sexta-feira, janeiro 2, 2026

Liderança na esfera federal ainda é racialmente desigual – 24/12/2025 – Políticas e Justiça

O Brasil vive hoje um paradoxo no coração do Estado. Nunca tivemos tantos profissionais negros ocupando cargos de liderança, mas, ainda assim, as posições estratégicas continuam majoritariamente brancas.

O decreto 11.443/2023 estabeleceu o mínimo de 30% de pessoas negras em cargos e funções comissionados na administração pública federal direta, autárquica e fundacional. O texto dividiu esses profissionais em dois grupos: níveis 1 a 12 (baixa e média liderança) e 13 a 17 (alta liderança).

Para analisar esse cenário e a efetividade do decreto, o Movimento Pessoas à Frente e o Núcleo de Estudos Raciais do Insper divulgaram um estudo que mostra um avanço relevante, mas ainda desigual, na ocupação de cargos de liderança por pessoas negras na administração federal: em setembro de 2025, elas representavam 38,6% do total, chegando a 40,03% nos níveis de base e média liderança, com destaque para ministérios sociais onde a diversidade já é padrão, como Igualdade Racial (84,62%) e Mulheres (55,26%).

Esse progresso, contudo, perde força no topo da hierarquia: o percentual cai para 30,85%, e 40,4% dos órgãos permanecem abaixo da meta, com as maiores assimetrias concentradas em ministérios ligados à política econômica, ao serviço exterior, à regulação e ao controle, onde a presença negra frequentemente é mais baixa.

As posições de liderança em governo são fundamentais pela responsabilidade na gestão e entrega de resultados à sociedade. São elas que administram recursos, lideram inovações, gerenciam riscos e crises, engajam e inspiram equipes. Nesse sentido, o contraste entre as camadas da pirâmide é revelador, pois o Estado conseguiu diversificar a porta de entrada e os níveis intermediários, mas a alta cúpula persiste em não mudar. Tal resistência possui raízes históricas, institucionais e organizacionais.

Parte dessa defasagem decorre de carreiras tradicionais, como diplomacia, alta gestão econômica e pesquisa científica, que há décadas possuem uma composição racial desigual. Iniciativas como o pacote de ações afirmativas lançado pelo Itamaraty buscam enfrentar esse desequilíbrio, mas seus efeitos estruturais são lentos e graduais. Mesmo com avanços sólidos na base, a sucessão para o topo não se converte automaticamente em representatividade.

Dessa forma, embora o decreto acerte ao segmentar a meta em dois blocos para evitar compensações entre baixa, média e alta liderança, é necessário criar mecanismos para que cada órgão avance de forma consistente.

Se o país deseja um Estado que reflita sua população, o decreto 11.443/2023 precisa ser visto como ponto de partida e não de chegada. É importante publicar metas intermediárias, estruturar planos de sucessão racial, estabelecer monitoramento público periódico e reforçar a atuação dos ministérios responsáveis, apoiando especialmente os órgãos com mais dificuldades.

A diversidade avançou, mas ainda não governa o Estado brasileiro. O topo, esse espaço onde se desenha o país, segue mudando a passos mais lentos. A próxima etapa da política pública deve enfrentar justamente essa fronteira. Pois no final, não basta abrir portas. É preciso garantir que elas levem, de fato, às salas onde se decide o futuro do Brasil.

O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço Políticas e Justiça da Folha de S. Paulo sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Jessika Moreira, Michael França e Daniel Duque foi “Refazenda”, de Gilberto Gil.

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