Depois que teve um burnout no ano passado, Mari Camardelli, autora do livro “(Sobre) Carga Mental”, conta que mudou seu jeito de pensar e agir. Não quer que os filhos pensem que ela vive cuidando de tudo e todos. “Faço questão de que eles me vejam na ginástica, com minhas amigas, em frente à TV ou deitada.”
Algo que aprendeu antes mesmo do burnout e que tenta compartilhar com outras mulheres, ela diz, é a importância de distribuir os afazeres.
“Cada vez que você vê uma tarefa sobrando e pega para você, está ensinando a todos os moradores da casa que é isso que acontece quando eles deixam de fazer”, escreveu Mari em seu livro, publicado em 2024 pela Much Editora.
Especialista em inteligência emocional, educadora parental e fundadora da comunidade Somos Madrastas, Mari afirma que não gosta de falar que se coloca como prioridade. “Se você precisa levar sua filha à escola, naquele horário ela é a prioridade, não você.”
Diz, porém, que a mulher precisa ouvir a si mesma. “O que eu falo é: se a equação final trouxer ressentimento, provavelmente você passou algum limite seu.”
A autora diz que “(Sobre) Carga Mental”, seu segundo livro, nasceu de um incômodo comum a muitas mulheres. “Comecei a me questionar por que não entra na cabeça dos homens que uma pergunta não é só uma pergunta.”
Na dinâmica de um casal heterossexual, como é o caso dela, perguntas aparentemente inofensivas do marido —”o que vamos comer?”; “onde guardamos os panos de chão?”— são atravessamentos que desviam a energia da mulher. “O que mais pesa é essa coisa de ser uma central de informações, de ser o alvo da casa sempre”, escreve Mari.
Segundo a psicóloga Carla Antloga, professora da UnB (Universidade de Brasília) e líder do grupo Psitrafem (Pesquisas em Trabalho Feminino), além contribuir com a sobrecarga mental e emocional da mulher, essas perguntas a deixam irritada.
“Quando você é excessivamente acionada, há um desgaste psíquico grande”, diz.
É por isso que Carla e Mari insistem no mesmo ponto: é importante aprender a dizer “não”. A psicóloga, contudo, faz uma ressalva —nem sempre existe essa possibilidade, por exemplo nos casos de famílias com guarda compartilhada.
“Se o pai se recusa a ajudar o filho a fazer a lição de casa, provavelmente essa mãe vai se desdobrar para adiantar a tarefa”, diz Carla. “Caso contrário, quem sofre é a criança.”
O mesmo acontece com filhas mulheres que, mesmo tendo irmãos homens, cuidam praticamente sozinhas dos pais idosos.
“Além de aprender a dizer ‘não’, temos que aprender a pedir e a aceitar ajuda. O importante é saber que não conseguimos fazer tudo”, afirma Carla.
Autor: Folha








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