
No mais recente State of the Union, o presidente Donald Trump fez algo que a retórica protocolar de Washington raramente permite: transformar um rito constitucional num show de achincalhe contra os adversários políticos, naquela modalidade de humor que os americanos chamam de “roasting” (assar), na qual o alvo termina moralmente “assado”. Diante do Congresso dos Estados Unidos, o presidente lançou uma pergunta simples, quase primária: quem, ali, acreditava que o governo americano deve priorizar cidadãos americanos em vez de imigrantes ilegais?
Republicanos se levantaram. Democratas permaneceram sentados.
Brutal! Os democratas foram assados impiedosamente. Ali, na armadilha de Trump, não se tratava mais de tecnicalidade legislativa nem de disputa semântica sobre políticas públicas. Tratava-se da definição elementar de comunidade política. Um Estado existe primordialmente para quem? Para seus cidadãos – aqueles vinculados por laços jurídicos e deveres recíprocos – ou para qualquer indivíduo que consiga atravessar sua fronteira, independentemente da lei?
Trump, com instinto teatral apurado, condensou décadas de conflito ideológico num único gesto corporal. Ao forçar a escolha visível, expôs a fratura que atravessa a política americana contemporânea já há alguns anos: soberania versus abstração globalista; cidadania como categoria jurídica versus cidadania como mera formalidade dispensável.
Trump não tratou a imigração ilegal como simples problema administrativo, mas como vetor de transformação estrutural
O presidente não tratou a imigração ilegal como simples problema administrativo, mas como vetor de transformação estrutural. Fronteiras porosas pressionam salários da classe trabalhadora, tensionam sistemas de saúde e educação, e alteram rapidamente o perfil demográfico do eleitorado. Em vez de alarmismo xenófobo, como quer crer a imprensa antitrumpista, o que temos aí é aritmética política simples. Mudanças demográficas massivas produzem, inevitavelmente, mudanças eleitorais e políticas. Em última instância, podem produzir, sem que as mudanças tenham sido legitimadas e aprovadas por meios democráticos, um país inteiramente novo.
É precisamente aqui que o silêncio democrata adquire significado histórico. Os extremistas de esquerda que, desde Barack Obama, tomaram de assalto o partido do Burrico, permaneceram sentados não por birra, mas por pura convicção.
Desde os anos 1990, com a ascensão de Bill Clinton, Hillary Clinton e, sobretudo, Barack Obama, o Partido Democrata foi progressivamente influenciado pelo método político de Saul Alinsky. E o autor de Rules for Radicals pregava uma cartilha simples e corrosiva: infiltrar-se nas estruturas existentes, desgastá-las por dentro e fazê-las colapsar sob o próprio peso – como um edifício cuja fachada permanece intacta enquanto a estrutura é lentamente consumida.
Entre as táticas alinskyanas mais importantes estava a expansão agressiva do eleitorado por meio da flexibilização de registros e da mobilização de contingentes tradicionalmente à margem do sistema. Não por acaso, Obama iniciou sua trajetória como advogado ligado à Association of Community Organizations for Reform Now (Acorn), organização envolvida em campanhas para afrouxar exigências eleitorais e posteriormente associada a escândalos de registros fraudulentos. A lógica era cristalina para revolucionários: se o sistema é visto como estruturalmente injusto – dominado pelos “possuidores” (the Haves), no vocabulário de Alinsky –, então subvertê-lo desde dentro torna-se ato de justiça histórica para com os “despossuídos” (the Have-nots).
Essa visão ajuda a compreender a resistência sistemática da esquerda americana a medidas de verificação rigorosa de registro eleitoral ou a políticas migratórias restritivas. Se a expansão do corpo eleitoral é percebida como instrumento legítimo de transformação social, qualquer tentativa de controle passa a ser denunciada como supressão de direitos.
A célebre frase de Obama – “se todo mundo votasse, isso mudaria completamente o mapa político” – não foi um comentário casual. Ela expressa uma convicção estratégica: a transformação demográfica e a ampliação máxima do eleitorado produzem rearranjos duradouros de poder. Iniciativas como a Motor Voter Law, associada a pensadores radicais como Richard Cloward e Frances Fox Piven, bem como propostas posteriores de registro automático universal e expansão maciça do voto antecipado, inscrevem-se nesse horizonte.
Ao formular a pergunta que ninguém mais ousava fazer de maneira tão direta, Trump expôs a nova secessão americana
À luz desse percurso, a recusa democrata em se levantar no State of the Union não soa acidental. Priorizar o cidadão implica reafirmar fronteiras físicas e jurídicas. Implica reconhecer que pertencimento não é categoria fluida, mas condição legal definida por normas claras. Para quem enxerga na expansão contínua do eleitorado uma ferramenta de consolidação política, essa afirmação representa obstáculo estratégico.
Trump explorou essa tensão com habilidade. Ao insistir na prioridade do nacional, ele tocou no ponto nevrálgico da mente progressista: a tensão entre universalismo moral e dever político concreto. Governos podem aspirar à compaixão universal; mas sua obrigação jurídica primária recai sobre aqueles que compõem formalmente a comunidade política. Quando essa hierarquia se dissolve, o Estado deixa de ser comunidade de destino e converte-se em agência administradora de fluxos humanos.
Críticos acusarão o discurso de simplificação excessiva. Mas a simplificação foi deliberada: reduzir a disputa a uma pergunta elementar, impossível de contornar com jargões burocráticos. Quem vem primeiro? O cidadão ou o imigrante ilegal? A hesitação – ou recusa – em responder afirmativamente à primeira opção foi, por si só, reveladora.
O State of the Union tornou-se, assim, mais do que uma prestação de contas anual. Foi um tomahawk retórico lançado contra aquilo que Trump descreve como o desmonte progressivo das bases civilizacionais americanas: soberania, legalidade e integridade eleitoral. Ao obrigar o plenário a escolher visivelmente, ele transformou um ritual institucional num plebiscito simbólico.
A imagem final permanece: metade do Congresso de pé, metade sentada. Entre esses dois gestos, delineou-se a batalha pela definição da própria democracia americana. De um lado, a nação como comunidade política concreta, com fronteiras e deveres definidos. De outro, a nação como plataforma aberta de transformação demográfica (e social) permanente. De um lado, o lema trumpista “Make America Great Again”; do outro, o sonho obamista de “fundamentally transform America”.
Pode-se até discordar do diagnóstico do presidente americano. O que não se pode negar é a clareza do enquadramento. Ao formular a pergunta que ninguém mais ousava fazer de maneira tão direta, ele expôs a nova secessão americana. E, ao fazê-lo, converteu o State of the Union num manifesto contra a erosão – lenta, mas constante – da ideia de que a cidadania significa algo.
Autor: Gazeta do Povo








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