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MotoGP retorna ao Brasil sob testes de operação e público – 21/03/2026 – Esporte

A volta do Brasil ao calendário da MotoGP, após mais de duas décadas, recolocou Goiânia no circuito internacional nesta semana, marcada por ajustes e aprendizado para a organização do evento. A etapa mobilizou o governo de Goiás e a iniciativa privada, elevou o fluxo de visitantes e avançou na operação, ainda que com pontos a corrigir.

O principal teste veio com a chuva, que pressionou a pista e a organização ao longo da programação semanal. A corrida neste domingo (22), às 15h (de Brasília), vai indicar os aspectos positivos ao longo de toda a etapa e no que a categoria precisa ter mais atenção para os próximos quatro anos, período que compreende o contrato firmado para correr no país.

Para viabilizar a etapa, o governo de Goiás gastou R$ 250 milhões. Desse total, cerca de R$ 60 milhões foram destinados à reforma do Autódromo Internacional Ayrton Senna. Segundo a Seel (Secretaria de Estado de Esporte e Lazer), os outros R$ 190 milhões incluem o pagamento de patrocínios para a realização da etapa e a compra de equipamentos que passam a integrar a estrutura permanente do circuito.

A modernização foi ampla, com a reconstrução e ampliação do paddock, atualização de arquibancadas, sala de imprensa e camarotes, além da construção de uma nova torre de controle e de um centro médico. Áreas administrativas e de apoio também foram reformadas. Os 3.825 metros da pista foram refeitos e recapeados, com troca de barreiras de pneus, guard-rails e zebras, para atender às exigências da categoria.

A projeção de impacto econômico chega a R$ 800 milhões, considerando gastos diretos e efeitos indiretos em setores como turismo, transporte e serviços. Em nota, o governo afirma que o evento faz parte de uma estratégia para ampliar a visibilidade do estado e atrair novos investimentos.

Especialistas ouvidos pela reportagem, porém, pregam cautela na leitura dessas estimativas. “O investimento público dificilmente se paga pelo retorno direto. Ele se apoia em impactos indiretos, que são mais difíceis de medir e, na prática, muitas vezes inflados por premissas otimistas”, afirma Eduardo Corch, professor de marketing do Insper e diretor-geral da agência EMW Global para América Latina.

Ele também ressalta limitações na comparação com outras categorias. “A comparação com a F1 precisa de cuidado. O Grande Prêmio de São Paulo opera em outro patamar, com histórico consolidado e infraestrutura mais robusta.”

Na avaliação do consultor José Sarkis Arakelian, o problema está no modelo de cálculo. “Esses números combinam efeitos diretos, indiretos e induzidos, mas dependem de premissas que nem sempre se confirmam”, diz. “É comum haver contagem dupla e substituição de consumo local, por isso faz mais sentido ler esses valores como potencial, não como retorno assegurado.”

Corch também aponta que o impacto tende a se concentrar no curto prazo. “Na prática, esses eventos geram picos de atividade. O legado não vem automaticamente. Ele depende do uso contínuo da infraestrutura e de estratégias para atrair novos fluxos de turismo e negócios.”

Dados do setor indicam esse movimento. A rede hoteleira registra alta ocupação, mas ainda mantém entre 15% e 20% de vagas disponíveis durante o fim de semana.

O retorno da MotoGP também tem peso simbólico. A categoria não corria no país desde 2004, quando deixou o autódromo de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Tentativas posteriores de levar a etapa para outras cidades, como Brasília e Deodoro, não avançaram.

Goiânia, por sua vez, já recebeu o Mundial entre 1987 e 1989, antes da passagem por Interlagos, em 1992, e da sequência no Rio ao longo da década seguinte. A etapa atual retoma essa relação, agora em um cenário mais competitivo entre países por eventos globais.

Dentro da pista, o fim de semana começou com limitações. A chuva atrasou treinos e dificultou a adaptação dos pilotos ao circuito reformado. “Problemas operacionais, como chuva, entram nessa conta. Em eventos ainda em consolidação, o impacto é maior”, diz Corch.

O diretor esportivo da MotoGP, Carlos Ezpeleta, avaliou a etapa como positiva, apesar dos ajustes necessários. “Está sendo uma semana muito positiva, estamos muito contentes. A cidade respondeu bem e o paddock gostou muito do ambiente”, afirmou.

Ele reconheceu, porém, que há pontos a evoluir. “Tivemos problemas com a chuva, mas isso faz parte de um primeiro ano. Há ajustes a fazer, e a tendência é que o evento evolua nas próximas edições.”

O brasileiro Diogo Moreira, um dos poucos que já conhecia a pista, caiu durante uma das sessões de treino. “A gente não conseguiu fazer um ritmo de corrida nem entender bem o pneu”, afirmou. A avaliação dele é de uma prova aberta, com margem maior para variações ao longo da disputa.

Ele também apontou que o traçado, de alta velocidade, oferece poucos pontos claros de ultrapassagem, o que pode aumentar o peso da estratégia.

Apesar das incertezas, o piloto destacou o ambiente. “Faz muito tempo que eu não corria no Brasil. Ver a arquibancada cheia faz diferença”, disse.

Fora da pista, o evento impulsiona o turismo esportivo, com venda de ingressos para os três dias e oferta de pacotes que incluem transporte e hospedagem. “Há uma demanda crescente de fãs que querem transformar a corrida em uma experiência completa”, afirma Joaquim Lo Prete, da Absolut Sport, uma das empresas que ofereceram pacotes de hospitalidade para a etapa.


Veja a programação do fim de semana

Sábado (21)

10h50 – Qualificação 1 – ESPN4 e Disney+

11h15 – Qualificação 2 – ESPN4 e Disney+

15h – Corrida Sprint – ESPN4 e Disney+

Domingo (22)

15h Grande Prêmio do Brasil de MotoGP – ESPN4, Disney+ e Band

Autor: Folha

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