A morte de Michel Rolland, na última semana, marca o fim do século 20 para o vinho. O enólogo francês foi um dos nomes mais importantes da chamada “era da vinicultura moderna de Bordeaux“, que estabeleceu o padrão a ser perseguido por vinícolas de todo o mundo a partir dos anos 1980.
Com sua expertise em assemblage (a mistura de diferentes castas para formar um vinho) e uma quase mediunidade em relação às uvas (era capaz de prová-las e prever a bebida que sairia delas), Rolland foi responsável por internacionalizar um sabor muito específico: o de tintos superfrutados, sobremaduros, concentrados e aveludados, com uma nota de madeira nova que os faz agradáveis quando jovens, mas capazes de envelhecer bem.
Apesar de levar esse paladar ao mundo, o mestre do blend detestava a ideia de um vinho globalizado. Disse em uma apresentação na Inglaterra, em 2005: “Meu objetivo hoje é mostrar que o estilo de vinho de Michel Rolland não existe”.
Bem, existia e ainda existe, ainda que esteja um tanto fora de moda —hoje o mundo busca mais frescor e fluidez, menos madeira e concentração. Mas entre 1982, safra histórica em Bordeaux, e meados dos anos 2010, era o tal vinho opulento o almejado por vinícolas em países como França, Itália, Croácia, Armênia, EUA, China, Argentina, Brasil, África do Sul, Índia, entre tantos onde trabalhou (segundo seu site, atualmente são 150 vinícolas em 14 países) .
O estilo de vinho pelo qual ficou conhecido veio de Emile Peynaud, professor de enologia da Universidade de Bordeaux e seu mestre. Após a gradução, em 1973 Rolland abriu um laboratório em sua cidade natal, Libourne, para atender as vinícolas da região, que segue em funcionamento, realizando análises e aconselhamento a mais de 400 vinícolas.
Em 1982, ano da safra mítica de Bordeaux, Robert Parker e Rolland tiveram um encontro de almas. Foi um match perfeito entre o paladar do crítico norte-americano e o estilo de vinhos do francês, que deixava as frutas inteiramente maduras para que dessem, na taça, a impressão de que se bebia uma geleia. O resultado foi uma chuva de medalhas e de vinhos de 100 pontos Robert Parker.
Foi também graças a esse match que Rolland foi vilanizado nos idos dos anos 2000, especialmente no documentário “Mondovino” (2004), que o mostra pragmático e fanfarrão, abraçando a padronização dos vinhos para agradar a crítica. Após o lançamento do filme, o consultor de enologia acusou o diretor do filme, Jonathan Nossiter, de ter sido desonesto.
Dois anos depois, o New York Times o descreveu como animado e workaholic num texto cujo o título questionava: “santo ou satã?”. Informava também que o valor de sua consultoria anual começava em US$ 30 mil (cerca de US$ 48,6 mil hoje), valor que poderia subir como um foguete. “Pessoalmente, Rolland é informal e pé no chão”, diz o artigo. Algo notável para quem aconselhava os grandes châteaux de St. Emilion como Ausone, Angelus e Pavie, entre outros pesos-pesados.
“Não cultivo estereótipos. Não busco acidez nem doçura. O vinho é, antes de tudo, prazer”, disse Rolland em 2012. “Com experiência em vinificação em 20 países, sou o enólogo mais ecumênico do planeta.”
Rolland também fazia seus próprios vinhos, tanto na França quanto na Argentina e na África do Sul. Em 1979, com a morte do pai, assumiu as propriedades da família, entre elas a primeira, Château Le Bon Pasteur, em Pomerol, que já estava com a família quando nasceu, em 1947. Morreu aos 79 anos, deixando duas filhas e sua marca na história do vinho.
Vai uma taça?
A maior parte dos vinhos bordaleses de Rolland são impraticáveis para o bolso do cidadão comum (se tiver curiosidade, a Mistral e a Grand Cru têm vários com alta pontuação). A Wine traz o Clos de Los Siete By Michel Rolland 2021 (R$ 101), feito no Valle de Uco. E a Decanter traz os vinhos da Yacochuya, em Salta, como o Corte Tinto Coquena 2025 (R$ 188).
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Autor: Folha








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