segunda-feira, fevereiro 9, 2026
19 C
Pinhais

O louco sem Deus e o louco de Deus – 07/02/2026 – Marcos Lisboa

O convite foi inusitado. Javier Cercas é escritor. Ele também é ateu. Como progressista espanhol nascido nos anos 1960, a sua rejeição à Igreja Católica ultrapassa muros.

A proposta veio de representantes da Editora do Vaticano.

Cercas aceitaria escrever um livro sobre uma viagem que o papa Francisco iria fazer à Mongólia?

Como assim? Convidar um ateu, crítico da igreja, para escrever um livro sobre uma viagem do papa?

Assim começa a história.

Cercas escreve com a discrição de um artesão delicado e sutil. Seu livro “Soldados de Salamina”, por exemplo, é de perturbar o dia. O texto segue como uma revoada de pássaros, em que não se percebe o vento que conduz o baile.

A história do convite inusitado do Vaticano é contada no livro “O Louco de Deus no Fim do Mundo”.

Bem-vindos a uma casa de espelhos. As imagens revelam reflexos inesperados.

A empatia de Cercas surpreende: os seus preconceitos estão claros desde o começo, os pontos de partida, firmes em rocha… e, no entanto, existe a abertura para ouvir o diferente.

A família e o entorno de Cercas eram imensamente católicos. A sua mãe dizia: “Eu amo muito vocês, mas amo mais seu pai”.

Cercas propõe um acordo. Ele queria perguntar ao papa se, ao morrer, a sua mãe irá reencontrar seu marido. O afeto de Cercas por sua mãe, o desejo de aconchegá-la, transpira no livro.

Diabolicamente, Cercas conta das refeições com jornalistas em restaurantes italianos. Elas duelam com os relatos das conversas com os cardeais e demais membros da Cúria do Vaticano.

Ele também conta de Jorge Bergoglio antes de se tornar papa Francisco, incluindo suas escolhas, ou omissões, na ditadura militar na Argentina. Cercas não suaviza a história. Compreender não é justificar, escreve.

No cristianismo que emerge do livro, a religião recupera os fracos. Assim ocorreu com Pedro, o apóstolo que rejeitou Jesus, mas foi o escolhido. Assim ocorreu com o papa Francisco.

O tema da vida depois da morte contagia o livro.

O ser humano, segundo alguns, criou Deus para lidar com o seu pavor da morte. A divindade não revela a imortalidade. A humanidade inventou a divindade para cuidar da dor da inevitabilidade do fim. A ousadia cristã de sugerir a ressurreição da carne entrelaça o livro.

Francisco, o santo e o papa, e seus missionários vão se imiscuindo no livro e dominam o enredo. Como ocorre com frequência nos livros de Cercas, a revelação é lenta e delicada, em meio a saborosas e surpreendentes conversas com padres e cardeais sobre temas delicados da doutrina e da fé.

Javier Cercas é dos escritores que permitem que a história invada o leitor, com a sutileza de uma bactéria. Você pode não perceber a entrada, mas ela invade e por vezes causa estrago.

O Louco de Deus é Francisco, o santo que inspirou o papa.

Como fazia Jorge Luis Borges, Cercas atribui os acontecimentos a autores inesperados. O azar, segundo ele, foi encontrar o livro “São Manuel Bueno, Mártir”, de Miguel de Unamuno.

Trata-se da história de um padre “que perde a sua fé e, ainda assim, continua a pregar a palavra de Deus a seus paroquianos, convencido de que, sem ela, eles não sobreviverão à dor da existência e à solidão do mundo”.

As conversas de Cercas com membros Cúria são surpreendentes. A facilidade com que tratam das crises da igreja, como pedofilia e corrupção. O mesmo ocorre com as regras existentes, mas que não são dogma, como o celibato dos padres. O acolhimento até dos ateus.

Curiosamente, os temas do Velho Testamento não aparecem nas conversas.

O catolicismo que emerge é seguir o exemplo de Jesus. Deus é o encontro com o afeto, acolhendo o outro. Empatia.

Não se trata, contudo, do que está escrito nos evangelhos. Jesus é cioso dos fiéis, autoritário em diversos momentos. Basta ler os relatos para que seus seguidores abandonem a família ou como tratou sua mãe, Maria.

Francisco de Assis, por sua vez, abraçava o sofrimento, incluindo as chagas, assim como a alegria. A versão que temos de Jesus está impregnada por Francisco.

Javier Cercas nos conta desse encontro inesperado com a Cúria escolhida pelo papa Francisco. Padres e cardeais falam dos problemas da igreja sem restrições.

O texto de Cercas é de entortar. Ele conta despercebido, às vezes com uma frase interminável, mas sem perder o leitor do laço.

Parte do fracasso da igreja, segundo os cardeais entrevistado por Cercas, foi se associar ao Estado, o que começou com o imperador Constantino. A outra parte foi construir a liturgia dos padres acima dos fiéis.

Ambos os temas ocorrem nos discursos do papa Francisco. Os padres devem estar no meio dos fiéis. Curiosamente, a Cúria de Francisco parece ser anticlerical.

No terço final do livro aparecem os missionários.

Não se trata de catequese. Eles tentam cuidar de quem precisa. Eles não educam, eles são educados. Aprendem a linguagem e os hábitos, entrando no cotidiano da comunidade para auxiliar os vulneráveis.

A Cúria de Francisco tem mais dúvidas do que muitos céticos. Alguns têm dúvida sobre a vida depois da morte.

O debate entre Javier Cercas e o cardeal Ravasi é saboroso. O escritor se revela um intelectual arrogante e prepotente. O cardeal é permeado pela incerteza.

Cercas transborda generosidade ao relatar os seus naufrágios em muitas conversas.

Papa Francisco é herdeiro da ruptura iniciada pelo Concílio Vaticano 2º e optou por seguir o Louco de Deus.

Jorge Bergoglio confessava seus pecados e frequentemente terminava as missas pedindo que rezassem por ele.

O livro destaca a continuidade do processo de transformação da igreja. Existem curvas, mas talvez poucos teólogos recentes tenham sintetizado o cristianismo como amor e empatia como Ratzinger, papa Bento 16.

Papa Francisco respondeu à pergunta de Cercas. A mãe ouve a resposta, mas a sua lucidez já se fora. O Alzheimer chegou mais cedo.

No retorno do velório, Cercas hesita atender o telefone. O número era desconhecido.

“Fiquei sabendo que sua mãe morreu.” Era Francisco, o papa. Ele disse que rezaria por ela.

Aparentemente, Javier Cercas continua ateu. Eu também.

Mas Jorge Bergoglio e seus missionários bagunçaram o coreto.

Autor: Folha

Destaques da Semana

António José Seguro, de esquerda, é eleito presidente de Portugal

António José Seguro, do Partido Socialista, foi eleito presidente...

Claude Opus 4.6 encontra mais de 500 falhas graves em bibliotecas de código aberto

Versão atualizada do modelo de IA mais poderoso da...

CNN Brasil | Notícias Ao Vivo do Brasil e do Mundo

O Rio Open contará com nomes consagrados do circuito...

Temas

António José Seguro, de esquerda, é eleito presidente de Portugal

António José Seguro, do Partido Socialista, foi eleito presidente...

CNN Brasil | Notícias Ao Vivo do Brasil e do Mundo

O Rio Open contará com nomes consagrados do circuito...

Mundial de Beach Tennis encerra arena Verão Maior de Caiobá com público recorde

As finais do campeonato internacional BT400 de Beach Tennis...

OABs intensificam pressão por código de ética para o STF

Representações estaduais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)...

Primeira-ministra do Japão se consolida com vitória histórica

A primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, obteve uma vitória...

Siga-nos

Conheça Nosso Guia de Compras

spot_img

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas