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Jafar Panahi expõe o dilema entre vingança e perdão – 13/12/2025 – João Pereira Coutinho

Vingança nunca foi o meu forte. Conto sempre com meus inimigos para arruinarem suas próprias vidas. É um pensamento aristotélico, digamos assim: se as virtudes influenciam o caráter, é legítimo pressupor que os vícios também.

A traição, por exemplo, é um vício —no sentido moral e viciante da palavra. Todos os traidores se envenenam lentamente, até traírem a própria impunidade —e ainda não encontrei uma exceção que desmentisse essa regra.

Mas o que eu diria sobre a vingança se minhas dores não fossem apenas banais, mas existenciais?
Como lidaria com um torturador que destruiu minha vida, a vida da minha família, a vida dos meus amigos? Estaria aqui, falando de Aristóteles, enquanto o monstro andaria à solta? Ou tentaria devolver a gentileza com que ele exerceu seu ofício?

Essas são as questões que confrontam Vahid em “Foi Apenas um Acidente”, o filme iraniano de Jafar Panahi que levou a Palma de Ouro em Cannes.

No centro da história está um homem modesto, torturado pelo regime dos aiatolás. Uma noite, o torturador surge por acaso em sua oficina —e Vahid, no andar de cima, reconhece o rangido da perna protética. Decide agir: sequestrá-lo e enterrá-lo vivo no deserto.

Mas as dúvidas logo se instalam: será mesmo o torturador? Como garantir que sim se Vahid estava vendado na prisão e o som sinistro da perna era a única revelação de identidade?

Vahid suspende a vingança e procura a opinião de outras vítimas. Seu furgão se converte em tribunal, e o júri é composto por uma fotógrafa, um casal de noivos e um homem irascível, de nome Hamid, que não tem dúvidas: o “Perneta” está ali e merece morrer.

Não conto o final, obviamente. Mas se o leitor pensa que o pior da vingança é nos tornarmos tão odiosos quanto nossos inimigos (um clichê piedoso), Jafar Panahi talvez tenha uma opinião distinta.

Preso e torturado pelo regime, Panahi deve saber que a justiça humana sempre foi relapsa com os verdugos das ditaduras. Há exceções?

Claro: os julgamentos de Nuremberg condenaram à morte uma dúzia de altas figuras do regime nazista. Mas os quadros médios, que fizeram o trabalho sujo porque “estavam apenas a cumprir ordens” (outro clichê), acabaram se integrando pacificamente às Alemanhas do pós-Segunda Guerra.

O mesmo ocorreu depois da queda do comunismo. Para ficarmos também na República “Democrática” Alemã, a esmagadora maioria dos oficiais da Stasi, a polícia política do regime, escapou ilesa às garras da justiça democrática.

Processos semelhantes aconteceram em Portugal, na Espanha, no Brasil. Não seria de espantar que o Irã, um dia, optasse por esse caminho, permitindo que os “guardas revolucionários”, o clero, os magistrados e os burocratas acabem desaparecendo dos radares, invisíveis e impunes.

Antes que isso suceda, Jafar Panahi concentra o seu olhar no drama particular de um homem obrigado a partilhar o espaço com o seu velho carrasco. Para nos interpelar diretamente: onde mora a justiça —na vingança ou no perdão?

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