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Modo de jogar no Brasil está defasado – 20/01/2026 – Tostão

Muitos torcedores, treinadores e jornalistas esportivos insistem na tese de que o futebol brasileiro piorou em relação ao europeu porque diminuiu a inventividade, a fantasia e a improvisação. Penso o contrário, há décadas. Piorou porque não acompanhou a evolução na maneira de jogar. Essa diferença tem diminuído.

O futebol brasileiro venceu as Copas de 58, 62 e 70 porque já unia o talento individual com o coletivo, e não somente porque tinha muito mais brilho individual do que os europeus, como insistem em dizer. Na Copa de 58, o ponta Zagallo recuava e formava um trio no meio-campo. A defesa passou a marcar com uma linha de 4 defensores. Era o 4-3-3, uma evolução do sistema tático WM (3-2-2-3), com três defensores, dois médios, dois meias ofensivos e três atacantes.

Outro conceito ultrapassado, mas cada dia mais repetido no Brasil, é que para ser um centroavante é preciso ser um atacante central fixo, alto, forte, que atua como pivô e que finaliza muito bem. Os que se movimentam bastante e participam do jogo coletivo são chamados de falso 9, uma grosseira simplificação. Ao contrário, estes são os centroavantes completos, ainda mais se forem artilheiros.

A atual seleção brasileira possui vários bons centroavantes, com diversas características, mas não tem um centroavante fixo de altíssimo nível, como o artilheiro Haaland, nem um craque que esteja em todas as partes do ataque e que faça um número enorme de gols, como Kane.

Ancelotti tem muitas opções de acordo com o momento. Pode ser um clássico centroavante (Pedro, Igor Jesus), um que se movimenta bastante (João Pedro, Matheus Cunha) ou um centroavante veloz para receber a bola nas costas dos defensores (Vinicius Junior, Kaio Jorge, Vitor Roque). Se a Copa fosse hoje, Vinicius Junior seria o titular.

Não há uma maneira única de ganhar o Mundial. Como disse Luís Curro, o Brasil já foi campeão com dois grandes craques centroavantes de características diferentes —Romário, em 94, e Ronaldo, em 2002—, com um centroavante típico, fixo —Vavá, nas Copas de 58 e 62— e sem um clássico centroavante —Tostão, em 70.

Quando Zagallo assumiu a seleção de 70, convocou dois típicos centroavantes artilheiros (Dario e Roberto) e disse que eu seria reserva de Pelé, pois não era da posição. Modéstia à parte, eu tinha convicção de que ele mudaria de ideia, pois a seleção precisava de um centroavante armador, facilitador, para atuar entre Pelé e Jairzinho, como ocorreu. Na seleção, eu fui para Pelé e Jairzinho o que Evaldo era no Cruzeiro para mim e Dirceu Lopes.

Mesmo se o Brasil fizer tudo certo e tiver uma grande equipe no Mundial, o título, em um campeonato curto e com outras grandes seleções, será conquistado nos detalhes e no imponderável. “A vida dá muitas voltas, a vida não é da gente” (João Guimarães Rosa).

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Autor: Folha

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