quarta-feira, janeiro 7, 2026

Kennedy muda diretrizes alimentares dos EUA – 06/01/2026 – Equilíbrio e Saúde

Quando Robert F. Kennedy Jr. tomou posse como secretário de saúde no ano passado, ele prometeu melhorar o bem-estar dos americanos. Agora, ele e outros em seu círculo do “Make America Healthy Again” (faça a américa saudável de novo) estão tentando cumprir essa promessa reescrevendo as diretrizes alimentares para americanos, a orientação oficial do governo sobre o que comer e beber para uma boa saúde.

As diretrizes, atualizadas a cada cinco anos, não mudaram muito em substância desde que foram publicadas pela primeira vez em 1980.

Mas Kennedy sugeriu que a nova versão —esperada para os próximos dias— será radicalmente diferente, com recomendações revisadas sobre carne, laticínios e gorduras saturadas, preocupando alguns pesquisadores de nutrição.

O que são as diretrizes alimentares?

As diretrizes são uma ferramenta de saúde pública, destinadas a traduzir evidências científicas sobre dieta e saúde em conselhos práticos.

Elas nos dizem quantas frutas e vegetais consumir todos os dias, se devemos cozinhar com óleos vegetais ou manteiga, o que comer para obter proteína suficiente e mais. Há também orientações para pessoas em várias fases da vida, como quanto de cafeína é seguro para mulheres grávidas, quando os bebês devem começar a comer alimentos sólidos e quais suplementos os adultos mais velhos podem precisar.

A cada cinco anos, funcionários dos departamentos de Agricultura e Saúde e Serviços Humanos revisam as diretrizes para refletir as mais recentes descobertas científicas em nutrição. Elas são tipicamente publicadas em um documento longo e denso, escrito para profissionais, incluindo formuladores de políticas, funcionários de programas federais de alimentação e prestadores de cuidados de saúde, como médicos, enfermeiros e nutricionistas.

Por que as diretrizes são importantes?

A pessoa comum provavelmente não pensa sobre as diretrizes alimentares, diz Marion Nestle, professora emérita de nutrição, estudos alimentares e saúde pública da Universidade de Nova York. Mas elas afetam milhões de pessoas todos os dias.

Elas ajudam a determinar o que está nos cardápios de creches, escolas e refeitórios militares. Influenciam os alimentos oferecidos em programas que fornecem refeições ou mantimentos gratuitos, como para idosos com problemas de mobilidade ou mulheres e crianças de baixa renda.

Também moldam os currículos de nutrição nas escolas e centros comunitários, e os conselhos que médicos e outros profissionais de saúde fornecem.

Como o processo está diferente desta vez?

Alguns anos antes das diretrizes serem atualizadas, funcionários federais normalmente nomeiam um grupo de cientistas de nutrição de instituições acadêmicas e de pesquisa para revisar as evidências científicas sobre o que comer para uma boa saúde. Esse comitê compila um resumo de suas recomendações para que funcionários federais usem para escrever as novas diretrizes.

O processo desta vez começou de maneira típica —um comitê científico conduziu sua revisão em 2023 e 2024 e emitiu um relatório em dezembro de 2024. Mas Kennedy criticou o relatório vários meses após sua apresentação, dizendo que era muito longo e alegando, sem evidências, que foi influenciado pela indústria alimentícia e, portanto, comprometido.

Ter um secretário de saúde atacando publicamente o trabalho do comitê científico é “totalmente sem precedentes”, diz Kevin Klatt, professor assistente de ciências nutricionais da Universidade de Toronto.

Kennedy está supervisionando a atualização das diretrizes, mas não está claro se especialistas qualificados estão aconselhando-o, ou como estão avaliando evidências científicas, diz Walter Willett, professor de epidemiologia e nutrição da Escola de Saúde Pública T.H. Chan de Harvard.

O que os especialistas estão observando?

Especialistas em nutrição disseram que estariam examinando minuciosamente as recomendações sobre carne vermelha, laticínios, gorduras saturadas, alimentos ultraprocessados e álcool, porque acreditam que essas áreas podem se desviar das edições anteriores.

Nos últimos meses, Kennedy e Brooke Rollins, a secretária de agricultura, sugeriram que as novas diretrizes recomendariam consumir mais carne vermelha —em particular, carne bovina.

Kennedy também disse que as novas diretrizes podem incentivar o consumo de gorduras saturadas, um tipo de gordura encontrada não apenas em carnes vermelhas e processadas como carne bovina, bacon e salsichas, mas também em produtos lácteos e certas gorduras de cozinha como manteiga, óleo de coco e sebo bovino. Ele disse que as diretrizes “elevariam” produtos lácteos integrais como leite integral e queijo, que são ricos em gorduras saturadas.

Os especialistas também estarão atentos se as diretrizes recomendam limitar ou até evitar alimentos ultraprocessados, que têm sido associados a problemas de saúde como obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares e certos tipos de condições gastrointestinais e cânceres.

E estarão observando o que as diretrizes dizem sobre álcool, dadas as evidências recentes de que nenhuma quantidade de bebida é segura para a saúde. O consumo de álcool é uma das principais causas de doenças crônicas nos Estados Unidos, diz Katherine M. Keyes, professora de epidemiologia da Universidade Columbia. Segundo ela, beber menos melhoraria a saúde das pessoas.

Essas mudanças nos tornariam mais saudáveis?

Algumas mudanças seriam bem-vindas, dizem os especialistas, e outras não. Comer mais carne vermelha não melhoraria a saúde dos americanos, diz Nestle. Pesquisadores descobriram que pessoas que comem muita carne vermelha e processada têm maiores riscos de desenvolver condições como doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e câncer colorretal. O comitê científico havia aconselhado que as novas diretrizes recomendassem substituir carnes vermelhas e processadas por mais fontes vegetais de proteína, como feijões, ervilhas e lentilhas.

Os americanos já estão comendo carne vermelha suficiente, diz Dariush Mozaffarian, cardiologista e diretor do Instituto Food Is Medicine da Universidade Tufts. Embora o consumo ocasional seja aceitável, acrescentou, a carne vermelha não deveria receber uma “aura de saúde imerecida”.

Também não há evidências de que consumir mais gordura saturada beneficiaria a saúde, diz Klatt. Na verdade, consumir demais poderia aumentar o risco de desenvolver colesterol alto e doenças cardiovasculares.

Muitos especialistas apoiariam mudanças que recomendam comer menos alimentos ultraprocessados. Mas Willett disse que as diretrizes deveriam enfatizar a limitação dos alimentos ultraprocessados mais prejudiciais —como bebidas açucaradas, carnes processadas e aqueles feitos principalmente com grãos refinados— e deixar claro que alguns alimentos ultraprocessados, como pães e cereais integrais, podem ser escolhas saudáveis.

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