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Notícias mal dadas jogam mulheres no cantinho do prejuízo – 07/03/2026 – Alexandra Moraes – Ombudsman

“Meninas à frente” era o lema e a ordem de Kathleen Hanna, vocalista da banda Bikini Kill, que nos anos 1990 deixou sua marca barulhenta no punk e no feminismo. Seu “girls to the front” era um jeito de garantir que meninas e mulheres pudessem ficar perto do palco nos shows. Sem a intervenção, o espaço acabava dominado pelos homens —pois é.

Diante de um noticiário protagonizado por homens, vai ser preciso um “meninas à frente” ao menos neste Dia da Mulher, mais um que chega entre estatísticas ruins e palavrório esquisito.

Uma combinação dessas foi vista numa pequena nota da Folha, discreta o bastante para não ter despertado muita indignação –e, é preciso reconhecer, mudada com agilidade, ainda que sem nenhum aviso.

Título e texto sustentavam que os “sintomas da menopausa” estariam jogando no ralo R$ 2 bilhões por ano da “economia brasileira”. O material ficou cerca de duas horas no ar, até que passou por um “extreme makeover” e virou “Estudo sugere estratégia combinada entre SUS e empresas para abordar o climatério”.

“Como leitora da Folha há tantos anos, não consigo entender a publicação da notícia ‘Sintomas da menopausa causam perda de R$ 2 bi por ano à economia brasileira’. Serve apenas para reforçar a tese antiquada, machista e patriarcal de que a biologia feminina é um passivo econômico. Tento imaginar se veríamos uma chamada como ‘Andropausa causa prejuízo bilionário ao país’ ou ‘Doenças masculinas pesam no PIB’. Quando o tema é masculino, a narrativa é macro e estrutural. Quando é feminino, recai sobre o corpo”, escreveu uma leitora. “A economia não perde por causa da menopausa. Perde por ignorá-la e não cuidar das mulheres.”

A menopausa, afinal de contas, é um sinal de que a mulher não morreu nem foi morta antes de alcançá-la. Além da desumanização, o texto original tinha outros problemas jornalísticos. No título, não havia atribuição de fonte nem um “diz estudo”, e o prejuízo era enunciado como certeza.

Mais grave era o fato de não haver explicação sobre os R$ 2 bilhões (que apenas sumiram depois da mudança no texto). Faltavam dados também sobre quanta riqueza gera o trabalho das mulheres na menopausa ou a caminho dela. Riqueza do trabalho remunerado, é claro, porque o não remunerado, aquele que tende a se estender até o caixão, é a mão invisível que balança o berço da economia.

Questionada se o jornal não deveria ter indicado aos leitores a mudança e os motivos dela num Erramos, a Secretaria de Redação disse que “a divulgação menciona esse valor [R$ 2 bilhões] e ele foi atribuído à pesquisa”. “Não vimos problema metodológico. Ainda não tivemos acesso à metodologia, que será divulgada na segunda.”

Outra discussão feita aos pedaços é a da licença-paternidade. Esta é capaz de operar milagres como unir rivais políticos e transformar a questão fiscal em prioridade do governo, mas costuma receber atenção e espaço menores do que merece.

Na cobertura, predomina a visão simplista do impacto do aumento da licença. Caberia ao jornal rechecar contas e procurar dados mais sofisticados, mas esse trabalho fica restrito a algumas colunas. E não são quaisquer colunas, mas as de economistas mulheres: Laura Müller Machado, Lorena Hakak, Deborah Bizarria, Priscilla Bacalhau, Cecilia Machado.

Foi um texto de Cecilia Machado, aliás, que explicou a distorção do debate fiscal, ainda em novembro. “A contradição é que seu [da licença-paternidade] alto custo evidencia justamente um desequilíbrio que a medida tenta corrigir. No Brasil, homens ganham mais que mulheres —cerca de 25% a mais— e têm maior participação no mercado de trabalho: 73% ante 53%.” Ela também notava que, “por mais que a preocupação com os impactos fiscais da medida seja meritória, essa excepcionalidade revela a posição periférica do cuidado paterno na hierarquia das prioridades públicas, já que muitos outros gastos não passam por esse crivo”.

Em outra frente, uma coluna de Laura Machado informou que 70% dos estudos sobre licença-paternidade são feitos por mulheres. Enquanto isso, as principais fontes ouvidas pelo jornal costumam ser masculinas (há uma estimativa de que esse número fique entre 70% e 80%, mesmo com esforços internos de aumentar a diversidade e de haver mulheres em vários postos de chefia no jornal. O desafio é mais amplo.)

Soubemos pela coluna também que, segundo um estudo do Insper, a paternidade presente gera impacto equivalente ao programa Pé-de-Meia, que entrou de sola no fiscal com custo anual de R$ 12 bilhões. Já a estimativa para a licença-paternidade é de “R$ 3,3 bilhões em 2027, quando a licença passaria a ser de dez dias”.

A entidade “as mulheres” vira assunto sobretudo quando a questão é violência. Com as notícias escabrosas de feminicídios e estupros, os jornais constroem uma espécie de caleidoscópio dos extremos da experiência feminina.

Mas falta olhar mais para o meio, que é onde se trilha o caminho rumo a esse horror mais chamativo. É ali que está a indolência diante da socialização violenta dos meninos (e dos homens), cuja novidade foi ter ganhado tração com celular e redes sociais. Também fica por lá a violência mais discreta, mas bastante presente, da sobrecarga e do estrangulamento financeiro num sistema desenhado para penalizar mulheres, sobretudo negras e mães.

A constatação beauvoiriana de 1949 continua valendo no noticiário de 2026: a mulher não chega nem a ser “o outro”, é só uma dentre tantas coisas que não são o homem.

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Autor: Folha

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