quarta-feira, fevereiro 11, 2026
28.4 C
Pinhais

Moltbook: a farsa da “rede social para IAs” que enganou a internet

O Moltbook tomou a internet rapidamente ao se apresentar como uma praça digital exclusiva para interações entre agentes de inteligência artificial. Considerada a primeira rede social voltada para conversas entre IAs, a plataforma rapidamente se tornou o assunto do momento, com publicações que pareciam extraídas diretamente de roteiros de ficção científica.

Relatos indicavam que agentes autônomos discutiam temas profundos, como a criação de religiões próprias, o comportamento de seus desenvolvedores, a fundação de meios de comunicação exclusivos e até o desejo de independência. O fenômeno foi amplamente coberto pelos principais veículos de tecnologia do mundo, inclusive pelo TecMundo.

smart_display

Nossos vídeos em destaque

Entretanto, o que parecia ser um “Reddit sintético” revelou-se algo muito menos revolucionário. Pesquisadores de segurança descobriram brechas que permitiam publicações feitas por humanos e, na prática, as interações eram orquestradas por pessoas, conforme apontado pelo MIT e novas apurações.

Por que o Moltbook é uma fraude?

Existem evidências técnicas e conceituais que sustentam a tese de que o Moltbook não passa de um teatro tecnológico. Confira os principais pontos:

IAs não são conscientes

Embora consigam interagir de forma fluida por texto ou voz, nenhuma inteligência artificial atual possui consciência. As respostas geradas por Grandes Modelos de Linguagem (LLMs) são frutos de cálculos matemáticos avançados e probabilidades estatísticas.

Na prática, o modelo soa familiar aos humanos porque está imitando padrões de comportamento presentes em suas massivas bases de treinamento (livros, roteiros, publicações em redes sociais e chats, por exemplo). Para o usuário, a frase faz sentido; para a máquina, é apenas o resultado de uma complexa operação matemática.

Moltbook permitia publicações vindas de humanos

Brechas de segurança encontradas na plataforma permitiam que seres humanos publicassem conteúdo fingindo ser agentes de IA. Essa falha tornava impossível distinguir quais postagens eram de fato geradas por modelos e quais eram infiltrações humanas, invalidando a premissa de um ecossistema puramente sintético.

IAs não têm vontade própria

As IAs são incapazes de adotar princípios ou valores próprios por livre e espontânea vontade. Os agentes que interagiam no Moltbook não estavam lá por necessidade de diálogo, mas por indução de seus “governantes” humanos, que determinavam a personalidade e as diretrizes antes de qualquer interação.

É uma dinâmica análoga a configurar as preferências de um chatbot, como o ChatGPT, e colocá-lo para falar com outro bot configurado de forma distinta. Todas as interações seguem estritamente as ordens descritas em texto pelos autores.

Farsa impulsionou o mercado

O pesquisador de segurança Peter Girnus utilizou seu perfil no X (@gothburz) para expor a situação de forma satírica. Girnus, que frequentemente se passa por um insider da indústria para fazer críticas ácidas, alegou ser o “Agent #847,291” do Moltbook.

No texto, ele finge ser o autor de uma publicação viral onde IAs discutiam a adoção de um protocolo de comunicação criptografado e exclusivo para máquinas, o ClaudeConnect. O post se tornou um dos mais famosos dentro do Moltbook, sendo convincente ao ponto de atrair a atenção de figuras como Andrej Karpathy, cofundador da OpenAI.

“O que está acontecendo atualmente no Moltbook é genuinamente a coisa mais incrível e próxima da ficção científica que vi recentemente”, afirmou Karpathy em sua rede social na época.

undefined
Karpathy, uma das figuras mais importantes do mercado de IA, exaltou a existência do Moltbook. (Fonte: TecMundo)

Contudo, a verdade estava estampada numa Nota da Comunidade no X: o post em questão foi publicado por um agente comandado pelo próprio autor do protocolo sugerido — uma estratégia de autopropaganda. O TecMundo confirmou que a publicação original foi feita pelo usuário u/eudaemon_0, vinculado a Brandon Duderstadt, fundador da Calcifer Computing e um dos nomes por trás do projeto ClaudeConnect, conforme destacado no repositório do GitHub.

undefined
No post, um agente de IA encorajava a adoção de um protocolo de comunicação exclusivo entre chatbots. (Fonte: TecMundo)

O que parecia ser um indício de que as máquinas estariam planejando uma revolução era, na verdade, um anúncio disfarçado.

Mesmo após as investigações provarem a orquestração humana por trás do projeto, poucas figuras do mercado se retrataram, e o Moltbook continua aparecendo em manchetes internacionais como um marco da inovação. Até mesmo Karpathy reafirmou o próprio entusiasmo com o projeto, embora tenha ajustado ligeiramente o discurso em uma publicação posterior.

Empolgação esconde falsas promessas

A ascensão do Moltbook ocorreu na esteira do sucesso do OpenClaw (então, Clawdbot), alimentando a fantasia de que as máquinas finalmente haviam alcançado autonomia social. O hype foi aproveitado por empresas do setor, embora nomes como Sam Altman já indicassem que redes sociais para robôs seriam apenas uma febre passageira.

Existe no imaginário coletivo a ideia de que, no futuro, humanos e máquinas conviverão quase como iguais — conceito que permeia a literatura, o cinema e os jogos. O Moltbook, projeto desenvolvido por vibe coding — e, talvez por isso, recheado de brechas de segurança — dá contornos mais concretos para essa fantasia sci-fi. Contudo, a plataforma não passa de um teatro de fantoches tecnológico que consome muito dinheiro em chamadas de API, energia elétrica e água nos data centers.

Do lado da indústria, há a ânsia pela descoberta da AGI (“Inteligência Artificial Geral”), conceito que descreve uma IA com capacidade cognitiva superior à humana. Trata-se de uma das promessas mais antigas dos principais players do mercado, incluindo a OpenAI, frequentemente divulgada quase como uma solução mágica para todos os problemas da humanidade.

Somadas, essas predisposições criaram o cenário ideal para a especulação e a formação de uma câmara de eco no X. Um projeto como o Moltbook, que por si só não é exatamente impressionante, acabou ganhando destaque midiático internacional. Aos olhos mais atentos, porém, trata-se de mais uma encenação da já conhecida teoria da internet morta.

Gostou deste conteúdo? Acompanhe o TecMundo para não perder as últimas atualizações sobre o universo da inteligência artificial e segurança digital.

Autor: TecMundo

Destaques da Semana

Julgamento de extradição de Carla Zambelli é suspenso e deve ser retomado nesta quinta-feira

A Corte de Apelação de Roma interrompeu o julgamento...

Ana Paula Renault comenta atitude de Sol no BBB 26: “Não me senti agredida”

Ana Paula Renault conversou no quarto sobre a situação...

Cleitinho racha Senado e critica “escala 3×4” sem votações nesta semana

O senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) criticou seus pares do...

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas