Meses atrás, quando o remake de “Vale Tudo” chegava ao fim, a personagem de Malu Galli reforçou seu papel como figura materna ao acolher a sobrinha, vivida por Paolla Oliveira. Na época, a irmã e a filha de Odete Roitman não só acreditaram na morte da magnata —vilã que, afinal, reviveu nos últimos instantes da versão da autora Manuela Dias—, como ainda estiveram entre as principais suspeitas do caso.
Esses últimos capítulos fortaleceram tia Celina como uma espécie de mãe postiça e levaram os espectadores a se questionarem que limites aquela mulher seria capaz de ultrapassar. Apesar do contexto menos fatal, “Mulher em Fuga“, que estreia nesta quinta no teatro do Sesc 14 Bis, nasce de uma dúvida similar —e revê a vocação de Galli para explorar a maternidade.
A relação conturbada com os pais também é um dos tópicos que o francês Édouard Louis, hoje um dos expoentes da literatura de autoficção, aborda ao dissecar sua sexualidade. Ele provou ser moda entre os brasileiros dois anos atrás, em sua vinda à Flip, e voltará ao Brasil em março para estrelar uma montagem do seu “Quem Matou Meu Pai“, durante a Mostra Internacional de Teatro de São Paulo, a MITsp.
A dramaturgia de “Mulher em Fuga” nasce justamente da junção de dois dos seus livros —”Lutas e Metamorfoses de uma Mulher” e “Monique se Liberta“—, desenhando as disputas sociais e psicológicas de Monique, a mãe do autor, que Galli encarna entre a intimidade e a universalidade do papel.
“Ainda bem que ninguém aqui conhece a Monique”, diz a artista. “Tenho certeza absoluta de que interpreto outra pessoa. Esta é a minha contribuição para essa história e não posso fazer algo totalmente fora de minhas experiências. Sempre busco um ponto de encontro entre a personagem e quem eu sou.”
Em 2013, quando estrelou a peça “Oréstia“, Galli disse que histórias de mães e filhos ressoam em qualquer lugar e tempo. Na ocasião, ela voltava a fazer trabalhos mais alternativos após alguns anos dedicada à TV.
Sua jornada nas telinhas ganhou força com a minissérie “Queridos Amigos“, de 2008, que fez dela a psicóloga de um grupo que decide se reencontrar. Forte, a personagem colapsa após descobrir a traição do marido. No mesmo ano, fez “Três Irmãs“, sua primeira novela, em que viveu uma figura solar e devota aos filhos. Mais tarde, seria uma mãe desconstruída em “Aline”, seriado que equipara os desejos da adolescente-título aos da genitora.
Viveu também Tubaroa, a advogada ambiciosa de “Cheias de Charme“, e foi do lixo ao luxo nas novelas “Totalmente Demais” e “Amor de Mãe“. Se na primeira ela foi uma mãe superprotetora de classe baixa, na segunda, reproduziu o vazio de uma socialite assombrada pela morte do filho.
Nessa trajetória, Galli levou tempo até encontrar sua primeira protagonista, mas reuniu coadjuvantes que desafiaram uma vida pessoal reservada. Agora, após a repercussão de tia Celina, ela diz dividir com Monique não só os 54 anos de idade, como os sonhos e bloqueios de uma mesma geração de mulheres.
“Posso não ter vivido o que Monique viveu, mas isso é o que a grande maioria das brasileiras vive. A urgência dessa narrativa alimentou meu envolvimento”, afirma ao denunciar questões como o feminicídio, que no ano passado atingiu novo recorde na capital paulista, com um total de 58 casos.
Na peça, as violências retratadas são quase sempre verbais, simbólicas —a comunicação entre Edouard, vivido por Tiago Martelli, e Monique é impraticável. Ainda que no mesmo espaço e na mesma mesa, central na cenografia, mãe e filho parecem sofrer de forma solitária com frequência. E a intersecção de vários períodos, num vai e vem entre casamentos abusivos e o crescimento de Louis, só ressalta essa distância.
A impressão é que ambos só pode confidenciar suas angústias ao público. Prova disso é a cena em que Galli caminha sobre a mesa com um aspirador de pó. O som invade a sala pouco depois de Edouard voltar da escola. Ele fala de seus trejeitos femininos e desabafa sobre o bullying que sofre. A resposta une o barulho e um pedido imperioso de Monique —o garoto precisa se arrumar para que eles saiam a tempo de reivindicar a assistência social.
Entre obstáculos financeiros e estigmas de gênero, situações como essa guiam a peça e alimentam um ciclo de violências. Martelli afirma que, nas obras, Louis reflete sobre as agressões da mãe e expurga essa agressividade que ele mesmo herdou.
“Louis diz que a violência atravessa os corpos, que eles são vetores dessa violência. Nenhum corpo é produtor, a gente só reproduz e é atravessado”, afirma Galli, cuja interpretação vai da estaticidade à eletricidade, como quando se permite dançar, cantar ou mesmo explodir em um furioso solo de bateria.
Esse estrondo reflete uma crise da família Louis. Em 2023, quando “Lutas e Metamorfoses” chegou às prateleiras, Monique se enfureceu com a exposição de seus demônios internos. Ela passaria a aceitar melhor a literatura do filho no ano seguinte, com o sucesso e a publicação de “Monique se Liberta”.
Para Inez Viana, diretora de “Mulher em Fuga”, essa tensão dá mais complexidade às lutas dessa mulher, que pode representar todas as outras. O choque entre o público e o privado também reflete a atualidade de Galli.
Antes mesmo de “Vale Tudo”, ela viu Violeta, sua primeira protagonista em novelas, de “Além da Ilusão“, virar um símbolo feminista e se aproximou dos cinéfilos com títulos como o horror cult “Propriedade“. Agora, além da peça, já com sessões esgotadas, se prepara lançar “Querido Mundo”, filme exibido no Festival de Gramado, que troca a densidade pelo otimismo de uma mulher tentando recomeçar a vida.
“Não sou reduzida a uma personagem ou outra que bombou. O público reconhece a minha trajetória, mas não estou com o jogo ganho”, ela diz antes de rir de si mesma. “Tenho medo de descobrirem que sou uma impostora a cada novo trabalho, mas vivo hoje o meu momento mais feliz.”
Sobre a repercussão do remake de Manuela Dias, ela comenta a falta de cerimônia na televisão. “A TV invade a casa das pessoas. O personagem te vê no meio da sala, no quarto, fazendo sei lá o quê. Surge essa falsa ideia de que ele pertence ao público. É difícil, mas é da natureza do nosso trabalho.”
Autor: Folha





