Enquanto mísseis iranianos cruzavam o estreito de Ormuz no domingo (8), praticamente paralisando o tráfego em uma das rotas comerciais mais vitais do mundo, um bilionário grego conduzia seus navios diretamente para o meio da turbulência.
A Dynacom Tankers, de propriedade de George Prokopiou, de 79 anos, enviou pelo menos cinco petroleiros através do estreito canal na entrada do golfo Pérsico desde o início da guerra com o Irã no sábado (28), tornando-se uma das poucas operadoras legais dispostas a enfrentar a travessia.
“A maioria dos armadores suspendeu as travessias, até que as coisas se acalmem”, disse um corretor de navios. “Mas há alguns aventureiros dispostos a correr o risco.”
Há grandes recompensas em jogo. As taxas de frete para petroleiros que saem do Golfo mais que dobraram desde sexta-feira (6), atingindo recordes históricos. Um único navio petroleiro de grande porte (VLCC) fazendo a perigosa travessia do estreito até a China renderia cerca de US$ 500 mil (R$ 2,6 milhões) por dia, excluindo o custo do seguro adicional contra riscos de guerra , de acordo com a agência Argus.
Embora os riscos para os proprietários sejam limitados ao dinheiro e aos navios-tanque, os marinheiros a bordo estão arriscando suas vidas. O Irã ameaçou incendiar qualquer navio que tentasse a passagem, tendo atingido pelo menos nove desde o início do conflito, com pelo menos três marinheiros mortos.
Todas as embarcações da Dynacom desligaram seus transponders, dispositivos que transmitem automaticamente a localização e a identidade de uma embarcação, para sua passagem pelo estreito.
Dados de rastreamento de navios mostram que o petroleiro Athina, da Dynacom, que estava na região antes dos ataques, parou de transmitir no início da noite de sábado, a sudeste do canal, antes de reaparecer na tarde seguinte no Golfo. A embarcação, sem carga, chegou ao porto de Sitrah, no Bahrein, na segunda-feira (2) e partiu dois dias depois com um carregamento de petróleo.
‘MODESTO E VICIADO EM TRABALHO’
Nascido em uma família rica de Atenas em 1946, Prokopiou pertence à última geração de armadores gregos que há muito dominam o comércio marítimo. Descrito por uma pessoa próxima como “modesto” e “viciado em trabalho”, ele raramente é visto sem seu característico boné de beisebol e dirige um velho SUV Mercedes, andando por aí sem segurança, uma raridade entre a elite naval da Grécia.
Prokopiou passa a maior parte do ano em seu megaiate, o Dream, de 106,5 metros, atualmente atracado na Riviera Ateniense, e seu extenso portfólio imobiliário lhe rendeu o apelido de “rei do mercado imobiliário” em seu país natal. No ano passado, ele adquiriu uma participação no Four Seasons Astir Palace —a única propriedade grega do grupo hoteleiro de luxo— juntamente com a marina adjacente de Vouliagmeni, que atende principalmente a megaiates.
Após comprar seu primeiro navio aos vinte e poucos anos, Prokopiou construiu uma enorme frota ao redor do mundo —juntamente com uma reputação de assumir riscos. As três empresas de navegação do magnata grego têm mais de 150 embarcações em operação, com cerca de 85 outras em construção, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto.
“Ele é uma lenda do setor e uma daquelas pessoas que fazem o que chamamos de negócios ‘premium'”, disse um corretor naval que trabalhou com as empresas de Prokopiou nos últimos anos, usando um eufemismo para transações legais, mas que acarretam riscos muito maiores.
A Dynacom Tankers transportou dezenas de milhões de barris de petróleo bruto russo no último ano e é uma das maiores transportadoras dessa carga desde que Moscou lançou seu ataque à Ucrânia no início de 2022, de acordo com uma análise do Financial Times com base em dados da Kpler e registros de propriedade de navios.
O bilionário causou polêmica em 2022 quando, meses após o início da guerra, afirmou que “as sanções nunca funcionaram”, embora não haja qualquer indício de que ele as tenha violado.
A Agência Nacional de Prevenção da Corrupção da Ucrânia incluiu a Dynacom Tankers em sua lista de “patrocinadores internacionais da guerra” por seu papel no transporte de petróleo bruto russo, acusando-a de “reabastecer o orçamento do país agressor e financiar a invasão russa”. No entanto, em 2023, a Dynacom foi retirada da lista e, em 2024, a lista foi completamente removida, após pressão de seus parceiros estrangeiros.
Segundo o corretor de navios, Prokopiou sempre agiu dentro da lei e cumpriu os tetos de preços e outras restrições ao comércio de petróleo bruto russo. Mas a disposição do bilionário em transportar cargas que outros não aceitariam era “onde ele obtinha a maior parte de sua margem de lucro”, acrescentou.
TRIPULANTES PEDEM BÔNUS E AUXÍLIO POR MORTE E INVALIDEZ
A Federação Internacional dos Trabalhadores em Transportes (ITF), que representa os tripulantes, determinou, desde segunda-feira (2), o pagamento de um “bônus” para aqueles que operam no estreito de Ormuz, com o objetivo de garantir a duplicação dos salários e dos auxílios por morte e invalidez. Os tripulantes também podem se recusar a navegar, com direito a “repatriação por conta da empresa e indenização equivalente a dois meses de salário-base”.
Prokopiou e a Dynacom Tankers não responderam ao pedido de comentário.
“Ele representa uma certa maneira de fazer negócios”, disse Ed Finley-Richardson, investidor no setor de transporte marítimo e fundador da Contango Research. “Ele faz parte de um grupo de cinco a dez armadores que realmente ofuscam todos os outros, não pelo tamanho de sua frota, mas também porque estão dispostos a agir com ousadia.”
Prokopiou tem a reputação de honrar seus contratos quando outros descumprem, mas enviar seus navios pelo estreito enquanto o fogo real continuava em ambos os lados representou uma oportunidade histórica para o bilionário grego, disse Finley-Richardson.
Ele observou que o risco de entrar no golfo com um navio vazio era menor e, uma vez lá, “você está em posição de negociar o preço justo pelo perigo claro e iminente para sua embarcação, a tripulação e tudo o mais”.
“É durante esses períodos que os armadores verdadeiramente de elite tendem a se destacar”, acrescentou, citando a disposição do magnata grego Aristóteles Onassis em arriscar ataques de submarinos alemães na Segunda Guerra Mundial e a decisão do magnata norueguês John Fredriksen de comprar contratos para transporte de petróleo por navio-tanque durante a Guerra do Yom Kippur em 1973.
Resumindo sua abordagem em 2014, Prokopiou disse: “Se você não gosta de correr riscos, não está no setor de transporte marítimo. Se você não quer correr riscos, compre títulos do Tesouro americano.”
Autor: Folha








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