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K-dramas impulsionam fetichização de homens coreanos – 13/01/2026 – Equilíbrio

Um grupo de brasileiras que mantêm relacionamentos virtuais viajam à Coreia do Sul para ver se vai dar namoro ou casamento. Essa é a premissa de “Meu Namorado Coreano”, reality show da Netflix lançado neste mês.

A produção, entre as mais vistas do streaming, reacendeu o debate sobre fetichização de homens coreanos, impulsionada pela popularização dos k-dramas, as séries produzidas no país asiático.

Nos romances e comédias românticas do gênero, os protagonistas costumam ser apresentados sob uma lente idealizada e mais sensível da masculinidade, explica Daniela Mazur, pesquisadora em pós-doutorado na Universidade Federal Fluminense (UFF) especializada em cultura pop coreana. “Eles choram, demonstram seus sentimentos, priorizam suas companheiras, são apaixonados e realizam grandes gestos de amor, ao mesmo tempo em que são viris e fortes”, diz ela.

Isso contrasta com a imagem de “macho” da masculinidade hegemônica ocidental, o que ajuda a entender porque mais mulheres tem se atraído por esses homens, afirma a pesquisadora. Essa representação, no entanto, é contruída, assim como nas nossas novelas.

Acreditar num “príncipe encantado coreano” é como “um adulto acreditar em Papai Noel”, afirma Patrícia Gonçalves, psicóloga e mestra em comportamento sexual pela Faculdade de Medicina da USP. A fetichização, ela explica, é um fenômeno social que idealiza um corpo e reforça certas características como objeto de desejo.

Cria-se, então, uma obssessão, diz Gonçalves. Essa idealização, ela alerta, gera expectativas que resultam em frustração. Além disso, limita e causa dificuldades em se relacionar e pode levar ao isolamento e até à depressão.

A objetificação também tem impactos na comunidade coreana, segundo Bruno Kim, presidente da Associação Brasileira dos Coreanos. “Ocorre uma redução da pessoa à fantasia. Isso se manifesta em abordagens invasivas, expectativas irreais de comportamento, comentários sobre aparência e sexualização.”

O movimento reforça estereótipos raciais e apaga a diversidade da comunidade, ele completa. “Admirar a cultura coreana é legítimo, o problema surge quando esse interesse ultrapassa o respeito e se transforma em objetificação.”

Corpos asiáticos tendem a ser percebidos pelo público ocidental como “exóticos”, afirma Mazur. É esse “ser exótico” que ajuda a explicar por que séries americanas ou europeias, por exemplo, não ganharam um movimento de fetichização tão forte.

Quando o contador sul-coreano Luis Kim, 27, chegou ao Brasil, em 2010, a k-cultura não era tão conhecida. “As pessoas olhavam asiáticos da mesma forma, eu era chamado de japa ou china na rua”, ele diz. Após o sucesso global de “Gangnam Style“, ele observa, surgiu um interesse, ainda que nichado, por pessoas dessa comunidade.

À época do hit do k-pop, diz Kim, ele começou a ser abordado por fãs. “Uma vez, uma pessoa veio correndo e me abraçou, sem eu permitir”, conta. Casos assim já não acontecem mais, ele ressalva, mas percebe que muitos coreanos e asiáticos que conhece são mais abordados por mulheres. Surgiram festas para paquerar coreanos, diz. Criou-se até um nome para isso, Maria Kimchi –referência a um prato tradicional coreano.

A comunidade coreana no Brasil passou de desconhecida para um grupo que recebe grande visibilidade e interesse, diz Bruno Kim. Ele alerta que, com isso, surgiram golpes que se aproveitam dessa onda e situações de assédio.

No ano passado, um site que vendia encontros “iguais aos doramas” com coreanos em São Paulo passou a ser investigado pela associação. Os pacotes anunciados incluíam “experiência íntima em um motel ou uma casa”. A plataforma, Kdramadate, saiu do ar.

Em março de 2025, uma fã deu um beijo na bochecha de Lee Junho, astro dos k-dramas, em evento na capital paulista. Em agosto, uma mulher tentou agarrar um dos membros do grupo Younite, que fazia show. Neste mês, uma brasileira foi detida em delegacia de Seul por supostamente perseguir Jungkook, do BTS.

Ana Luiza Barbosa, mestra em educação matemática, nunca tinha visto um k-drama quando conheceu o professor de coreano Wansub Kim, há sete anos, num aplicativo de conversação entre estrangeiros. Depois de meses de conversa, eles perceberam que gostavam um do outro.

Hoje, são casados e moram no Brasil. Quando começou a compartilhar sobre seu relacionamento nas redes sociais, diz Barbosa, seguidores a procuraram dizendo que queriam um namorado coreano. “Como consequência, aceitavam qualquer coreano, inclusive aqueles que mentiam que eram”, diz ela, que também recebeu relatos de vítimas de golpes.

Em “Meu Namorado Coreano”, as participantes descobrem ao chegar em Seul que não é bem um conto de fadas. Um dos pretendentes não vai ao aeroporto, outro já traiu a namorada. Na vida real, há casos de brasileiras que sofreram assédio ou violência de seus parceiros no país asiático.

A produção foi criticada nas redes sociais por reforçar estereótipos e correr o risco de transmitir uma imagem negativa no exterior. Em nota, a Netflix afirma que o programa abre espaço para reflexões sociais relevantes e atuais. “A partir de histórias pré-existentes, o doc-reality apresenta de forma espontânea as diferenças e aproximações entre Brasil e Coreia do Sul, buscando autenticidade e o respeito às múltiplas perspectivas culturais.”

Nos últimos três anos, a Embaixada do Brasil na Coreia do Sul registrou denúncias de violência doméstica de seis brasileiras. O órgão afirma em nota que não realiza o registro formal de denúncias criminais e encoraja a vítima a registrar boletim de ocorrência em delegacias de polícia, além de oferecer apoio.

De acordo com pesquisa do Korean Women’s Development Institute, feita entre 2021 e 2024, uma a cada cinco mulheres coreanas relata ter sofrido ao menos uma forma de violência por um parceiro. Em resposta à misoginia no país asiático, feministas criaram o movimento 4B, que segue o princípio de sem namoro, sexo, casamento ou filhos.

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