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Investimento não é torcida – 24/12/2025 – De Grão em Grão

Sempre que escrevo sobre investimentos, noto um impulso quase automático de parte dos leitores: descobrir rapidamente de que lado eu estou. Sou a favor ou contra? Vale a pena ou não vale? Compro ou passo longe? O debate vira uma espécie de clássico de domingo, em que o importante é escolher um time e defendê-lo até o fim.

O problema é que investimento não funciona como futebol. Não existe torcida organizada para ativo financeiro. Existe análise.

No passado, já escrevi diversas vezes que, olhando a média histórica, investimentos financeiros de renda fixa superaram o retorno médio de imóveis em muitos períodos. Esse dado incomoda quem acredita que imóvel é, por definição, o melhor investimento possível. Também leva a uma crença errada sobre um possível posicionamento meu sobre o ativo.

Por exemplo, nesse fim de semana, em entrevista com um empreendedor de sucesso do setor imobiliário, como Alexandre Frankel, surgem argumentos bem estruturados a favor da compra. Para alguns leitores, isso soa como contradição. Na verdade, é exatamente o oposto: é coerência analítica.

Entrevistar alguém não significa aderir automaticamente à sua visão. Ouvir bons argumentos não obriga ninguém a transformá-los em regra universal. O que muda não é o “lado” do autor, se alguém acha que existe, mas o repertório do leitor.

A armadilha está na lógica binária. Quando a pergunta é “vale a pena ou não vale?”, a resposta quase sempre será ruim. Porque a pergunta correta nunca é essa. A pergunta certa é: em quais condições, para quem, com quais riscos e comparado a quais alternativas?

Um imóvel pode ser um excelente investimento em uma carteira e um péssimo negócio em outra. Tudo depende do preço pago, da localização, da liquidez esperada, da forma de financiamento, do impacto no orçamento e, principalmente, do retorno ajustado ao risco em relação a outras aplicações disponíveis.

Ignorar essas variáveis transforma qualquer decisão grande em aposta. E, na média, esse é o comportamento dos investidores na aquisição imobiliária.

O erro mais comum que vejo não é comprar imóvel. É comprar imóvel sem fazer conta. Sem avaliar se a parcela cabe com folga no orçamento, sem projetar cenários de vacância, sem considerar custos recorrentes, confundir seu desejo com a real demanda e sem comparar o retorno potencial com investimentos financeiros de risco semelhante. Nesse contexto, o problema não é o produto, é o processo de decisão.

Benjamin Graham, referência central na teoria de investimentos, dizia que investir é uma operação baseada em análise cuidadosa, que promete segurança do principal e retorno adequado. Quando essa análise não existe, o que sobra não é investimento, é convicção —e convicção não protege patrimônio.

O investidor amadurece quando abandona a necessidade de estar “a favor” ou “contra” e passa a aceitar que bons argumentos podem existir dos dois lados. Produtos não são vilões nem heróis. São ferramentas. E ferramentas só fazem sentido quando usadas no lugar certo, para o objetivo certo.

Talvez a maior evolução financeira não seja escolher o ativo correto, mas aprender a fazer a pergunta correta. Quando isso acontece, o debate deixa de ser torcida e passa a ser, finalmente, investimento.

Aproveito para desejar um Feliz Natal.

Michael Viriato é assessor de investimentos e sócio fundador da Casa do Investidor.

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