O ator Luiz Vieira, 30, conta que, quando adolescente, enfrentou problemas familiares que marcariam sua personalidade para sempre. Ele viu o pai se afastar da família em razão do alcoolismo, fato que gerou uma desconfiança duradoura com o álcool.
Vieira é um dos jovens adultos que, hoje, mantêm relação cautelosa com as bebidas alcóolicas. Tal movimento tem ganhado tração nos últimos anos e um reforço extra com o chamado Janeiro Seco, mês em que os adeptos fazem uma pausa no consumo de álcool.
Criado no Reino Unido em 2013, o “Dry January” (janeiro seco, em inglês) tinha por objetivo promover um detox após as festas de fim de ano. Com o tempo, ganhou força como estratégia de bem-estar, amparada por dados que relacionam o álcool a problemas de saúde física e mental –doenças hepáticas, câncer, ansiedade, depressão e distúrbios do sono, por exemplo.
Os adeptos foram personalizando a iniciativa, sempre com a proposta de desviar o foco do álcool. Para Vieira, por exemplo, o Janeiro Seco o convida a equilibrar sua relação com a substância e o afasta de lembranças negativas.
“O álcool sempre foi uma questão delicada na minha vida, em razão do vício do meu pai. Quando adolescente, eu me imaginei livre disso no futuro. Eu não queria ser mais um distante da família, não queria ver os problemas se repetirem. Aderir ao Janeiro Seco é uma forma de me manter fiel a esse propósito”, afirma o ator.
Vieira conta que começou a beber no fim da adolescência e afirma que seu consumo progrediu com os anos. “Eu bebia com muita frequência, tinha muita cerveja e vinho em casa”, lembra. Na medida em que foi envelhecendo, passou a beber menos. “Me lembro de uma frase do MC Hariel, artista que gosto muito, destacando o álcool como uma droga, algo que destroi vidas”, diz.
Neste mês, Vieira diz querer se dedicar à leitura. Além disso, deve começar um novo esporte, o jiu-jítsu. Ambas as atividades, ele diz, ajudam a manter corpo e mente saudáveis –e afastados do álcool. Ele já joga futsal.
O esporte também é um pilar para Júnior (nome fictício), 17. Ele conta que começou a beber aos 14 anos, por influência de amigos, quando estava no ensino fundamental.
Com a mudança de atmosfera, um novo colégio, novas amizades, experimentou influências que diziam o contrário, que “beber é atraso de vida”, em suas palavras. Conheceu o Janeiro Seco em 2024 e diz que impôs a si próprio o desafio de não beber. A partir dali, passou a treinar basquete, esporte que pratica até hoje.
Agora ele afirma que depois deste mês espera não voltar a beber e que deseja progredir no esporte.
O Janeiro Seco auxilia as pessoas, sobretudo os mais jovens, a se manterem distante de algo que causa doenças do pé à cabeça, afirma Rogério Alves, ex-presidente da Associação Paulista para o Estudo do Fígado e hepatologista do Hospital Samaritano Higienópolis.
“É uma brincadeira que faço com um fundo de sentido: o álcool é associado a pancreatite, cirrose, doença no fígado e até demência. Ter algum problema com o álcool não é uma questão de ‘querer’, há muitas variáveis que levam a isso”, explica o médico.
Heredietariedade, genética e sexo biológico são exemplos. Segundo Alves, a ingestão de 60 g (para homens) e 40 g (para mulheres) por dia durante dois anos é suficiente para causar uma cirrose. Tal dosagem está contida em aproximadamente quatro latas de cerveja, por exemplo.
“O álcool tem uma ação muito tóxica que causa inflamação a níveis celulares, daí sua relação com o surgimento de cânceres. As pessoas associam seu consumo a um estado de relaxamento quando, na verdade, ele está causando todas essas agressões e atingindo inclusive o sistema nervoso central, em movimento oposto ao relaxamento”, afirma a Fabiana Romanello, infectologista do Hospital Santa Cruz em Mogi Guaçu, no interior de São Paulo.
Para ela, o Janeiro Seco, a exemplo de outras campanhas que usam meses para conscientizar sobre variados assuntos, é uma importante estratégia, à medida que engaja profissionais de saúde e a população na discussão sobre a ingestão de álcool.
“Ao ficar um mês sem beber, a pessoa percebe a melhora que isso proporciona e enxerga um novo caminho possível para seu bem-estar”, diz.
Segundo pesquisa Datafolha divulgada em maio do ano passado, metade dos brasileiros (49%) com 18 anos ou mais costuma consumir bebidas alcoólicas, sendo que 3% consomem esse tipo de produto de cinco a sete dias por semana.
A OMS (Organização Mundial da Saúde) preconiza que não há dose segura para consumo de álcool e que qualquer quantidade traz riscos, especialmente no longo prazo.
Para além das questões de saúde, as enfermidades causadas pelo álcool, como as que Luiz Vieira enfrentou mais jovem, reforçam no imaginário de muitos jovens a relação entre álcool e malefícios. Se depender dele, o Janeiro Seco será uma constante nos anos vindouros, afirma o jovem.





