A eletricidade não foi apenas uma invenção. Ela mudou o horário das cidades. O rádio não foi só um aparelho doméstico. Ele mudou a forma como as pessoas se informavam. A internet não foi apenas uma tecnologia. Ela mudou como trabalhamos, compramos e nos relacionamos.
Grandes transformações econômicas quase nunca são apenas tecnológicas. Elas alteram hábitos, reorganizam profissões e, silenciosamente, mudam a maneira como as pessoas planejam a própria vida.
A inteligência artificial parece caminhar nessa direção. Não se trata apenas de saber quais tarefas serão automatizadas. O ponto relevante é outro: quando uma tecnologia altera a estrutura da economia, ela também altera a previsibilidade da renda.
A discussão pública tenta descobrir quais profissões desaparecerão. Para a vida financeira, porém, a pergunta mais importante é diferente: por quanto tempo será possível contar com uma renda relativamente estável ao longo da vida?
O estudo “The Macroeconomic Consequences of AI”, publicado em fevereiro de 2026 pela Moody’s Analytics e assinado pelos economistas Mark Zandi, Cristian deRitis, Marisa DiNatale, Dante DeAntonio, Matt Colyar, Shandor Whitcher, Justin Begley, Ilir Hysa e Gwen Semmens, conclui que a inteligência artificial pode se tornar uma das forças econômicas mais relevantes de gerações, mas com consequências ainda incertas —indo de expansão significativa até recessão associada a mudanças no emprego ou a excessos financeiros. Não é apenas uma inovação tecnológica; é um período de transição econômica e de comportamento.
Essas mudanças já começaram a aparecer fora dos estudos acadêmicos. A empresa americana Block, companhia de tecnologia financeira fundada por Jack Dorsey —também conhecido por ter criado o Twitter— e responsável por plataformas de pagamentos como Square e Cash App, anunciou recentemente a demissão de cerca de 4.000 funcionários, aproximadamente 40% de sua força de trabalho.
A justificativa antecipa o que está por vir: equipes menores apoiadas por ferramentas de inteligência artificial conseguem operar a empresa com mais eficiência.
Mesmo no cenário considerado mais provável pelos economistas, a produtividade aumenta enquanto o mercado de trabalho se reorganiza gradualmente. O impacto mais relevante pode não ser o desemprego permanente, mas algo mais silencioso: rendas menos previsíveis ao longo da vida.
Por muito tempo, a vida financeira partiu de uma suposição implícita. A renda cresceria de forma relativamente contínua, o patrimônio seria construído aos poucos e a aposentadoria apareceria apenas como a etapa final da vida econômica.
A inteligência artificial altera esse equilíbrio de forma discreta. Se a renda passa a oscilar mais ao longo dos anos, o patrimônio muda de função. Ele deixa de ser apenas um objetivo distante e passa a atuar como estabilidade durante o percurso.
Ter um patrimônio financeiro deixa de ser apenas proteção para a velhice e passa a funcionar como apoio durante a própria vida ativa, nos períodos em que a renda do trabalho pode falhar.
Novas tecnologias raramente eliminam o trabalho humano de forma imediata. Mas costumam alterar a segurança com que contamos com a renda gerada por ele.
Talvez a inteligência artificial não substitua pessoas. Mas pode substituir algo a que nos acostumamos sem perceber: a expectativa de uma renda contínua por décadas. E, quando essa expectativa muda, planejamento financeiro deixa de ser uma preparação distante para o futuro. Passa a ser uma forma de atravessar o presente.
Michael Viriato é assessor de investimentos e sócio fundador da Casa do Investidor.
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Autor: Folha








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