sexta-feira, fevereiro 27, 2026
16.8 C
Pinhais

Mulheres relatam fetichização por autistas em apps – 27/02/2026 – Equilíbrio

“Como é seu ciclo menstrual sendo uma pessoa autista?” Essa foi a mensagem que a psicóloga Luana Alves de Oliveira, 24, recebeu no WhatsApp. De início, ela não estranhou quando um número desconhecido perguntou se ela era autista. Mas, ao ser questionada sobre algo tão íntimo, ficou sem reação. “Ele começou a fazer perguntas muito específicas sobre meu período [menstrual]. O que uma coisa tem a ver com a outra?”, afirma. Quando cortou o assunto, o homem apagou todas as mensagens.

Desde que passou a produzir conteúdo sobre autismo nas redes sociais, Luana percebeu uma mudança nas abordagens que recebe. “Recebo mensagens de homens especulando sobre a minha vida, sobre como é ser autista. Mas não é curiosidade genuína”, diz.

Segundo Luana, às vezes a mensagem vem disfarçada de elogio. “Já falaram ‘nossa, eu queria uma autista desse tipo’, como se eu fosse um bichinho de estimação bonitinho”, afirma.

, disse que notou algo parecido depois que tornou público seu diagnóstico. Quando começou a compartilhar sua experiência nas redes, homens mais velhos que ela, entre 40 e 50 anos, passaram a enviar mensagens pelo TikTok. Diziam que ela era “diferente”, que queriam conhecê-la.

“Eu fiquei bem assustada. Percebi uma certa vulnerabilidade sendo explorada. Como se as pessoas vissem e pensassem: ela é autista, então talvez seja mais ingênua.”

Essa percepção ganha contornos mais graves quando confrontada com uma pesquisa publicada em 2023 na revista Frontiers in Behavioral Neuroscience. O estudo, feito com 225 mulheres autistas na França, revelou que 88,4% delas foram vítimas de violência sexual ao longo da vida. Dois terços eram muito jovens na primeira agressão e 135 das 199 vítimas tinham 18 anos ou menos.

Segundo a psicóloga Marina Soares Remiggi, mãe atípica e especialista em sexualidade humana, o desejo sexual considera a pessoa na totalidade, é uma experiência mais genuína, baseada na compreensão das emoções do outro. Já o fetichismo reduz a pessoa a uma característica específica.

No caso das mulheres autistas, ela diz que a atração acaba se dando por uma idealização, desumanizando e tornando essa pessoa um objeto de excitação. “O capacitismo aparece disfarçado de curiosidade, mas se manifesta como objetificação”, afirma.

Para Babi e Luana, mulheres autistas vivem entre dois extremos: a hipersexualização e a infantilização que nega sua vida afetiva. “Tem pessoas que acham que, por conta do autismo, o autista não pode namorar, não pode transar“, diz Babi.

No Tinder, Babi colocava o símbolo do quebra-cabeça na bio, deixando claro que era autista. “Percebi que tinha pessoas que ficavam mais interessadas, mas não consigo identificar se era por causa do ativismo ou se era fetiche.” Por bastante tempo, parou de se relacionar com homens. Hoje namora há quatro meses um rapaz que conheceu no colégio. Mas o medo permanece: “É um trauma que fica.”

Luana nunca usou aplicativos de namoro. Conheceu o namorado, também autista, numa cervejada da faculdade. Mas isso não a protegeu de receber mensagens invasivas nas redes sociais. “Às vezes a pessoa questiona se você é autista de verdade e na mesma mensagem tenta algo.”

A psicóloga Marina reforça que “as pessoas com deficiência desenvolvem sua sexualidade assim como as demais pessoas, porque a sexualidade acompanha o desenvolvimento cronológico mais do que o cognitivo”. Ela ressalta que quando pessoas autistas expressam desejo de forma inadequada socialmente, isso pode levar a uma exposição maior a situações de vulnerabilidade sexual.

Luana sabe disso na prática. “Pessoas autistas têm dificuldade na comunicação, e isso inclui interpretar o que as outras pessoas estão realmente querendo dizer. Às vezes alguém tem má intenção e a gente tem mais dificuldade de perceber.” Ela admite já ter estado em situações de risco. “Só não passei por nada muito grave porque sempre tive minhas amigas comigo. Os agressores sempre vão buscar a pessoa mais vulnerável, porque é mais fácil de manipular.”

Babi alerta que mulheres autistas precisam tomar cuidados extras, embora reconheça que a responsabilidade não deveria ser delas. “A gente tem dupla vulnerabilidade: somos autistas e mulheres.” Mas insiste: “quando eu falo isso, parece que é responsabilidade nossa. E não é. São os profissionais de saúde, as escolas, é uma rede que tem que atuar junto.”

Para Marina, a solução passa por conhecer essas pessoas, trabalhar com cuidadores e os lugares que frequentam, respeitar o ritmo de cada um, oferecer espaço de escuta. Ela defende que um dos caminhos viáveis é a educação sexual desde a infância, incluindo família, escola, terapeutas.

Babi, que criou o projeto Florescendo Invisível sobre autismo feminino, resume: “tem que ter conscientização de que nós somos pessoas. A gente pode amar, pode odiar, pode transar. Eu bato na tecla de que não existem anjos azuis. Não somos seres puros.”

Autor: Folha

Destaques da Semana

Temas

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas