sábado, dezembro 27, 2025

Juros altos: o álibi do ‘excesso de demanda’ – 11/12/2025 – Mercado

“O fato de o juro no Brasil, na média do ciclo econômico, ser elevado é consequência de a economia operar, quase sempre, com excesso de demanda sobre a oferta.”

A frase de Samuel Pessoa, em coluna na Folha, é sedutora: se o país vive quase sempre “no limite”, juros altos deixam de ser escolha de politica e viram consequência inevitável da escassez —de poupança, de capacidade produtiva, de oferta. É uma narrativa redonda. O problema é que ela depende de um protagonista invisível: o hiato do produto.

Diferente do desemprego ou da inflação, o hiato é uma construção teórica. Ele tenta medir a distância entre o que o país produz de fato e o que poderia produzir (seu “potencial”). Dizer “juros altos por excesso de demanda” é afirmar que o Brasil opera cronicamente acima desse potencial —como se não houvesse “máquinas e braços parados”.

Só que, na prática, as métricas de hiato não fazem um inventário direto de ociosidade.

1. O erro do retrovisor

A maioria das métricas de hiato nasce de uma régua estatística: olha-se para o passado, traça-se uma tendência “suave”, e o hiato vira o desvio em relação a essa linha.

O problema? Quando juros altos deprimem a economia por anos, a régua se adapta. A tendência desce, o “potencial” estimado cai, e o hiato negativo desaparece —não porque a ociosidade sumiu, mas porque foi rebatizada de “novo normal”.

É como dirigir com o freio de mão puxado: depois de um tempo, a estatística conclui que aquela é a velocidade “natural” do carro. Diagnostica-se “pleno emprego” não porque a economia esgotou sua capacidade, mas porque o modelo aceitou a estagnação como nosso limite.

2. A profecia autorrealizável

Há um agravante técnico: como essas métricas são imprecisas para medir o presente, os economistas costumam “fechar” a conta usando as projeções do mercado para o futuro (o Boletim Focus).

Isso pode criar um ciclo vicioso. O mercado espera espera juros altos e projeta crescimento baixo. O modelo usa esse pessimismo para rebaixar o potencial futuro e, por tabela, encolhe o espaço para crescer hoje. A economia passa a parecer mais próxima do limite, validando o aperto monetário.

Depois, o Banco Central sobe o juro porque o modelo diz que não há espaço; a economia trava; e anos depois a estatística confirma que “o potencial era baixo“. A política que achata o crescimento ajuda a definir o “potencial” que, depois, serve de justificativa para a própria política. O erro de avaliação do presente se cristaliza como verdade histórica

3. Outras medidas de baixa qualidade

O refúgio habitual é dizer que existem outras medidas mais robustas. Ledo engano.

A abordagem de “função de produção”, que em tese olha diretamente para capital e trabalho, também mede “ociosidade” comparando o presente com um padrão suavizado do passado. Muda-se o rótulo, o vício permanece.

Já os modelos que inferem “pleno emprego” só porque a inflação subiu ignoram que preços podem subir com economia fraca. Basta câmbio, preços administrado ou expectativas piorarem. Usar inflação como prova definitiva de “excesso de demanda” gera diagnósticos errados —e prescreve mais juros para uma economia que tem espaço para crescer.

Nada disso nega restrições reais de produtividade, infraestrutura ou incerteza institucional. O ponto é outro: afirmar que o juro é alto porque operamos “quase sempre” com excesso de demanda é uma tese forte demais para se apoiar em métricas viciadas, que podem estar apenas medindo o desvio em relação a uma tendência deprimida pelo próprio regime de juros altos.

Há, por fim, uma ironia cruel. Mesmo que hoje pareça haver “falta de máquinas”, isso não salva a tese. O estoque de capital não cai do céu: é acumulado no tempo. Juros reais extravagantes por tempo demais encarecem o investimento e travam a expansão da capacidade produtiva.

A contabilidade então dirá que “faltam máquinas” —e pode estar certa na foto de hoje. O erro é transformar essa foto em inevitabilidade: faltam máquinas porque, por muito tempo, foi caro demais financiá-las.

Nesse caso, o juro alto deixa de ser consequência da escassez e passa a ser parte do mecanismo que a produz.

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