoin surgiu —a manifestação mais próxima de sua própria visão—, Back simplesmente desapareceu da conversa. Só fez seu primeiro comentário público sobre o bitcoin em junho de 2011: seis semanas após Satoshi encerrar sua participação pública, em abril daquele ano.

Em 2013, quando um criptógrafo argentino publicou uma estimativa da fortuna de Satoshi —1,1 milhão de bitcoins, hoje avaliados em mais de US$ 100 bilhões—, Back se cadastrou no Bitcointalk no mesmo dia. Rapidamente tornou-se uma das vozes mais influentes da comunidade, fundou a Blockstream (avaliada em US$ 3,2 bilhões) e passou a recrutar os principais desenvolvedores do Bitcoin Core.

Em 2015, durante uma acirrada disputa sobre o tamanho dos blocos do bitcoin, Satoshi reapareceu depois de quatro anos de silêncio com um e-mail que respaldava exatamente a posição de Back —usando palavras e expressões idênticas às que Back havia empregado nas semanas anteriores, como “perigoso”, “consenso generalizado” e “muito desapontante”.

ANÁLISE LINGUÍSTICA

Busquei evidências mais forenses. Recrutei Florian Cafiero, linguista computacional que havia usado estilometria para identificar os criadores do movimento QAnon. Cafiero comparou os textos de doze suspeitos ao white paper do bitcoin. Back saiu como o mais próximo —mas Hal Finney, um cypherpunk da Califórnia que havia trabalhado no PGP, ficou logo atrás, e a diferença era mínima para ser conclusiva.

Então tentei outra abordagem. Identifiquei 325 erros distintos de hifenização nos textos de Satoshi e os comparei com os escritos dos suspeitos. Back se destacou: compartilhava 67 dos erros de hifenização de Satoshi. O segundo colocado tinha apenas 38.

Outros marcadores reforçavam a hipótese. Satoshi e Back usavam dois espaços entre frases (prática antiquada, típica de pessoas com mais de 50 anos); alternavam entre “e-mail” e “email”, “built-in” e “built in”, “cheque” e “check”; usavam “backup” como verbo em uma palavra; hifenizavam “proof-of-work” como substantivo composto algo feito por apenas oito pessoas nas listas Cypherpunks e Cryptography. Cruzando esse grupo de oito com os quatro que haviam mencionado o WebMoney russo (também citado por Satoshi), sobrou apenas um nome: Back.

A expressão “burning the money”, usada por Satoshi para descrever a destruição de bitcoins, havia aparecido antes em apenas um lugar: um post de Back de 1999.

O CONFRONTO

Escrevi a Back informando minha conclusão e oferecendo-me para ir a Malta apresentar as evidências. Ele não respondeu. Decidi abordá-lo pessoalmente em uma conferência de bitcoin em El Salvador.

No dia seguinte ao nosso encontro no saguão do hotel, sentamos em seu quarto com dois de seus assessores. Ao longo de duas horas, apresentei minhas evidências. Back insistiu que não era Satoshi, atribuindo tudo a coincidências. Mas sua linguagem corporal contava outra história: ficou vermelho e se mexeu desconfortavelmente quando confrontado com os pontos mais difíceis de explicar.

Não conseguiu justificar por que havia desaparecido da lista Cryptography exatamente durante o período em que Satoshi estava ativo, nem por que afirmara num podcast ter “participado” do debate de 2008 sobre o white paper —quando claramente não havia feito isso. Diante dos resultados das análises linguísticas, simplesmente disse: “Não sei. Não sou eu, mas aceito o que você está dizendo sobre o que a IA encontrou nos dados.”

Back negou ser Satoshi mais de meia dúzia de vezes. Uma dessas negativas chamou minha atenção: “Claramente não sou Satoshi —essa é minha posição.” Soou mais como uma postura retórica do que uma afirmação factual.

Quando voltei a Nova York e revi a gravação da entrevista, encontrei o momento mais revelador. Ao mencionar a frase de Satoshi “sou melhor com código do que com palavras”, Back me interrompeu: “Eu falei muito, para alguém que… quer dizer, não estou dizendo que sou bom com palavras, mas eu realmente falei muito nessas listas.”

Era como se estivesse dizendo: para alguém que preferia código a palavras, escreveu muita coisa. Implícito nisso estava o reconhecimento de que havia sido ele quem escrevera a frase. Por alguns segundos, Back havia deixado a máscara cair.

Ao confrontá-lo por e-mail, ele negou que fosse um deslize. Mas eu havia sido claro ao perguntar sobre uma citação específica de Satoshi, e tinha a gravação para provar.

Dez anos antes, Satoshi havia saído do anonimato para ajudar Back a vencer o debate sobre o tamanho dos blocos. Ali, num hotel de luxo em El Salvador, Satoshi estava de volta. Só que desta vez havia sido menos cuidadoso e havia dissipado qualquer dúvida restante em minha mente de que eu havia encontrado o homem certo.

Após a publicação da investigação do New York Times, Back reiterou sua posição. “Eu não sou o Satoshi”, disse Back no X nesta quarta-feira (8). Ele acrescentou que é apenas um entre vários desenvolvedores que chegaram “tão perto e ao mesmo tempo tão longe” de construir algo como o bitcoin.

Ele disse que suas frequentes postagens nos Cypherpunks nos anos 1990 tornaram suas opiniões mais proeminentes do que as de outros. Ele disse que, por ter publicado tão prolificamente, pode parecer ter mais em comum com Satoshi do que “outros com interesses semelhantes, mas que publicavam 20 vezes menos”

Autor: Folha

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