Desde terça-feira (3), consumi uma quantidade grande de conteúdos sobre a demissão de Filipe Luís no Flamengo. De tão absurda que foi, zapeei entre diversos nichos procurando quem argumentasse a favor da decisão tomada pela diretoria do Flamengo. De jornalistas a influenciadores, passando por torcedores de outros clubes, não encontrei quem conseguisse justificar a interrupção de trabalho por um mês de mau futebol.
Serei breve no factual para entrar em algo mais abrangente: Filipe Luís não teve dez jogos de crédito depois de fazer o Flamengo vencer Campeonato Brasileiro e Libertadores da América em dezembro, além da boa partida contra o PSG na final do Mundial. Os dirigentes não levaram em consideração ser início de temporada, com suas oscilações físicas e de concentração, além da impossibilidade de contar com Jorginho, um dos pilares da equipe, na maioria dos jogos.
A decisão, pensando no macro, reflete muito o que é o futebol brasileiro e por que nossos treinadores são tão incompletos e praticamente não trabalham fora do país. O recado que o Flamengo passa é que não há tempo para adaptações, correções de rota ou mesmo para testar as habilidades de um técnico para superar uma crise. É preciso trazer o pão de cada dia, os três pontos, seja lá como for.
Só vale vencer, e isso gera um efeito negativo na qualidade do jogo. Sem tempo e sem paciência para desenvolver qualquer coisa dentro de campo, o mais natural é montar times primitivos, que defendem com tudo e atacam com o que dá. Temos a média de gols mais baixa em comparação com as principais ligas europeias. A maior média de faltas cometidas e o menor tempo de bola em jogo.
Você deve conhecer o padrão de uma partida ruim: times que dão chutão para a frente, atacantes que tentam a vida em excursões solitárias, buscando uma falta perto da área para virar cruzamento. Jogos que mais se parecem partidas de tênis, com bolas sem sentido de um lado para o outro. E depois que um time, quase aleatoriamente, marca um gol, se fecha inteiro e parte para a tática de enfeiar o jogo, cometer faltinhas para travar o adversário, o goleiro cai, sente dores viscerais aos 23 minutos do 1º tempo de um jogo da nona rodada do Brasileirão ou da quinta rodada de um campeonato estadual. Fim de jogo, 1 a 0, emprego mantido por mais uma semana.
Assim o Brasil formou uma geração de técnicos que já emergiu defasada. Obviamente alguém será campeão, porque tem que ser, e vai parecer que esse “estilo” funciona. Por isso, a chegada de técnicos estrangeiros modificou o cenário no país.Técnicos que não pensam no pão de cada dia, mas em plantar uma metodologia para colher bons resultados. E, se são demitidos, voltam para seus países e seguem suas vidas. O técnico brasileiro não pode se dar ao luxo de ir mal, porque ele não tem para onde voltar. O sistema obriga o treinador brasileiro a ser imediatista e primitivo em suas ideias de jogo.
Filipe Luís parece ser a melhor notícia vinda do banco de reservas em muito tempo. Qual foi a última vez que o Brasil teve um técnico promissor? Somos referência em exportar jogadores, mas por que a elite do futebol não se interessa pelos treinadores brasileiros e nossa forma de jogar?
O futebol brasileiro poderia ser bem melhor, mais bem jogado e com mais sentido. Para isso, o primeiro passo é que os trabalhos tenham início, meio e fim. Atitudes como a do Flamengo são um desserviço a todos.
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Autor: Folha




















