Os que acreditam em Elon Musk se convencem tanto por sua visão de ir aonde ninguém foi antes quanto por sua capacidade de bancar esse projeto. O anúncio de Musk da fusão da SpaceX, que fabrica foguetes e vende internet via satélite, com a xAI, sua startup de IA (inteligência artificial), não foi modesto em ambição.
O homem mais rico do mundo declarou que a nova empresa iria “estender a luz da consciência até as estrelas”. Aqui na Terra, porém, fica cada vez mais difícil entender como os números de Musk fecham.
A transação avalia a nova entidade em US$ 1,25 trilhão; investidores da SpaceX terão direito a 80%, ficando o restante com os donos da xAI (Musk detém participação de controle em ambas). A justificativa oficial para a união é que as empresas trabalharão juntas para lançar uma frota de centros de dados no espaço, o que daria à xAI uma grande vantagem na corrida pelo desenvolvimento de modelos de ponta, ao mesmo tempo em que forneceria à SpaceX uma nova linha de negócios.
Mais imediatamente, a combinação das duas pode aumentar ainda mais o interesse por uma abertura de capital esperada para o meio deste ano.
Ao unir SpaceX e xAI, no entanto, Musk está sobrecarregando uma campeã espacial altamente lucrativa com uma retardatária da IA que dá prejuízo. Paralelamente, ele está remodelando a Tesla, sua montadora de carros elétricos, como uma “empresa de IA física”, focada em táxis autônomos e robôs humanoides. Se a mais recente onda de IA se mostrar tão transformadora quanto alguns esperam, essas apostas ousadas podem dar certo. Caso contrário, o império empresarial de Musk pode ficar seriamente ameaçado.
Comecemos pela megafusão. A SpaceX é uma joia. Em 2025, lançou quase 4.000 satélites ao espaço, o que representou cerca de 85% do total global no ano. A empresa consegue colocar objetos em órbita a um custo muito menor do que qualquer concorrente. O Starlink, serviço de banda larga via satélite que é sua principal fonte de receita, tem cerca de 9 milhões de assinantes no mundo, segundo o Deutsche Bank —mais que o triplo de dois anos atrás.
A companhia também mantém contratos governamentais lucrativos. No total, teria gerado até US$ 16 bilhões em receita em 2025 e cerca de US$ 8 bilhões em lucro operacional (antes de depreciação e amortização).
O quadro é bem diferente na xAI. A empresa obteve no ano passado algo em torno de US$ 500 milhões em receita com seus modelos Grok; a rival OpenAI, dona do ChatGPT, faturou cerca de US$ 13 bilhões. O X, a plataforma de mídia social comprada pela xAI no ano passado, teria acrescentado talvez mais US$ 3 bilhões em vendas. Ainda assim, o negócio como um todo estaria queimando caixa a um ritmo de cerca de US$ 1 bilhão por mês, enquanto investe somas gigantescas em centros de dados.
A empresa também traz outros problemas. O X está sob investigação na União Europeia e no Reino Unido por possíveis violações de regras de dados e pelo lançamento, no Natal, de um gerador de imagens amplamente utilizado para produzir deepfakes sexuais, inclusive, segundo relatos, de crianças. Neste mês, os escritórios em Paris foram alvo de buscas por autoridades francesas.
Musk nega que a empresa tenha cometido irregularidades. Se os tribunais entenderem o contrário, a UE poderá multá-la em até 6% de sua receita global, enquanto o Reino Unido poderá impor multas de até 10%.
Há ainda as dívidas. No ano passado, a xAI tomou US$ 5 bilhões emprestados para financiar sua farra de centros de dados. Com a Valor Equity Partners, apoiadora de longa data dos empreendimentos de Musk, também criou um veículo fora do balanço, financiado por cerca de US$ 3,5 bilhões em dívida, para comprar ainda mais chips de IA.
A fusão com o X no ano passado deixou a startup com mais US$ 12 bilhões, ou algo próximo disso, em empréstimos remanescentes da compra da rede social por Musk. A SpaceX, por sua vez, está comprometida a cobrir US$ 2 bilhões em juros devidos pela EchoStar, como parte de um acordo do ano passado para adquirir espectro móvel da combalida empresa de satélites.
Essas obrigações combinadas pressionarão o negócio num momento em que a xAI segue operando no vermelho e a SpaceX investe pesadamente em seu novo sistema de lançamento Starship, que está atrasado.
EM BUSCA DA POEIRA ESTELAR
Uma injeção de capital por meio de uma abertura de capital ajudaria a aliviar o peso. A empresa combinada teria planos de levantar US$ 50 bilhões a uma avaliação de pelo menos US$ 1,5 trilhão. É um valor elevado mesmo para os padrões de Musk.
A Tesla vale US$ 1,5 trilhão, mas gerou US$ 95 bilhões em vendas no ano passado —cerca de cinco vezes mais do que SpaceX e xAI juntas. Alguns investidores institucionais mais conservadores torcerão o nariz para o preço. Outros se afastarão pela associação com o Grok. Mas eles não serão o público-alvo de Musk. Seu discurso provavelmente apresentará centros de dados no espaço como prelúdio de fábricas na Lua e cidades em Marte. Investidores de varejo vão adorar.
A disposição de Musk de fundir a SpaceX com a xAI mostra o quanto ele se comprometeu a dominar a indústria de IA. É algo pessoal: ele nutre aversão por Sam Altman, chefe da OpenAI, que Musk cofundou e hoje processa por ter abandonado sua estrutura original sem fins lucrativos. Altman também mira uma grande abertura de capital neste ano.
Em teoria, usar a SpaceX para construir centros de dados orbitais poderia ajudar Musk a ganhar vantagem sobre o rival. Altman teria tentado adquirir, se associar ou criar uma empresa espacial para rivalizar com a SpaceX e há muito tempo especula sobre os benefícios de centros de dados no espaço. O Google, cujo modelo Gemini concorre com o ChatGPT e o Grok, planeja enviar à órbita, em 2027, um satélite de teste contendo seu chip próprio de IA.
Musk quer sair na frente. Em janeiro, a SpaceX apresentou um pedido à Comissão Federal de Comunicações para colocar em órbita uma constelação de 1 milhão de centros de dados baseados em satélites. Musk argumentou que, em dois ou três anos, o lugar mais barato para oferecer capacidade computacional será o espaço, aproveitando energia solar não atenuada pela atmosfera. Satélites Starlink poderiam então transmitir os dados de volta à Terra.
Ainda assim, muita coisa precisa ser comprovada. A principal questão, diz Peter Beck, fundador da Rocket Lab, rival menor da SpaceX, é o que sai mais barato: o custo da eletricidade na Terra, onde a energia é escassa, ou os custos de lançamento para chegar ao espaço, onde a energia é abundante. Por ora, a segunda opção é proibitiva.
Em um estudo do ano passado, pesquisadores do Google afirmaram que o custo de lançamento não deve cair a um nível equivalente ao custo de operar centros de dados terrestres por pelo menos uma década. A xAI precisará de um aumento significativo de capacidade computacional muito antes disso.
Há também obstáculos técnicos. Centros de dados orbitais precisarão de grandes radiadores para resfriamento, e raios cósmicos podem danificar equipamentos. Chris Kemp, fundador da Astra, outra empresa de foguetes, observa que chips de IA tendem a se tornar obsoletos rapidamente e precisam ser substituídos. “Você vai ter de renovar seus satélites a cada poucos anos, o que só agrava o problema”, diz.
A Tesla, que nos últimos anos começou a dar lucros, poderia ser convocada para ajudar. Em janeiro, a montadora informou ter investido US$ 2 bilhões na xAI. As duas empresas compartilham cada vez mais software, dados e chips. Alguns especulam que a Tesla poderia até ser incorporada ao restante do império de Musk, embora isso fosse complicado pelo fato de ele não deter participação de controle na empresa e de, como seu diretor-presidente, ter garantido recentemente um pacote de remuneração de até US$ 1 trilhão que poderia ser questionado por uma fusão.
Ainda assim, Musk está conduzindo sua montadora diretamente para o centro do hype da IA. Em breve, a empresa deixará de produzir o Model S, seu primeiro carro elétrico de produção em massa, e o Model X, seu SUV de portas tipo asa. Juntos, os dois modelos responderam por apenas 2% da produção de veículos da Tesla em 2025.
Mais revelador é o fato de que o espaço fabril atualmente dedicado a eles será reaproveitado para fabricar o Optimus, o robô humanoide da empresa. Musk estabeleceu a meta de produzir 1 milhão deles por ano até o fim de 2027. Ao mesmo tempo, a Tesla investe pesado no desenvolvimento do Cybercab, um táxi autônomo de dois lugares que deve entrar em produção plena em abril.
Musk declarou que, até o fim deste ano, seus robotáxis terão deixado algumas poucas áreas de teste e estarão disponíveis para até metade da população dos Estados Unidos.
Na prática, táxis autônomos e robôs humanoides levarão anos para amadurecer e se tornarem negócios lucrativos. Enquanto isso, exigirão investimentos enormes justamente quando o negócio principal da Tesla está perdendo fôlego. As vendas de veículos caíram 9% em 2025, o segundo ano consecutivo de retração. Na Europa, despencaram um quarto.
Alguns compradores se afastaram por causa das estripulias políticas de Musk. O problema mais profundo, porém, é o endurecimento da concorrência em veículos elétricos, tanto de montadoras tradicionais quanto de novas empresas chinesas. A linha restante da Tesla, carente de investimentos, continuará a perder atratividade.
Assim como na SpaceX, portanto, Musk está apostando o futuro da Tesla na IA e em sua crença de que pode usar seus negócios existentes para dominar a tecnologia. Muitos céticos já zombaram de suas ambições grandiosas antes. Mas Musk nunca colocou tanto em jogo.
Autor: Folha








.gif)











