Quando os mineiros ingleses desciam aos túneis de carvão no século 19, levavam consigo um pequeno companheiro: um canário. O frágil pássaro servia como sentinela da vida. Se parasse de cantar, era sinal de que gases tóxicos, invisíveis e letais, haviam tomado o ar. Bastava o silêncio do canário para que todos corressem em busca da superfície.
No mercado financeiro, alguns ativos cumprem função semelhante: são os primeiros a reagir quando o oxigênio da liquidez global começa a rarear. Entre eles, o bitcoin talvez seja o mais sensível, refletindo quase instantaneamente as mudanças de humor dos investidores.
Desde 2023, os ativos de risco no mundo passaram por uma expressiva valorização. O movimento começou nas ações americanas, impulsionadas pela liquidez abundante e pela expectativa de cortes de juros. O entusiasmo se espalhou pelos mercados emergentes, num ciclo de otimismo que superou as projeções mais cautelosas. Afinal, quem apostaria, ao fim de 2024, que a Bolsa brasileira estaria acima de 150 mil pontos e o dólar abaixo de R$ 5,50?
Mas 2025 vem mostrando alguns sinais de cansaço ou saturação. Pelo terceiro ano consecutivo, as Bolsas americanas sobem em ritmo mais lento, e os múltiplos das empresas já não encontram sustentação tão evidente nos lucros.
Os ventos que antes impulsionavam os preços agora sopram com menos força, sugerindo que parte da valorização recente foi mais fruto da liquidez do que dos fundamentos. Muitos investidores entram por último seguindo o FOMO, em inglês, medo de ficar de fora. Nesse momento, alguns começam a se questionar se os preços pagos por ações ligadas à inteligência artificial não estariam em tom de euforia.
Como lembrou Montaigne, “nada é tão firme que não possa ser abalado”. Mas para entender o abalor, o “canário” seria o preditor. E poucos exemplos ilustram melhor essa ideia de “canário da mina” do que as criptomoedas. Por não terem fluxo de caixa nem fundamentos econômicos tradicionais, seu valor depende quase inteiramente da confiança dos investidores. Quando ela se dissipa, são as primeiras a sentir o ar rarefeito.
Nos últimos 30 dias, o bitcoin, principal representante desse universo, acumulou queda superior a 18%. No ano, após a correção desta quarta-feira, a valorização mal passa de 6% —um desempenho tímido para um ativo que prometia muito mais no início de 2025.
Não se trata de negar o potencial tecnológico ou o papel inovador das criptomoedas, mas de reconhecer sua extrema sensibilidade ao ambiente de liquidez. Quando o dinheiro fácil se torna escasso, a realidade volta a se impor com força.
Talvez o bitcoin esteja hoje cumprindo o papel do canário da mina. Seu enfraquecimento não garante uma explosão à frente, mas serve como alerta: o ar dos mercados pode estar ficando mais rarefeito. O canto mais fraco do bitcoin pode estar anunciando não apenas o fim de uma euforia dos mercados de risco, mas o início de um novo ciclo de reprecificação do risco.
Michael Viriato é assessor de investimentos e sócio fundador da Casa do Investidor.
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