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Mães são julgadas pela alimentação dos filhos – 24/03/2026 – Equilíbrio

A alimentação de crianças é um tópico que gera debates tanto dentro do núcleo familiar —o caso clássico dos avós que deixam os netos comerem o que os pais não deixam— quanto nas redes sociais. A responsabilidade em relação às refeições, assim como em outros aspectos do cuidado com os filhos, recai mais sobre as mulheres do que sobre os homens.

A pesquisadora Lorena Hakak, presidente da Sociedade de Economia da Família e de Gênero (GeFam), professora da FGV RI e colunista da Folha, destaca que a “figura feminina sofre um julgamento muito maior do que a masculina em diversas esferas, especialmente no que diz respeito aos cuidados”.

“As mulheres são vistas como as principais responsáveis, e qualquer questão relacionada aos filhos pesa sobre elas, muitas vezes de forma mais dura”, diz Hakak.

Após ouvir 3.757 pais e mães nos EUA, pesquisadores do Pew Research Center concluíram que as próprias mães se sentem mais preocupadas e julgadas durante a criação dos filhos.

Segundo o estudo, publicado em 2023, pais foram “mais propensos que as mães a dizer que se sentem julgados pelo cônjuge ou parceiro, pelo menos às vezes, pela forma como criam os filhos.” Mães, por sua vez, disseram mais que “se sentem julgadas por pessoas que não sejam o cônjuge ou parceiro.”

Nas redes sociais, a discussão sobre alimentação de crianças—na maioria das vezes conduzida por mulheres— é polarizada. As críticas sobram tanto para quem oferece uma dieta natural, com acusações de “terrorismo alimentar”, quanto para quem dá de tudo, o que é entendido como “desleixo”.

Em um artigo publicado em 2025 por pesquisadores da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), a falta de rede de apoio é apontada como algo que “pode se refletir em sofrimento, culpa e angústia para as mães”, sobretudo “quando a criança apresenta alteração de saúde ligada à alimentação.”

A psicanalista Vera Iaconelli, colunista da Folha, diz que muito dessa pressão é perpetuada porque “as mulheres estão diretamente associadas à alimentação por conta do aleitamento materno“, fazendo com que elas sejam “muito patrulhadas nessa função.”

“O pai aparece como essa figura meio periférica, que vem fazer uma gracinha, que tanto faz se dá miojo, porque afinal ali tem algo lúdico”, avalia.

Iaconelli reforça que os julgamentos condenatórios são perigosos porque são baseados em ideais e não trazem “alteração às condições de vida da maternidade, uma vez que as mães também são provedoras e se ocupam de muitas outras coisas além dos filhos.”

Luiz Claudio Castro, professor de pediatria da UnB (Universidade de Brasília) e coordenador do Departamento de Endocrinologia Pediátrica da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), considera que é preciso retirar o peso e o rótulo de “mãe perfeita”.

“A alimentação na infância tem uma dimensão nutricional, educativa e afetiva. O objetivo não é criar medo em relação à comida, mas ajudar a desenvolver uma relação equilibrada e saudável ao longo da vida”, diz o endocrinologista pediátrico.



A alimentação na infância tem uma dimensão nutricional, educativa e afetiva. O objetivo não é criar medo em relação à comida, mas ajudar a desenvolver uma relação equilibrada e saudável ao longo da vida

A realidade dos lares também importa. “Quando olhamos os dados que mostram a quantidade massiva de mães solo no Brasil, esse cenário de cobrança se torna ainda mais alarmante. O que adoece não é a falta de informação, é a falta de rede de apoio. É a ausência de pessoas com que essa mulher possa contar, inclusive o Estado”, dizem o psicanalista Jonathan Reiner e a psicóloga Isabella Arrais, do Instituto Imaginário.

A jornalista Marina Bessa, 46, mãe da Luiza, 11, e da Clara, 8, se considera ponderada. “Não sou rigorosa para nenhum dos lados, até queria ser. Às vezes, me sinto culpada porque não faço comida fresca todos os dias. No fim de semana, elas comem até bastante tranqueira. Ou a gente cria crianças que vão ser compulsivas, não dá para atingir essa perfeição”, diz.

Ela e o pai das meninas compartilham a guarda e têm um entendimento comum sobre alimentação das duas, o que para Bessa faz com que o peso seja bem dividido entre os dois, no caso deles.

O advogado Eduardo Yoshimura, 41, gosta de cozinhar e segue à risca as recomendações da mulher, a psicóloga Maria Lídia Yoshida, 41, quando se trata da alimentação da filha Yuna, 5 —ainda assim, nota ao seu redor que quem costuma se preocupar mais com o tema são as mães.

“Dei carne de sol para Yuna na introdução alimentar e a Maria Lídia queria me matar. Mas, em geral, ninguém liga se o pai erra. Já a mãe se cobra, coloca o filho à frente de todas as prioridades. Além disso, as mães cobram das outras mães”, analisa Yoshimura.

Karina Said, 43, autônoma que atua no ramo da gastronomia, faz a gestão de supermercado e alimentos dos filhos Davi, 9, e Arthur, 6, e diz que o marido interfere pouco.

Para ele, o apoio mútuo do casal no tema e a escolha de itens simples é que faz as escolhas darem certo —mesmo na casa dos avós, que têm hábitos alimentares diferentes, todos seguem as mesmas regras.

“Eles comem muitas frutas, muitos legumes, arroz, feijão, filézinho de frango. Evito ao máximo os ultraprocessados. Essa alimentação dos meninos reflete muito o que nós comemos em casa”, conta Said.

A bancária Carolina Loiola, 42, mãe de Valentina, 7, controla os doces para evitar os riscos de obesidade, presente no histórico familiar, mas, para dar conta, ignora o que os outros falam. “A Valentina come de tudo, frutas, verduras, legumes, mas também macarrão, pizza, hambúrguer. Já fui julgada? Certamente fui, mas não me importo. Me preocupo com a alimentação, mas mais em relação ao fato de conversar sem paranoia”, diz Loiola.

Para Castro, o exagero em qualquer direção é que deve ser evitado. Os pais não devem forçar a criança a comer ou impedir de ir a eventos por causa do que for servido ou mesmo fazer proibições absolutas e regras rígidas, que podem gerar ansiedade tanto nos pais quanto nas crianças, afirma o médico.

O ideal, diz o endócrino, “é ensinar o valor de cada alimento”, para a criança fazer boas escolhas e entender “os próprios sinais de fome e de saciedade.”

Autor: Folha

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