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Nova geração de ricos pode impulsionar filantropia no país – 14/12/2025 – Rede Social

A expectativa de uma das maiores transferências de riqueza da história aquece o campo de gestão de grandes fortunas no Brasil e no mundo.

Estima-se que US$ 124 trilhões mudarão de mãos até 2048, entre herdeiros, viúvas e filantropia, de acordo com relatório da consultoria Cerulli Associates, sobre o mercado de alto e ultra-alto patrimônio nos EUA.

Na América Latina, tendo o Brasil como protagonista, o movimento deve somar em torno de US$ 9 trilhões nas próximas décadas.

São cenários e grandes números reunidos na pesquisa “Filantropia & Family Offices: Perspectivas e Oportunidades”, realizada por Juliana de Paula e Cássio Aoqui, consultores sêniores no campo filantrópico.

O estudo traça o panorama mais abrangente já feito no país sobre o papel dos Single Family Offices (SFOs), estruturas que atendem exclusivamente uma única família, e Multi Family Offices (MFOs), que agregam diversas famílias, na filantropia brasileira.

A pesquisa inédita ouviu 83 respondentes de 70 family offices, além de representantes de 23 famílias de alta renda, em um total de 106 entrevistas quantitativas e qualitativas que mostram mulheres e novas gerações assumindo protagonismo nas decisões sobre investimento social e legado.

“A gente vê no Brasil um número muito grande de family offices sendo criados, quando sabemos que haverá nos próximos anos a maior transferência de riqueza e patrimônio da história”, diz Aoqui. “Essa redistribuição traz a necessidade de planejamento patrimonial mais sofisticado.”

Dados de 2023 da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), entidade que representa bancos, gestoras e corretoras, mostram que o número de estruturas formais de family office cresceu 82,5% em três anos, passando de 80 para 146, com R$ 457 bilhões sob gestão.

Entre os Single Family Offices pesquisados, 85% da clientela detém mais de R$ 1 bilhão em patrimônio. Já entre os multi, 6% das famílias estão nesse patamar patrimonial, enquanto 11% se encontram na faixa de R$ 500 milhões a R$ 1 bilhão em patrimônio.

Quanto aos valores doados, observa-se amplitude de faixas, com destaque para famílias que destinam entre R$ 1 milhão e R$ 5 milhões anuais (30%) e aquelas acima de R$ 10 milhões (25%).

A maioria das famílias de altíssima renda entrevistadas (71%) já estruturou sua atuação filantrópica por meio de fundações, institutos ou endowments próprios, o que indica nível relevante de formalização.

“Apesar de ser um tema debatido, falta colocar mais estratégia na filantropia”, diz Juliana de Paula, membro da P150, rede global de advisors em filantropia. “Os family offices podem potencializar um maior impacto socioambiental pelo público de alta renda que atendem.”

Entre os entrevistados de famílias de alta renda, 67% lideram a filantropia familiar, como Teresa Bracher, filantropa e ambientalista, casada com o ex-banqueiro Cândido Bracher.

“A gente tem compromisso com o Brasil: melhorar o país para ser mais justo, com oportunidades para todos”, diz Teresa, em depoimento destacado na pesquisa..

Entre os Single Family Offices, 52% tratam a filantropia de forma estruturada, com 63% dos clientes detentores de instituto ou fundação próprios, indicadores de uma maior maturidade institucional.

Enquanto, nos Multi Family Offices, a presença do tema é mais difusa e reativa: 47% abordam a filantropia somente quando o cliente traz o assunto e 31% ainda não se envolveram com a pauta, em um contexto complexo no qual 70% atendem a mais de 31 famílias.

Durante o evento de apresentação da pesquisa, Luiza Nascimento, diretora-presidente do Ice (Instituto de Cidadania Empresarial) e neta de Sebastião Camargo, fundador do Grupo Camargo Corrêa, destacou a importância de dados concretos para iniciar uma conversa com os gestores de family offices.

“Temos um caminho longo a percorrer e pesquisas como essas vão nos ajudar a vencer barreiras e superar aquela visão de que family office é só para fazer investimentos e preservar patrimônio da família”, afirmou.

“A filantropia é uma ferramenta que pode trazer mais união familiar, pensando em legado e na marca que se quer deixar no mundo. Não adianta só pensar em todo dinheiro que se pode herdar, mas o que vamos fazer com ele.”

Entre os gestores de Multi Family Offices entrevistados, 47% apontam a nova geração e 25% as mulheres como principais impulsionadoras da pauta da filantropia.

“O protagonismo na agenda filantrópica migrou das lideranças fundadoras para novas vozes familiares”, diz Juliana de Paula. “Sinal de uma mudança cultural e de valores. A filantropia aproxima e humaniza relações. Ela pode ter esse papel como um elo intergeracional.”

Mariana Feffer, 36, filha caçula do controlador da Suzano, David Feffer, fez parte do conselho consultivo da pesquisa, trazendo seu olhar como representante dessa nova geração e fundadora do Regeneration Group, criado para trabalhar com famílias de alta renda no campo de impacto em todos os continentes.

“É o momento de destravar capital filantrópico”, diz ela. “Minha crença é a de que nesse momento do mundo precisamos aumentar o volume de capital para garantir o futuro do planeta, tendo famílias detentoras de alto patrimônio como financiadoras.”

Ela atua nessa perspectiva há oito anos, ao criar a Generation Pledge, uma comunidade que reúne 93 herdeiros de 24 países, que já se comprometeu a mobilizar US$ 840 milhões em doações.

“As novas gerações têm apetite por relevância e resultados, não se guiam por paixões, mas por aquilo que funciona”, diz ela, sobre escolhas que qualifica de agnósticas, na base do “show me the impact” (mostre-me o impacto, em tradução livre).

Entram em cena dois fatores, mensuração de impacto e conhecimento sobre filantropia. “Profissionais de family offices não sabem fazer impacto. É preciso calçar as sandálias da humildade e buscar formação e conhecimento”, avalia Feffer.

Para Beatriz Johannpeter, herdeira da família Gerdau, o grande gap hoje está no mercado de capitais identificar e estruturar produtos financeiros de impacto. “Ainda falta interesse em equilibrar de forma consciente risco, retorno e impacto. É justamente aí que podemos e devemos colocar energia e recursos filantrópicos para destravar esse movimento.”

Segundo o UBS Global Family Office Report 2024 , entre 40% e 45% de 320 single family offices em 30 países, que somam cerca de US$ 600 bilhões em ativos, já incorporam critérios de sustentabilidade ou investimento de impacto em seus portfólios.

Na avaliação de Cássio França, secretário-executivo do Gife (Gurpo de Instituto, Fundações e Empresas), a pesquisa revela o enorme potencial que as famílias de alta renda têm para agregar recursos privados para projetos de interesse público.

Segundo o censo da filantropia 2024-2025, divulgado pelo Gife neste mês, o investimento social privado chegou a R$ 5,8 bilhões em 2024, um crescimento sustentável, mas ainda longe do recorde da pandemia.

“A redução das desigualdades no Brasil também passa pelo engajamento e corresponsabilização dessas famílias”, diz França. “É possível criar arranjos que estimulem mais a doação, agreguem a ideia de impacto social nos legados familiares e criem relações de confiança entre famílias de alta renda, organizações da sociedade civil e as políticas públicas.”

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