Entre autores e críticos de vinho, é uma mulher em atividade há 50 anos que se destaca como nome mais importante do meio. Neste meio século, a britânica Jancis Robinson, 72, viu modas irem e virem, o consumo da bebida atingir um pico na pandemia e, depois, cair —impactado pela queda da renda e pela preocupação com a saúde.
Ao mesmo tempo, ela chama a atenção para o fato de que nunca se ensinou tanto sobre o assunto. Robinson também diz que sempre haverá os chamados “vinhos de bilionários“, porque os bilionários precisam deles.
À Folha, a autora de livros fundamentais como “The World Atlas of Wine”, em sua oitava edição, e ‘The Oxford Companion of Wine’, na quinta, faz um retrato do estado do vinho no mundo e questiona malefícios da bebida, mas reconhece que é preciso ter cuidado com o consumo —segundo a OMS, nenhuma quantidade é segura para a saúde.
Como o jeito com que se olha para o vinho mudou nos seus 50 anos de carreira?
Quando comecei, o vinho era visto como algo exótico e elitista na Grã-Bretanha. Isso mudou quando começamos a viajar pela Europa e a encará-lo como parte do dia a dia. Mais recentemente, porém, a alta dos preços versus a queda da renda e as preocupações com a saúde reduziram o consumo após o “pico da Covid”, que inflou temporariamente as vendas. Nos EUA ocorreu algo parecido.
Nos países produtores europeus, onde o vinho sempre foi hábito, a queda é maior: o público envelheceu e muitos jovens passaram a associá-lo a gerações mais velhas, preferindo coquetéis e cervejas artesanais ou recusando as bebidas alcoólicas.
Ainda assim, há um núcleo forte de interessados. Estou atualizando o “World Atlas of Wine”, um dos meus principais livros, e é impressionante quantos novos produtores surgem em países como Japão e no Leste Europeu. Ainda há muita gente interessada em vinho. Basta ver quantos estão fazendo cursos. O enoturismo também cresce. O que está caindo é o consumo.
Isso é meio contraditório, não?
Sim. E a qualidade do que é produzido só aumenta, porque o mercado é muito competitivo. Só sobrevive quem faz vinhos cada vez melhores.
Isso pode mudar a forma como os preços serão definidos?
Quem começa a beber hoje já não bebe vinhos que eram acessíveis no passado. Sim, pode haver mudanças. Borgonha é um exemplo: os preços subiram muito e agora estão suavizando. No mercado secundário e em leilões, já não sobem mais e, em alguns casos, estão caindo lentamente. Parte disso depende de quantos bilionários continuarão surgindo, porque bilionários precisam de vinhos para bilionários —eles mantêm os preços dos grandes vinhos altos. Mas, se a economia global piorar, talvez você possa comprar um Romanée-Conti [um dos vinhos mais caros do mundo].
Você desempenha muitos papéis no mundo do vinho —é escritora, editora, crítica. Como equilibra tudo isso e mantém o entusiasmo após tanto tempo?
Sou realmente interessada pelo vinho. Aceito muitos convites para degustações —muitas vezes não precisaria ir, mas sou curiosa. Se o vinho fosse como muitas bebidas destiladas, que você pode produzir em quantidade ilimitada e com o mesmo sabor, talvez não me interessasse tanto. Mas há tantos produtores, regiões, uvas e descobertas científicas que o assunto permanece fresco.
Sobre a diferença entre crítica e escrita: amo escrever. Amo as palavras. Não vejo escrever como obrigação. E não quero que o ChatGPT assuma meu laptop e produza artigos por mim. “Crítica” soa negativo. Talvez eu seja mais crítica nas minhas notas de degustação do que outros escritores, mas espero que meu papel principal não seja criticar.
Fico triste quando alguém se sente ofendido, porque odeio conflito. Não faço nada de forma maliciosa, só digo o que penso. Sinto que meu primeiro dever é com os leitores e consumidores, não com os produtores.
Qual o adjetivo mais absurdo ou exagerado que você já ouviu para descrever um vinho?
O que mais critico são notas de degustação que listam dez ou mais frutas, flores e sabores. Se há um sabor dominante, vale dizer, mas no geral não é útil. As pessoas têm paladares e preferências diferentes. Prefiro dizer se é jovem ou velho, doce ou ácido, dar uma ideia de qualidade.
Qual é o primeiro conselho que você dá a alguém que quer beber melhor?
A coisa mais útil que você pode fazer é encontrar uma loja de vinhos local administrada por um entusiasta. Diga a ele que tipo de vinho você gosta e peça que recomende algo um pouco mais interessante ou um pouco melhor em termos de valor. É interesse do varejista dar um bom conselho a você. E assim, com sorte, você desenvolverá uma relação com ele.
Qual é a coisa mais irritante sobre o mundo do vinho?
A complacência, porque todos nós amamos o produto, que tende a nos alegrar e talvez a desfocar nossa percepção das dificuldades em que o mundo do vinho está hoje.
Também estou irritada com a Organização Mundial da Saúde e suas declarações sobre o álcool, muitas delas exageradas. Eu entendo que o álcool é uma toxina e que temos que ter cuidado com o consumo. Mas o tipo de declaração que a OMS tem dado, como a que diz que cada gole de vinho aumenta suas chances de ter câncer, é quase como uma relação causal. Certamente o álcool aumenta o risco de certos cânceres, mas também tem alguns benefícios. E esses nunca são explicitados.
Os artigos de Felicity Carter para a [revista] Meininger’s Wine Business trazem uma investigação fantástica sobre as pessoas por trás dos pronunciamentos da OMS. Há um movimento de temperança muito substancial ali. Pessoas que têm uma agenda prévia e não estão abordando o assunto de forma objetiva.
Como você acha que a indústria do vinho pode responder a isso sem parecer irresponsável?
É muito, muito difícil. Não tenho certeza. Sei que a Académie Internationale du Vin, que é um grupo de grandes produtores de vinho, tentou fazer uma declaração, assim como a União Europeia de Varejistas. Mas, como você sugere, quem vai ouvir?
Qual é a sua visão sobre o declínio do consumo, especialmente entre os jovens?
O mercado tem algo a ver com as pessoas beberem menos ou é mais a preocupação com a saúde? Há bem mais concorrência do que antes: cerveja artesanal, destilados artesanais, coquetéis, bebidas com pouco ou nenhum álcool. A pequena faísca no consumo dos jovens é o vinho natural.
Mas, no geral, o mundo do vinho é lento para perceber a concorrência e tentar responder a ela. Todo mundo continua dizendo: conte histórias —o que é algo em que eu posso ajudar. Mas, ainda assim, as pessoas têm dificuldade de se concentrar. Não sei se as pessoas estão lendo tanto assim hoje em dia, tudo é vídeo curto.
Acha que há um lugar para o vinho nas redes sociais?
A principal coisa sobre o vinho é prová-lo, o que você não pode fazer online. Durante a Covid, muitas pessoas foram para o online. Mas degustação de vinho não é um esporte para espectadores, você tem que fazer você mesmo.
Ao longo destes 50 anos, você viu muitas tendências irem e virem. Há alguns anos estamos celebrando vinhos mais leves, com maior acidez. O que vem a seguir?
Me pergunto se a reação a essa onda de vinhos mais leves, pálidos e frescos não será um retorno a vinhos com mais corpo e intensidade —algo com mais meio de boca e fruta madura. Alguns desses vinhos mais leves podem ter menos álcool, mas às vezes também têm menos sabor.
O conhecimento sobre vinho muitas vezes funciona como marcador de distinção, sofisticação e até exclusão. Por que isso acontece?
Vejo dois fenômenos diferentes. Um é o enochato, que usa rótulos caros como símbolo de status. Isso pode afastar as pessoas, porque reduz o vinho a prestígio e não à diversidade e ao prazer. O outro é a exclusão estrutural — racial, étnica ou de gênero. Estou envolvida em iniciativas para combater isso, especialmente na Fundação Gérard Basset [organização sem fins lucrativos que promove educação e inclusão no setor no vinho].
Onde encontrar pechinchas? Pode ser uma uva, uma região, um país.
Portugal e Grécia têm a grande vantagem de possuir uma enorme variedade de castas próprias, muito interessantes, em vez de apenas cabernet. Estamos saindo dessa mania cabernet e chardonnay.
Jancis Robinson, 72
Com 50 de carreira, a britânica é considerada uma das mais importantes críticas de vinho do mundo. Escreveu livros importantes da área, como ‘The World Atlas of Wine’ e ‘The Oxford Companion of Wine’.
Autor: Folha








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