Navegantes, município do litoral norte de Santa Catarina, tem a história da carpintaria naval artesanal como marco da sua participação na economia marítima brasileira. Situada na foz do rio Itajaí-Açu, a cidade abriga a Portonave, um dos principais complexos portuários do país e concentra 44 estaleiros, indústrias especializadas no projeto, construção, manutenção e reparo de navios e outras embarcações.
Dados do Ministério do Trabalho e Emprego mostram que a indústria naval brasileira criou cerca de 50 mil empregos em 2025. Em Navegantes, o setor respondeu por cerca de um quinto deste total. A indústria naval gerou aproximadamente 10 mil empregos diretos e indiretos no ano passado.
O setor atuou como principal motor da economia local e respondeu por um montante entre 12% e 18% do Produto Interno Bruto (PIB) municipal no último ano. Com PIB superior a R$ 7,9 bilhões em 2023, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Navegantes projeta que o Valor Adicionado da indústria naval tenha superado R$ 1,5 bilhão em 2025.
“O setor naval é um dos pilares estratégicos da economia de Navegantes. Além de impulsionar o PIB municipal, a indústria reforça a vocação histórica da cidade, ligada ao mar. Isso posicionou Navegantes como referência no setor no Brasil”, destaca o prefeito Liba Fronza (PSD).
Indústria naval em Navegantes atrai R$ 2,3 bilhões para construção de seis navios
A projeção da administração municipal aponta crescimento do setor em 2026. Em janeiro, o Ministério de Portos e Aeroportos anunciou a liberação de R$ 2,3 bilhões do Fundo da Marinha Mercante para a construção de embarcações de apoio marítimo (offshore) no estaleiro Navship, em Navegantes.
Serão seis navios que complementam o transporte e a operação do petróleo nos grandes sistemas da Petrobras. A expectativa é que o empreendimento gere mais de 1,2 mil empregos.
O investimento também deve impulsionar centenas de micro e pequenas empresas catarinenses. A demanda vai abrir espaço para a cadeia de suprimentos da metalurgia especializada aos serviços de logística e alimentação.

Para o diretor da Navship, David Munaretto, o impacto para a cidade será imediato. “Serão seis novas embarcações, as mais modernas operando no Brasil nessa categoria”, caracteriza ele.
O Estaleiro Navship, instalado no município em 2005, adquiriu R$ 448 milhões em insumos e materiais no ano passado. O volume superou em 43,6% o registrado em 2024. Navegantes também abriga a Indústria Naval Catarinense e a Seatrium, referências nacionais nos segmentos de construção e reparo naval.
Abundância de madeira impulsionou a carpintaria naval em Navegantes
De acordo com a prefeitura de Navegantes, a tradição da construção das embarcações em madeira chegou com portugueses provenientes do arquipélago dos Açores, que acabou sendo passada para os moradores locais. A obra da carpintaria naval começava com o trabalho do mestre do risco, que desenhava a embarcação e acompanhava a sua construção.
O professor Edison d’Ávila, sócio emérito do Instituto Histórico e Geográfico de Santa Catarina, explica que a carpintaria naval na foz do rio Itajaí-Açu ocupava as duas margens, do lado de Itajaí e de Navegantes.
“A abundância de madeiras próprias para a construção naval motivou a atividade na região. Os construtores produziam embarcações de vários modelos, como sumacas, patachos, palhabotes, chatas e escalares. Para se ter ideia da presença e importância da atividade, o terreno da primeira igrejinha de Navegantes, doado por uma família, tem documento do ano de 1898 e ocupava um antigo estaleiro”, conta o professor.

Carpintaria de ribeira formou a base da indústria naval em Navegantes
Ainda no século XVIII, os carpinteiros de ribeira, como eram chamados os construtores das embarcações, cortavam a madeira e faziam todo o trabalho para a montagem da embarcação. As madeiras mais usadas eram a peroba, o ipê e a canela. Após concluído, o barco recebia o minucioso trabalho de calafetação, para o fechamento de todas as frestas do costado e do convés.
O ofício da carpintaria naval passou de pais para filhos ao longo de gerações, segundo o historiador. Para a expansão dos grandes estaleiros, a exigência de mão de obra especializada foi atendida com o investimento em formação técnica, em Itajaí e em Navegantes.
“A abertura do Curso de Construção Naval e Engenharia Mecânica da Universidade do Vale do Itajaí (Univali) formou profissionais qualificados e permitiu o surgimento de estaleiros voltados à construção de embarcações de grande porte e tecnologia avançada”, aponta d’Ávila.
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Autor: Gazeta do Povo








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