No fim de janeiro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) regulamentou o plantio de cannabis sativa, conhecida como maconha, para fins medicinais no Brasil. A medida atende a uma determinação do Superior Tribunal de Justiça (STJ) sobre o cultivo e comercialização da planta, mas vai de encontro com a avaliação de especialistas médicos, que vêm alertando há tempos que essa decisão pode trazer mais impactos negativos do que positivos.
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Um estudo recente, publicado em janeiro de 2026, revisou uma série de pesquisas envolvendo mais de 2,1 mil pacientes e concluiu que os benefícios da cannabis são, no máximo, inconsistentes. Ao mesmo tempo, a revisão mostrou que os efeitos colaterais do uso dessas substâncias são frequentes e preocupantes.
Mais do que isso: em vez de oferecer respostas claras sobre a efetividade da chamada “cannabis medicinal”, a revisão mostra que a base de evidências médicas a favor da planta é fraca. Muitas das pesquisas que valorizam o uso de canabinoides, aponta o estudo, se baseiam em poucos testes clínicos de alta qualidade.
Uma das indicações mais comuns dos derivados da maconha na medicina é no tratamento da dor neuropática crônica, uma condição em que o paciente sofre com sensações como queimação, choques, formigamento ou dormência. Medicamentos convencionais, como a gabapentina e outros antidepressivos, costumam ser eficazes em apenas um terço dos pacientes.
Derivados da maconha não foram melhores do que placebo
Nos estudos que passaram pela revisão, três tipos de derivados da maconha foram testados nos pacientes. Naqueles com proporções similares de canabidiol (CBD) e tetra-hidro-canabidiol (THC) – a substância alucinógena da maconha – apenas poucos pacientes tiveram algum benefício. A redução na dor foi a mesma dos remédios convencionais, diz a revisão.
Nos produtos onde o THC predominava, os pacientes correm o risco de sofrer com os efeitos psicoativos da droga, além de estarem sujeitos ao vício. Por fim, os produtos baseados em canabidiol não ajudaram a aumentar o número de pacientes beneficiados com queda nos sintomas. Segundo a pesquisa, o CBD não apresentou resultados melhores do que o placebo.
Outra revisão, publicada no final de 2025 no Journal of the American Medical Association (Jama, na sigla em inglês), um dos periódicos mais prestigiados e influentes na medicina mundial, afirma que as evidências mais recentes de ensaios clínicos não apoiam o uso dos derivados da maconha para a maioria das condições em que há indicação.
A revisão sugere que os profissionais de saúde discutam com os pacientes outras estratégias, como a redução de danos, e alertem sobre os riscos de uso simultâneo com outras substâncias, como o álcool. Em resumo, a publicação no Jama aponta que as evidências existentes são insuficientes para sustentar o uso de derivados de maconha como tratamento médico.
Para Associação de Psiquiatria, não existe “maconha medicilal”
Ainda em outubro de 2019, uma publicação conjunta do Conselho Federal de Medicina (CFM) e da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) alertou para os riscos do uso de derivados da maconha como terapêuticos. O “Decálogo Sobre Maconha” começa com uma afirmação clara: “a Cannabis sativa não pode ser consideradas medicamentos e, portanto, não existe ‘maconha medicinal’”.
O documento segue, lembrando que apenas uma das mais de 400 substâncias contidas na maconha, o CBD, está sendo investigada com o objetivo de verificar se existe ou não potencial terapêutico. “Como os poucos resultados obtidos estão longe de ser generalizados, mesmo que o uso controlado possa ser feito, deve-se levar em conta os potenciais malefícios já comprovados”, aponta o decálogo.
Liberar o cultivo da maconha no Brasil é “bizarrice”, diz psiquiatra
O médico psiquiatra e professor titular de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo Ronaldo Laranjeira classificou a decisão da Anvisa em regulamentar o cultivo da maconha para fins medicinais como “uma bizarrice e uma incongruência”. Em entrevista à Gazeta do Povo, ele ressaltou como negativa a influência do lobby da indústria dos derivados da maconha nos órgãos com poder de decisão sobre o assunto.
“A Anvisa classificou esses derivados como fitoterápicos, mas que ainda assim dependem de prescrição médica. Ora, se precisa de receita, isso deveria ser tratado como um remédio, com um controle maior da própria Anvisa. Envolve a dose segura, se é ingerido, injetável ou inalado. Mas não tem nada disso, porque a indústria dos canabinoides fica martelando a informação de que os derivados da maconha funcionam quase como uma ‘solução mágica’”, ponderou o especialista.
Laranjeira disse temer os efeitos a longo prazo da “normalização” do consumo da maconha e seus derivados. Para o psiquiatra, o processo de facilitação do mercado, impulsionado por decisões judiciais e regulatórias, pode aumentar o número de usuários de drogas no país.
Nas contas do médico, o Brasil saltou de uma média de 3% usuários entre a população para mais de 15%. Além desse aumento, a maconha hoje utilizada é mais potente do que as variações de anos passados, o que favorece o aumento de transtornos mentais entre adolescentes e jovens adultos decorrentes do uso da droga.
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Países tolerantes ao uso da maconha e derivados recuaram
Por causa de riscos como esses, países onde o consumo da maconha e seus derivados era tolerado e até mesmo liberado passaram a rever essas condições. Em Amsterdã, capital da Holanda, o Distrito da Luz Vermelha se tornou famoso pela liberdade que usuários tinham para fumar a erva pelas ruas.
Mas desde maio de 2023 esse consumo passou a ser proibido, inclusive no famoso distrito. Novas leis propõem que a venda de maconha nos cafés passe a ser restrito apenas para moradores locais, o que deve afetar no movimento de turistas que visitavam o país para poderem usar a droga sem serem incomodados pela polícia.
Nos Estados Unidos, estados onde antes o consumo da maconha era feito de forma livre voltaram atrás nessas medidas. Um dos casos mais emblemáticos é o Oregon, onde uma lei local de 2020 descriminalizou a posse de pequenas quantidades de todo tipo de droga, inclusive a maconha.
A dificuldade na fiscalização e no controle dos produtos derivados da cannabis, associada ao aumento nos casos de overdoses e de casos de consumo público levaram o governo local a recuar. Desde 2024, a posse de drogas voltou a ser ilegal, e quem é pego com qualquer quantidade de maconha está sujeito à prisão.
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Autor: Gazeta do Povo








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