domingo, dezembro 28, 2025

Noite eletrônica paulistana cediou disputas em 2025 – 28/12/2025 – Ilustrada

No início deste ano, um dos clubes mais tradicionais de São Paulo se tornou centro de uma polêmica que extrapolou o mundo da música eletrônica. A D-Edge, balada que já recebeu DJs renomados como Jeff Mills e Laurent Garnier, acendeu suas luzes e encheu sua pista principal de cadeiras para receber um culto evangélico liderado por Baby do Brasil.

Entre piadas sobre sentir a onda do espírito santo, a pastora fez comentários a respeito de perdoar abusadores e trouxe um convidado ao palco que falou sobre ter sido curado da homossexualidade.

Para alguns, o episódio foi apenas um momento infeliz na carreira do clube icônico –Renato Ratier, que fundou a D-Edge no começo dos anos 2000 e se converteu há cerca de quatro anos, pediu desculpas pelos comentários preconceituosos e prometeu que não faria outro culto na balada, contrariando o que tinha dito inicialmente.

Mas o caso também pode ser visto como um símbolo da desconexão entre a música eletrônica comercial, com seus clubes estabelecidos e megafestivais, e as festas independentes e sons underground que há anos brigam por espaço em São Paulo.

Em 2017, quando a cidade estava sob a batuta de João Doria, essa guerra se deu explicitamente nas ruas do centro da cidade. Quando a festa Mamba Negra foi impedida de realizar uma de suas edições na Fabriketa pela prefeitura, que alegou falta de alvará, o coletivo saiu com um trio elétrico da Via Matarazzo, onde a festa aconteceu, em direção à avenida Mário de Andrade, que abriga a D-Edge.

Eles protestavam a participação de Ratier na chamada Anep, a Associação da Noite e Entretenimento Paulista, que chegou a realizar reuniões na presença do, na época, vice-prefeito Bruno Covas.

Quase dez anos depois, as festas independentes se retraem cada vez mais. Se não estão em clubes fechados, como Teia Klub e Fabrique, estão suspensas nas alturas no centro, em novas baladas como Ephigênia e Matiz. Festivais com um pouco mais de público, como Gop Tun e Batekoo, conseguem tomar espaços mais amplos como o Estádio do Canindé. Mas não sem alguns desafios —a edição do ano passado da Batekoo, por exemplo, foi cancelada por falta de patrocínio.

Neste ano, alguns eventos cuja curadoria puxa mais para o lado B da música eletrônica também sofreram com percalços políticos. A Boiler Room, que realizou um festival de três dias em São Paulo no ano passado, teve um evento cancelado em agosto após protestos on-line pró-Palestina.

Em 2022, a marca foi comprada pela produtora Superstruct Entertainment, que mais tarde foi vendida ao fundo de investimentos KKR, que financia empresas israelenses. No mesmo mês, a DGTL, outra festa no catálogo da Superstruct, também foi cancelada.

Enquanto isso, a música eletrônica comercial vai de vento em popa. Com eventos enormes e fechados no recém-reformado Vale do Anhangabaú, festivais com line-ups que se repetem ano após ano e produtoras bem estabelecidas, como a Boma, o público que curte a linha mais pop do techno e house conta com um ecossistema redondo.

Nem mesmo questões políticas atrapalham —com um palco inteiramente dedicado ao psytrance, gênero fortemente ligado a Israel, o Tomorrowland Brasil trouxe vários DJs do país para tocarem na edição de 2025. Ao contrário do que houve com as empresas envolvidas com a KKR, não houve protestos.

Neste contexto de distanciamento entre underground e mainstream da música eletrônica, ganhou força nas redes sociais brasileiras o discurso importado de que a geração Z estaria cansada de festas, e que as baladas estariam fechando. Os posts, baseados em estudos americanos e europeus, garantem que as novas gerações têm tendência a dar passeios vespertinos, diminuíram o consumo de álcool e abandonaram a vida noturna.

É questionável se essa teoria se aplica à realidade brasileira e paulistana. Bailes funk como o Baile do Helipa, o Baile da Marcone e o baile fechado Casarão seguem realizando eventos gigantes nas periferias de São Paulo —mesmo sofrendo com repressão policial e sendo alvo da CPI dos Pancadões.

No centro, a sensação Rom Santana encheu as ruas do Bexiga e Barra Funda a ponto de parar o trânsito com suas apresentações cativantes, que lhe renderam até um espaço no line-up do Batekoo Festival e uma turnê no Rio de Janeiro.

Outro queridinho do público paulistano é o Zig, clube de Rafa Maia que se mantém como um dos únicos espaços noturnos da cidade a apresentar uma identidade sonora consistente. Com três unidades, duas no centro e uma na Barra Funda, e um festival próprio, a balada de público LGBTQIA+ sustenta sua própria cena e ficou à frente da curva do pop esse ano, trazendo nomes ainda não tão conhecidos como as britânicas Bree Runway e Rose Gray e a argentina Six Sex.

O underground eletrônico paulistano também cria fenômenos, como a DJ paranaense Clementaum e o duo de funk Irmãs de Pau, que recentemente ampliaram a exposição de seus sons para o mainstream, gravando uma faixa com o carioca Pedro Sampaio. Os DJs Adame e Caio Prince apareceram no disco de remixes da britânica PinkPantheress, novo nome de destaque no pop global.

Seja no circuito underground ou mainstream, São Paulo se estabelece cada vez mais como parada obrigatória para DJs do mundo todo. Todos os DJs do tradicional top 10 da revista inglesa DJ Mag —que inclui o brasileiro Alok— passaram pela cidade neste ano. Ecos de tendências mundiais, como o eletrônico latino e o dancehall, também refletem em line-ups na capital paulista. A última Mamba Negra do ano, no sábado (20), teve o venezuelano Wost como headliner.

Abrindo seu set às 5h, já com o dia amanhecido graças ao solstício de verão, o artista tocou “Un Verano en Nueva York” do grupo El Gran Combo de Puerto Rico, faixa cujo sample introduz “Nuevayol”, do também porto-riquenho Bad Bunny. Ecoando o artista mais ouvido do ano, o DJ deixou claro como as pistas paulistanas se conectam com o pop global, seja como inspiração ou reflexo.

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