Saio do apartamento. Ainda no hall do prédio, o GPS já começa a funcionar: “Mais pra cá! Não, pra lá! Cuidado com a porta! Um pouquinho para a direita! Agora vai!”
Atravesso a porta de vidro aberta com apenas um leve esbarrão no ombro. Antes de me afastar, viro rapidamente e dou um tchauzinho: “Bom dia para o senhor também, seu João.”
O caminho até a saída do condomínio é formado por uma reta simples. Basta fazer com que a bengala toque em uma das muretas que delimitam o espaço até eu me aproximar da portaria. Até que o GPS volta a funcionar: “Para cá, Filipe! Esquerda. Não, direita. Volta mais um pouco. Para cá!”
O porteiro pega minha mão, coloca sobre o botão que o destranca. Aperto e ele comemora como se fosse final de Copa do Mundo. “Muito bem, Filipe! Está cada dia mais esperto!”. Sinto-me tão realizado como no dia em que marquei meu primeiro gol no colégio, de pênalti sem goleiro.
Orientações para eu me locomover no gogó não são privilégio da casa nova, na qual cheguei no início deste ano. Até o ano passado, bastava eu sair da estação Bresser – Mooca do metrô e já esperava meu amigo Cantê: “esquerda, esquerda. Direita, direita. Vai com Deus.”
Agradecia, mas a orientação era desnecessária. Eu sabia que era só descer a escada da estação, virar a esquerda e esperar a bengala bater no muro para ir seguindo ele.
É algo que pouca gente que enxerga sabe e, por isso, se desespera e começa a gritar para evitar que a gente bata a cabeça por aí. Para quem não enxerga, muros, paredes e meio-fio podem ser ótimos aliados na hora de nos locomovermos. Fica muito mais fácil andar em linha reta ao lado de algo que possamos seguir do que no espaço livre.
Outra coisa que a maioria não sabe é o que significa esquerda e direita. Se em situações fáceis muitos se confundem, pior quando a sua direita não é a minha direita. Se estou indo em sua direção e você precisa que eu vá para a sua direita para evitar que eu bata em um orelhão, você deve dizer esquerda. Pela complexidade da operação, trombei muito por aí com apoio de um GPS humano com este defeito de software.
Ficar gritando para ajudar pessoas cegas a se movimentar deveria ser recurso usado apenas para evitar acidente iminente.
Em geral, não funciona direito, porque é difícil saber se “direita” quer dizer “faça uma curva à direita” ou dê um passinho para seu lado direito”.
E, na maioria das vezes, é constrangedor. A gente já está chamando atenção o suficiente por andar na rua com uma bengala. Não é necessário transformar nossa ida à padaria para comprar pão em um espetáculo para toda a rua.
Se quer ajudar, pergunte em particular se a gente precisa. Se dissermos que queremos apoio, deixe a gente segurar no seu braço e ande ao lado. Vamos sentir seu movimento e seguir, com segurança e discrição.
Mas bom mesmo é quando o trajeto é acessível para nós andarmos por conta própria com tranquilidade. Sabe disso meu colega Flávio, que, ao notar uma trombada minha em uma mesa do escritório, silenciosamente criou um piso tátil simples e funcional com barbante e fita adesiva. Nada é tão bom quanto uma solução analógica de vez em quando.
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Autor: Folha








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