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Michel Leme Trio faz show gratuito no Bar dos Cravos – 22/11/2025 – Música em Letras

O Michel Leme Trio fará uma apresentação gratuita, na terça-feira (25), entre 20h e 23h, no Bar dos Cravos, no Paraíso, em São Paulo. Veja vídeo no final do texto.

O simpático Bar dos Cravos tem promovido gratuitamente, uma vez por mês, apresentações musicais de alto nível, ao vivo, com exímios instrumentistas. Entre elas a que aconteceu no último setembro com o quarteto de choro contemporâneo, Choro Amoroso, liderado pelo pandeirista e compositor Túlio Araujo.

A coluna Música em Letras entrevistou com exclusividade o guitarrista, professor, compositor e arranjador Michel Leme, seguramente um dos melhores em seu instrumento que ainda tocam no país, pois muitos de seus colegas vazaram das plagas brasileiras dada as parcas condições oferecidas aos profissionais da área.

O músico que formou, em 2023, seu trio com Hugo Fonseca, no contrabaixo acústico e elétrico, e Vinícius Teixeira, na bateria, foi perguntado sobre quais são as características musicais mais latentes dos outros dois integrantes? “Eu vejo o Hugo e o Vinícius como pessoas em evolução constante. Eles entenderam a parte, digamos, complicada da classe musical, como a competição, a imposição de hierarquia e outras mesquinharias, e esse discernimento faz com que não reproduzam tais coisas, o que os torna pessoas queridas, com as quais é possível conversar e aprender. Quanto à parte musical, esta reflete totalmente quem a pessoa é, como ela pensa e age, ou seja, se é possível conversar sem estar numa disputa, quanto ao som, é só a pessoa estar a fim.”

Quanto à característica musical que mais diferencia Michel Leme de outros guitarristas tocando jazz -gênero que será abordado na apresentação no Bar dos Cravos-, o guitarrista, que tem um som peculiar, “sujo” na medida, suingado ao extremo, envolvente “no úrtimo”, repleto de harmonias surpreendentes e com uma destreza que causa inveja aos mais experientes instrumentistas da sua e de outras gerações, admite de forma modesta e explicativa: “Talvez eu não seja a pessoa pra falar sobre isso, mas comento que cada pessoa tem características únicas, e a música é uma atividade na qual essas características vão se tornando perceptíveis ao longo do processo. Assim como qualquer pessoa envolvida com música e artes em geral, tenho minha história, minhas metas, meus desejos, meus sonhos sobre como gostaria de tocar; aí vou pensando e agindo na direção desses horizontes – e inclua-se os perrengues, erros, crises, questionamentos, encanações, só pra não pintar um caminho apenas florido para a juventude que nos lê. E não tem tática, artifício ou atalho nesta busca; vejo como uma questão de ir fazendo, ouvindo, ouvindo as próprias gravações, conversando com as parcerias, sendo fiel ao que percebemos”.

Indagado sobre o que é jazz, Leme respondeu: “Tem várias perspectivas possíveis que me passam. Jazz é uma palavra que pode ser interpretada de infinitas formas, dependendo da experiência direta que cada pessoa tem ou teve com a música; sendo assim, o rótulo não me serve de muita coisa. Jazz é uma dádiva trazida pelo povo preto da classe trabalhadora norte-americana, que colocou a improvisação como caminho possível de expressão para quem estiver a fim, independente da estética, gênero musical, CEP, origem etc. Jazz é mais um item apropriado pela pequena burguesia, que transforma essa forma de arte em mais um campo de autoindulgência para a sua profunda mediocridade, gerando produtinhos vagabundos e sem vida, num ecossistema de assédio e adulação – nenhuma surpresa vindo de quem só conhece a exploração, a burocracia e o elitismo como formas de mediação. Finalizando, ao invés de usar a palavra ‘jazz’, prefiro ser mais exato e chamar [o gênero] pelo nome da pessoa, tipo Alice Coltrane, McCoy Tyner, Hélio Delmiro etc”.

Quais temas o trio pretende tocar na apresentação que haverá no Bar dos Cravos? “Dependendo do contexto, tentaremos tocar temas autorais neste trabalho no Bar dos Cravos. Vou falar de três destes temas que farão parte do nosso segundo álbum, a ser gravado logo depois desta apresentação: ‘Dolores Duran’, um bolero ou chachacha que tem a ver com o que sinto a respeito desta grande artista brasileira; ‘Jagun’, esse com um título provisório, tem uma levada da qual gosto muito e uma estrutura que privilegia o fluxo das ideias e interações; e mais um tema em compasso três por quatro, ainda sem nome, que tem um clima mais introspectivo, e que nos traz outras possibilidades de expressão.”

Em que as pessoas devem especificamente prestar atenção no som desse trio? “Se alguém prestar atenção, será muito bom; agradeceremos depois, inclusive. De fato, nós, do trio, é que precisamos estar atentos. Digo isto porque a lógica dominante é converter música em entretenimento. E, depois de péssimos exemplos na própria música instrumental, faz parte do ‘menu’ incluir gracinhas, dancinhas, alguém regendo o grupo pra mostrar ‘quem é o líder’, puxando palmas ou coro da ‘plateia’. Isto sem contar a imposição de certas casas para que artistas organizem ‘tributos’, ou seja, a produção autoral que se dane para essa corja que paga grana de bilheteria em 30 ou 60 dias. Por estas e outras, estou e estamos apostando na afronta de insistir em tocar o que estamos a fim e onde for possível.”

Sobre o álbum que vocês irão gravar, logo após a apresentação no Bar dos Cravos, o que você pode adiantar para a coluna Música em Letras? “Nosso segundo álbum ainda não tem nome. Vamos gravar, ouvir, escolher takes (se necessário), mixar e, enfim, ainda temos uma jornada de uns poucos meses até lançar. Lançarei o álbum como um pacote digital, com áudios sem perdas de qualidade, encarte em PDF, com um monte de informações, links, fotos, capa grande e partituras dos temas escaneadas dos originais. Vender assim significa tentar recuperar uma parte do que gastamos na produção de um álbum. E se vendermos apenas uma unidade deste pacote, já estaremos recebendo muito mais do que o monopólio de streaming, seja qual for, iria nos pagar em dez anos. Costumo anunciar esses lançamentos nas minhas redes, são seis até o momento. Tem pessoas que apoiam, pelo que agradeço muito, e, enfim, vamos em frente, fazendo o que temos que fazer, que é música. Um tema que não comentei na resposta anterior sobre o repertório deste álbum é ‘Radicais Livres’, uma composição baseada em dois riffs, com as seções de solos sem estrutura pré-definida; uma espécie de heavy metal ‘free’, com a guitarra sem distorção e uma base funk.”

Esta é uma excelente oportunidade para ouvir um trio extremamente comprometido com sua música, mas que nem por isso desrespeita o local onde se apresenta ou quem o frequenta. O Michel Leme Trio faz música pela música para quem ouve música.

Assista, a seguir, ao vídeo no qual o Michel Leme Trio toca um de seus temas autorais sem nome.

APRESENTAÇÃO MICHEL LEME TRIO

QUANDO Terça-feira (25), das 20h às 23h

ONDE Bar dos Cravos, rua Osório Duque Estrada, 41, Paraíso, São Paulo

QUANTO Sem couvert artístico, mas é necessário reservar lugar em

Autor: Folha

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