O amor não conhece barreiras. Não conheceu entre neandertais e Homo sapiens.
Imagino o filme: 50 mil anos atrás, eles se encontram. Trocam palavras, grunhidos —ou, no mínimo, farejam as respetivas carcaças. O clima esquenta. A biologia decide. Nove meses depois, um pimpolho peludo e cabeçudo entra no registro fóssil.
Até hoje, os humanos modernos carregam vestígios genéticos dessas horas, ou minutos, ou talvez segundos de paixão interespécies. Comovente? Talvez.
Mas os cientistas introduziram um detalhe nesse roteiro que abalou minha costela romântica. Num artigo publicado na Science e repercutido pelo The Guardian, descobri que o cruzamento foi assimétrico. Aconteceu principalmente entre homens neandertais e mulheres sapiens.
Os pesquisadores tentam acalmar os românticos: prevalência não significa preferência, Little Couto! Não houve uma atração especial dos neandertais por mulheres sapiens. A direção dos cruzamentos foi apenas mais comum entre os brutamontes e as donzelas —e demorou o tempo suficiente para deixar sua marca genética.
Respeito a ciência. Mas conheço cientistas: excelentes no laboratório, nem sempre convincentes quando o assunto é a vida real. Para entender a “direção dos cruzamentos”, talvez seja preciso olhar para os amantes pré-históricos com uma boa dose de imaginação erótica.
A atração dos neandertais pelas sapiens não é difícil de imaginar. Num mundo rude, gelado e brutal, deve ter sido um choque e um encanto encontrar corpos femininos mais leves, adornados com pigmentos, conchas ou ossos polidos. E, falo sem falsa modéstia, com testas altas e majestosas.
Os neandertais já tinham marcha completamente ereta, como mostram os fósseis. Mas diante dessas visões talvez tenham caído de quatro, num breve retrocesso evolutivo.
E elas? O que viram neles?
Difícil explicar. Desde quando troncos robustos e braços potentes tiveram o seu apelo? É um mistério, cientistas: em regra, corpos mirrados e braços encantadoramente flácidos sempre fizeram sucesso por aí.
Há outro mistério igualmente cabeludo: por que os homens sapiens não cederam aos encantos das mulheres neandertais com a mesma frequência?
Será que existe uma inclinação masculina por corpos magros, leves e simétricos?
A pergunta é perigosa e pressupõe que foram eles que rejeitaram as damas. Peço desculpas às partes envolvidas.
Olhando melhor para os dados, talvez tenham sido elas a recusar espécimes tão raquíticos. Com cérebros ligeiramente maiores, as mulheres neandertais eram mais inteligentes do que eles —e rapidamente concluíram que os sapiens eram bons de conversa, mas imprestáveis para o trabalho duro. Investimento de risco alto.
Moral da história?
Se eu tivesse vivido no Paleolítico Superior, minhas chances no mercado amoroso seriam incertas. Testa alta e majestosa? Tenho. Poderia ser um respeitável crítico de arte, explicando aos visitantes as últimas tendências em pintura rupestre.
Tronco robusto e braços potentes?
Se me permite, prefiro não submeter evidências que possam ser usadas contra mim numa futura escavação.
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Autor: Folha








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