Mudanças em práticas de cuidado em UTIs neonatais, como reduzir o uso desnecessário de antibióticos e antecipar a alimentação com leite materno, reduziram em 18,5% a incidência de sepse tardia, infecção que é a principal causa de morte entre prematuros de muito baixo peso. O resultado vem de um projeto conduzido pela Rede Brasileira de Pesquisas Neonatais (RBPN) em 12 centros neonatais entre 2021 e 2023.
A sepse afeta especialmente bebês que nascem com menos de 1,5 kg e pode ocorrer de duas formas: precoce, quando surge até o terceiro dia de vida e está associada a fatores maternos, como rompimento prematuro da bolsa, parto prematuro e infecção urinária; e tardia, ligada a fatores ambientais e que aparece após os primeiros três dias.
Ao nascer, esses prematuros têm sistema imunológico imaturo e frequentemente dependem de dispositivos de suporte à vida, como ventilação mecânica e acesso venoso central para nutrição, o que aumenta a vulnerabilidade a infecções. Embora essenciais, esses equipamentos também podem funcionar como porta de entrada para agentes infecciosos.
Desde 1997, a RBPN reúne centros universitários de referência para coletar dados sobre prematuros de muito baixo peso e desenvolver estratégias para melhorar a assistência nas UTIs neonatais. A sepse tardia tornou-se um dos principais focos da rede por ser uma condição potencialmente evitável com mudanças nas práticas de cuidado.
Em 2009, um grupo de trabalho passou a acompanhar fatores associados a infecção nas unidades participantes. Na época, a incidência chegava a 25%, ou seja, 1 em cada 4 bebês apresentava sepse tardia. Mesmo com alertas às equipes, o índice continuou crescendo e chegou a 30% em 2020, o que levou à criação de um projeto de intervenção.
As pediatras Ligia Maria Suppo de Souza Rugolo e Maria Regina Bentlin, da Faculdade de Medicina da Unesp (Universidade Estadual Paulista) de Botucatu, foram designadas pela rede para coordenar o projeto DownLOS —sigla em inglês para sepse tardia (late onset sepsis). A iniciativa voluntária propôs mudanças nas práticas assistenciais e levou à redução dos casos em 67% das unidades participantes.
Metodologia para intervenção
Para atacar os principais fatores associados à ocorrência de sepse tardia em bebês prematuros de muito baixo peso, primeiro, era preciso identificá-los. E verificar se sua incidência era observada em todas as unidades participantes do projeto. Para isso, as pesquisadoras decidiram adotar metodologias de melhoria de qualidade já reconhecidas.
“Para esse levantamento inicial utilizamos o método PDCA, que contempla as etapas de planejar, fazer, verificar e agir; e os Diagramas de Ishikawa e de Pareto, que são ferramentas para identificar e organizar as causas e soluções para um problema”, diz Bentlin.
Dentre as práticas que favorecem a incidência da sepse tardia as pesquisadoras identificaram o uso de antibióticos nas primeiras 48 horas de vida em bebês sem infecção; as complicações relacionadas ao cateter venoso central, utilizado para administração de medicamentos e nutrição dos prematuros; e o início tardio da utilização do leite materno para a nutrição dos prematuros.
“Usar antibiótico precocemente em recém-nascidos prematuros leva a uma disbiose, ou seja, causa alterações na flora intestinal e favorece infecções. Percebemos que esse era um ponto muito sensível na Rede”, explica Bentlin.
“E o outro ponto era a alimentação. Alimentar o bebê com o leite da mãe precocemente é a melhor estratégia. E a gente percebeu que havia um atraso nos nossos centros. Quando eu priorizo a nutrição a partir do leite materno, eu também consigo remover mais cedo o catéter vascular e reduzir suas complicações”, completa.
Concluído o mapeamento, o projeto passou a implementar mudanças nas práticas assistenciais com metas adaptadas à realidade de cada centro. Para organizar tarefas e responsabilidades, os pesquisadores adotaram a ferramenta de gestão 5W2H, sigla em inglês para sete perguntas orientadoras: o quê, por quê, onde, quando, quem, como e quanto custa.
Levando em consideração a diversidade dos centros em relação à infraestrutura, recursos humanos e práticas assistenciais de que cada um dispunha, também foram aplicados dois questionários para as equipes multidisciplinares de médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem.
“Para cada item apontado [associado à sepse tardia], foi definido o que fazer, como fazer, o nome da pessoa responsável”, diz Bentlin. “E cada unidade tinha liberdade, dentre esses indicadores que foram selecionados, para definir como chegar a esse objetivo. E a partir dos questionários definimos as metas individuais. Porque alguns centros tinham incidência de sepse de 45%, enquanto outros apresentavam índice menor, de 15% ou 20%. A proposta de redução era proporcional, segundo a realidade de cada um.”
Resultados
Durante o estudo entre 2021 e 2023, foram incluídos os recém-nascidos prematuros com idade gestacional entre 22 e 36 semanas, pesando entre 400 g e 1.499 g, sem malformações e internados em UTI neonatal por mais de 72 horas, um total de 1.993 bebês.
Entre as práticas, os centros deveriam reduzir as complicações relacionadas aos cateteres centrais, suspender os antibióticos em bebês não infectados em até 48 horas, incentivar a extração de leite materno para início da alimentação nas primeiras 24 horas de vida e alimentação completa, sem necessidade de acesso venoso e nutrição por via endovenosa, até o 11º dia de vida.
Metade dos centros atingiu a meta para complicações relacionadas a cateteres umbilicais e 92% para cateteres percutâneos. Os antibióticos foram suspensos em 48 horas em 67% dos recém-nascidos não infectados. A extração precoce de leite materno e a alimentação por sonda foram alcançadas em 44% e 75% dos casos, respectivamente. E 58% dos recém-nascidos atingiram nutrição completa até o 11º dia de vida. Com isso, metade dos centros atingiram as metas individuais estabelecidas e 67% registraram redução na ocorrência de sepse tardia. Isso contribuiu para uma diminuição geral na incidência de sepse de 18,5%.
Para Rugolo, os grandes destaques do projeto foram as metas adaptáveis à realidade de cada centro e o constante diálogo entre a equipe de pesquisa e as unidades participantes por meio de reuniões de avaliação.
“Nessas reuniões periódicas, sempre tivemos o cuidado, ao receber os dados dos centros, de compilar e fazer apresentações dos resultados de forma anonimizada”, diz a docente. “Cada centro sabia a sua sigla, mas a gente podia discutir sem nenhum constrangimento. E essa troca de experiências foi muito enriquecedora.”
Outro ponto importante, segundo as pesquisadoras, foi a escolha dos indicadores a serem trabalhados. Uma vez que os centros da RBPN pertencem a instituições públicas de ensino, em muitos casos enfrentam desafios relacionados à infraestrutura, equipamentos e mão de obra. Assim, as ações propostas deveriam ser factíveis e de baixo custo.
“Mostramos que a sepse é uma causa de morte que pode ser evitável. E para isso existem medidas que podem ser adotadas sem custo, que dependem apenas das nossas ações no dia a dia. Do contrário, o projeto não sairia do papel e não teria o impacto que teve”, esclarece Bentlin.
Próximas etapas
Os atuais 24 centros da RBPN foram convidados em janeiro de 2026 para uma nova etapa do projeto, agora com a participação de enfermeiros e técnicos de enfermagem que integram as equipes de assistência.
“Essa não deve ser uma preocupação apenas do médico responsável por uma UTI neonatal. A equipe toda da unidade precisa estar envolvida e vestir a camisa. O engajamento é algo que vamos incentivar nessa segunda etapa do projeto”, afirma Rugolo.
A professora diz que a expectativa é que a ação se popularize e seja replicada para além da rede. “Foi uma iniciativa que deu certo e pode ser adotada por qualquer unidade neonatal. Não precisa ser universitária. Qualquer unidade tem condição de monitorar esses indicadores e melhorar suas práticas.”
Autor: Folha








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