A indicação de dois novos diretores para o Banco Central (BC) pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, acendeu sinal de alerta no mercado financeiro frente ao risco de interferência política no órgão.
Haddad afirmou ter levado ao presidente Lula (PT) os nomes dos economistas Tiago Cavalcanti e Guilherme Mello para ocupar as cadeiras vagas desde dezembro de 2025 na diretoria do BC.
Professor renomado da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, Cavalcanti tem um perfil mais técnico e mais distante da militância política. Por outro lado, Mello — atual secretário de Política Econômica da Fazenda e um dos formuladores do programa econômico do PT — é visto como o nome mais heterodoxo, alinhado à crítica histórica do partido às altas taxas de juros.
Ele pode ocupar a Diretoria de Política Monetária, área diretamente envolvida nas decisões do Comitê de Política Monetária (Copom), responsável pela definição da Selic.
No dia do anúncio, os juros futuros negociados na bolsa de valores brasileira subiram, movimento interpretado como aumento do prêmio de risco e precificação da possibilidade de “aparelhamento institucional”.
Lula já defendeu publicamente que a política monetária deve estar alinhada às diretrizes do governo, e não limitada a um mandato técnico definido por lei, que atribui ao Banco Central a função de zelar pela estabilidade da moeda. O discurso atravessou todo o terceiro mandato do petista, frequentemente personificado em ataques ao então presidente Roberto Campos Neto.
Mesmo após indicar Gabriel Galípolo à presidência do Banco Central em 2024, as críticas do PT e do próprio Haddad continuaram. Em fevereiro, o partido aprovou resolução oficial atacando a autonomia do BC e acusando a política monetária de comprometer o “projeto eleito nas urnas”.
Para Fabio Murad, economista e CEO da Super-ETF Educação, o mercado interpreta as indicações como um enfraquecimento do núcleo técnico da instituição. “As indicações geram desconfiança porque, ao invés de reforçar o caráter técnico e independente, trouxeram nomes com histórico alinhado a agendas políticas”, afirma.
Cleveland Prates Teixeira, da Microanalysis Consultoria Econômica, vê o risco não apenas ideológico, mas técnico. “Fico preocupado quando o indicado acha que a taxa de juros é a causa do problema e não a consequência. Se não se entende que o juro é instrumento para controlar a inflação e compensar o desbalanceamento fiscal, o alerta acende”, diz.
Mello sugeriu “posição política” do Banco Central
O histórico de Mello reforça essa leitura. Em março de 2023, quando a Selic estava em 13,75%, ele afirmou ter ficado “preocupado” com o comunicado do BC, sugerindo influência política na decisão: “Em algum momento, parece que o BC quis tomar uma posição quase que política: ‘Diante das críticas, eu faço isso’. Não sei se o comunicado se presta a isso”, disse.
E não foi a única vez. Após iniciar o ciclo de cortes em agosto de 2023, a Selic caiu gradualmente até atingir 10,50% em maio de 2024. Na ocasião, Mello declarou haver “bastante espaço” para novas reduções, mantendo a taxa em patamar ainda restritivo. A fala desagradou o mercado, que avaliava que o BC deveria agir com maior cautela.
Não tardou para que o ciclo voltasse a se inverter. Em meados de 2025, diante da persistência inflacionária e de expectativas desancoradas, o Copom elevou a Selic para 15%, maior nível desde 2006 e onde permanece atualmente.
No entanto, aós ter seu nome indicado por Haddad o tom de Mello mudou. Durante a apresentação do Boletim Macrofiscal de 2025, no dia 6, afirmou que suas declarações passadas estavam baseadas nos dados disponíveis à época: “Havia espaço técnico para a redução da taxa de juros. Isso é muito parecido com o que nós vemos hoje”.
Mello coordenou projeto que serviu de base para programa de Lula em 2022
O histórico de Mello também é citado por analistas como fator de preocupação. Ele foi um dos coordenadores do “Plano de Reconstrução e Transformação do Brasil”, documento lançado pelo PT em 2020 como alternativa econômica ao governo Jair Bolsonaro e que serviu de base para o programa de Lula em 2022.
Ao lado de Aloizio Mercadante e de outros economistas ligados ao PT, o secretário participou da formulação de propostas que defendiam ampliar o papel da autoridade monetária para além do controle da inflação.
O texto afirma que “o Banco Central precisará de instrumentos adequados para cumprir seu papel institucional, que deve ser ampliado para incluir a preocupação com o nível de emprego e com a estabilidade monetária e econômica”.
O plano também sustenta que o órgão “não pode ser alheio ao grave problema das múltiplas dimensões da desigualdade no Brasil (raça, gênero e renda)” e propõe rever o regime de metas de inflação, com maior peso para o núcleo inflacionário e a criação de um novo indicador para orientar a Selic.
Mercado vê risco de divisão no Copom
Caso Lula formalize as indicações, os nomes seguirão para sabatina no Senado. Se aprovados, o governo Lula passará a ter a maioria dos nove integrantes do Conselho Diretor e, até o fim do ano, será integralmente composto por nomeações feitas pelo petista.
Para Teixeira, o comportamento do secretário no Comitê ainda é uma incógnita. “Não sei se ele manterá a postura que teve no Ministério da Fazenda, que é péssima, ou se adotará uma postura diferente, mais técnica, entendendo qual é a função do Banco Central — que é muito diferente de estar ligado a um presidente que quer se reeleger”, afirma.
Há, entretanto, limites para sua atuação, avalia o economista. “O máximo que pode acontecer é um voto divergente, e isso não significa necessariamente um desastre para o mercado”, diz. “Neste caso, a decisão tende a caminhar para um lado mais técnico”.
Apesar disso, Murad vê risco na fragmentação do colegiado. “Votações divididas elevam o ruído e indicam falta de coesão institucional”, diz. “Isso já é suficiente para gerar ruído e instabilidade”.
A reunião de maio de 2024 é frequentemente citada como exemplo: na ocasião, o colegiado aprovou um corte de 0,25 ponto percentual na Selic, para 10,50% ao ano, com divisão clara entre diretores indicados por Lula e os remanescentes da gestão de Jair Bolsonaro (PL). O placar de 5 a 4 deixou explícita a diferença de visões dentro do órgão e gerou desconfiança sobre os rumos da política monetária.
Em ano eleitoral, Banco Central enfrentará maior pressão
Outro cenário previsto por analistas é que Mello passe despercebido diante da possibilidade de início de um ciclo de cortes já em março — sinalizada na ata do Copom de janeiro. “[O colegiado] antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização na próxima reunião”, registra o documento.
“A redução já está meio prefixada”, diz Teixeira. Mesmo assim, não tende a ser, segundo ele, significativa ou sustentável no médio e longo prazo: “Enquanto não corrigir o problema da política fiscal, que está nas mãos da Fazenda — onde o Mello tem papel central —, não há como baixar juros”, afirma. “Sem tirar o pé do acelerador fiscal, ou seja, sem o governo gastar menos, não há condições de afrouxar a política monetária.”
A expectativa é de que, sobretudo em ano eleitoral, o governo mantenha a expansão dos gastos, ampliando crédito e benefícios, com potenciais impactos inflacionários. A dúvida, é como o BC reagirá neste cenário.
“Se o Banco Central passa a decidir sob influência de interesses eleitorais de curto prazo, como reduzir juros artificialmente, as expectativas de inflação se desancoram, o crédito encarece, o câmbio se pressiona e o apetite por ativos brasileiros diminui”, alerta Murad.
Para ele, o risco não é apenas teórico. “A história econômica da América Latina está repleta de exemplos de bancos centrais capturados politicamente que resultaram em hiperinflação, fuga de capitais, colapso cambial e perda de confiança no sistema.”
A Gazeta do Povo tentou contato com o secretário de Política Economica, Guilherme Mello, mas não obteve resposta até o fechamento da reportagem.
Autor: Gazeta do Povo








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