O declínio da República Romana começou no século 2 a.C., quando a escravidão em massa passou a operar como uma forma primitiva de automação. O imenso afluxo de cativos após as Guerras Púnicas permitiu à elite senatorial consolidar latifúndios de escala industrial, contra os quais o pequeno agricultor, pilar da vida cívica romana, não conseguia competir.
Economicamente esvaziado, mas politicamente decisivo, esse indivíduo empurrou o Estado a adotar a Cura Annonae, um regime de sustento sem trabalho que trouxe forte senso de inutilidade e corroeu a estabilidade institucional da República.
A dinâmica que destruiu a classe média romana parece ressurgir no horizonte da substituição do trabalho intelectual pela inteligência artificial, com aceleração prevista para meados da próxima década.
Caso essa tendência se confirme, milhões de profissionais podem ser expurgados do mercado de trabalho, abrindo espaço para uma nova categoria social: o obsoletariado, com potencial para fomentar uma era de populismo hiperpolarizado em torno de promessas de salvação.
Indicativos da sua presença surgem entre os NEETs, o contingente de crescimento acelerado que não estuda nem trabalha formalmente e que, ao chegar à vida adulta, tampouco forma família e novos círculos de amigos.
Essa combinação de desvinculação educacional, produtiva e sociorrelacional é um prenúncio do obsoletariado: indivíduos deslocados da economia ativa que se veem cada vez mais isolados e dependentes.
A carência será prática, mas também ideológica. Há quase 150 anos, discursos sobre a desigualdade apoiam-se na dicotomia entre capital e trabalho para afirmar que a fonte primária do mal-estar é a superexploração da força humana para a geração da riqueza alheia.
Em contraste, o obsoletariado decorre da perda de interesse empresarial pelo esforço humano como fator produtivo, colocando em xeque o arcabouço intelectual de onde tradicionalmente emerge a contestação do sistema econômico.
Vale notar que o único modelo político-econômico atualmente relevante sobre as transformações do universo digital é o tecnofeudalismo, que parte da ascendência das redes sociais e marketplaces alimentados por cliques não remunerados para sustentar que vivemos o ocaso do capitalismo. Ocorre que a tendência observada vai na direção oposta.
As plataformas investem somas bilionárias para eliminar a dependência dos cliques como fonte de informação, deslocando o centro de eficiência para sistemas autônomos de recomendação e venda fora dos antigos feudos digitais.
Enquanto Varoufakis afirma que essas empresas restauram a servidão, elas avançam para tornar essa forma de trabalho gratuito irrelevante, empurrando a teoria para o limiar da obsolescência.
Os intelectuais liberais tampouco estão livres de apuros diante de um cenário em que o consumo já não se sustenta pelos salários, a meritocracia se esvazia, o intervencionismo se espalha pelo Ocidente e a China emerge como a grande geradora de patentes tecnológicas.
Esses fatores indicam que o obsoletariado tende a criar vácuos ideológicos consonantes às suas necessidades práticas e afetivas. O desafio intelectual das democracias será absorver esses vácuos antes que eles as absorvam, como foi em Roma, sob a pressão do desespero.
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