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O papel da escolaridade e da demografia na renda do trabalho

​​​​​​​​​​​​​​Introdução

A evolução da massa de rendimentos do trabalho é um elemento fundamental para a dinâmica do consumo das famílias, para o bem-estar e para o crescimento econômico. Este estudo apresenta a contribuição da evolução demográfica e da escolaridade para a variação da massa real de rendimentos do trabalho desde 2012i

Complementarmente, analisa os efeitos sobre a massa de alterações na distribuição setorial da população ocupada ocorridas no período. Para tanto, o crescimento da massa de rendimentos do trabalho (M) é decomposto em três efeitos principaisii:

  • Efeito da variação da população ocupada com rendimento (EPO): para um dado rendimento médio do trabalho (R), a massa de rendimentos cresce quando o número de trabalhadores ocupados com rendimento aumenta;
  • Efeito direto do crescimento do rendimento médio dentro de cada grupo (EDR): o crescimento do rendimento médio do trabalho em nível agregado depende, em parte, do crescimento do rendimento médio em cada grupo;
  • ​Efeito composição da ocupação sobre o rendimento do trabalho (ECR): o crescimento do rendimento médio do trabalho em nível agregado pode ocorrer mesmo sem aumento do rendimento médio dentro de cada grupo. Quando a população ocupada de um grupo que tenha participação na massa de rendimentos do trabalho maior do que na população ocupada apresenta taxa de crescimento superior à da população ocupada total, o rendimento médio total aumenta.

O primeiro efeito corresponde à contribuição do crescimento da ocupação, e os dois últimos representam a contribuição do rendimento médio do trabalho
iii, conforme mostrado na equação (1).

Equação 1
​​​

Nela, o sobrescrito
i indica um grupo em que a população ocupada com rendimentos foi dividida; M é a massa de rendimentos do trabalho;
POr é a população ocupada com rendimentos;
R = M / POr é o rendimento médio do trabalho; αt(i) e ωt(i) representam, respectivamente, a participação do grupo
i na massa total de rendimentos e no total da população ocupada com rendimentos. A variação percentual da variável
Xt ∈ {
Yt,
POrt,
Rt } no trimestre
t em relação ao trimestre anterior é representada por Ẋt. Notar que a decomposição proposta não é exata: há um resíduo que abarca termos de segunda ordem.

Decomposição da evolução da massa de rendimentos com grupos escolaridade-idade

Entre o primeiro trimestre de 2012 e o segundo trimestre de 2025, a massa de rendimentos do trabalho cresceu 35,9% (média de 2,3% a.a.), com altas de 18,0% na população ocupada e de 15,2% no rendimento médio. A decomposição utilizando grupos escolaridade-idadeiv revela que o crescimento do rendimento médio no período ocorreu pela mudança na composição da população ocupada, já que o efeito da variação de rendimento médio intragrupo foi negativo: o ECR contribuiu com 26,8 p.p. e o EDR com -9,3 p.p. para a variação da massa.v

A trajetória do EDR ao longo do tempo revela uma queda acentuada durante a crise de 2015-2016, seguida por uma redução gradual até meados de 2020. A partir do quarto trimestre de 2020 — portanto, com algum atraso em relação ao início da pandemia de Covid —, o indicador registrou recuos expressivos por cerca de dois anos, vindo a apresentar um crescimento robusto desde então. Apesar dessa recuperação, foi apenas no quarto trimestre de 2024 que o EDR retornou aos níveis pré-pandemia, permanecendo, contudo, abaixo do patamar observado no início da série histórica (Gráfico 1). Esse recuo em relação ao início da série reflete quedas no rendimento médio nos grupos mais escolarizados (médio completo ou mais) e com maior idade, já que nos demais grupos as variações foram mais contidas (Gráfico 2).

O ECR tem dado contribuição positiva relevante para o crescimento da massa de rendimentos desde o início da série da PNAD Contínua, sem apresentar sinais de arrefecimento no período mais recente (Gráfico 1). Esse desempenho é explicado pelo expressivo avanço de pessoas com maior escolaridade entre os ocupados, e, em menor grau, pela queda de participação dos mais jovens na população ocupada, visto que o rendimento médio tende a ser mais elevado em grupos com maior escolaridade e, ao menos nos grupos com mais anos de estudo (médio completo ou mais), tende a avançar com a idade (Gráfico 2). Entre 2012.I e 2025.II, a proporção de ocupados com pelo menos o ensino médio completo subiu de 50,0% para 69,2%, enquanto a participação daqueles com educação superior, que possuem rendimento médio significativamente mais alto que o dos demais grupos, passou de 14,4% para 24,8% (Gráfico 3).

Embora o rendimento médio nos grupos de maior escolaridade tenha recuado no período analisado, os valores ainda se mantêm significativamente superiores àqueles observados entre os grupos com menor escolaridade. Nesse contexto, caso o processo de elevação do nível educacional da população ocupada se mantenha nos próximos anos, é esperado que o aumento da participação de indivíduos mais escolarizados continue exercendo papel relevante para a elevação do rendimento médio e, consequentemente, para a expansão da massa de rendimentos do trabalho.

Gráfico 1 – Decomposição da variação acumulada da massa de rendimentos do trabalho (grupos escolaridade-idade)

grafico 1  

Gráfico 2 – Rendimento médio do trabalho

grafico 2  

Gráfico 3 – Participação na PO com rendimento

grafico 3  

Por fim, desde o início de 2012, o EPO tem contribuído positivamente para o crescimento da massa de rendimentos, com exceção da crise de 2015-2016 e dos primeiros trimestres após a pandemia, quando o indicador recuou. Sua evolução, que reflete a variação da POr, está associada ao crescimento da população em idade de trabalhar (PIT) e às dinâmicas conjunturais e estruturais captadas pela taxa de desocupação (TD) e pela taxa de participação na força de trabalho (TP), conforme a equação (2).
vi

Equação 2  

Entre 2012.I e 2025.II, o crescimento da PIT foi o principal fator de expansão da população ocupada com rendimentos. No entanto, projeções demográficas indicam que seu ritmo de expansão deve desacelerar, reduzindo gradualmente sua contribuição para o crescimento da POr nos próximos anos. A taxa de desocupação, bastante sensível ao ciclo econômico, teve impacto negativo na crise de 2015-2016 e contribuição modesta na gradual recuperação econômica até a pandemia. Após queda inicial no período pandêmico, cresceu em ritmo acelerado, mas, nos trimestres mais recentes, com a TD já em patamar historicamente baixo, sua influência sobre a POr tem sido mais limitada. Por fim, a taxa de participação na força de trabalho apresentou comportamento bastante distinto antes e depois da pandemia. No período pré-pandêmico, sua contribuição foi modesta. Já no início da pandemia, a TP caiu abruptamente, impactando fortemente a ocupação. Nos trimestres seguintes, houve apenas recuperação parcial da TP, sem retorno aos níveis anteriores, o que tem limitado sua influência recente sobre a expansão da POr (Gráfico 4).vii

Gráfico 4 – Decomposição da variação acumulada da população ocupada com rendimento

grafico 4  

Decomposição da evolução da massa de rendimentos com abertura setorial

O exercício de decomposição da massa de rendimentos foi repetido com a população ocupada segmentada por setoresviii,​ com o objetivo de avaliar o impacto das mudanças na distribuição setorial da ocupação sobre a massa de rendimentos. Nesse recorte, a contribuição do ECR foi, em geral, modesta ao longo do período, exceto no início da pandemia, quando teve um efeito positivo sobre o crescimento da massa. Esse impacto foi praticamente revertido nos trimestres seguintes, mas desde meados de 2022 tem mostrado uma leve contribuição positiva, refletindo o aumento da participação da POr em setores com maior rendimento médio (Gráfico 5).

Gráfico 5 – Decomposição da variação acumulada da massa de rendimentos do trabalho (abertura setorial)

grafico 5  

Conclusão

A análise da evolução da massa de rendimentos do trabalho a partir de 2012 evidencia a importância das alterações ocorridas na composição da população ocupada para expansão dos rendimentos. O ECR, impulsionado principalmente pelo aumento da escolaridade da população ocupada, mostrou-se o principal motor do crescimento do rendimento médio, sobrepondo-se aos efeitos adversos observados no rendimento intragrupo (EDR). O EPO também teve contribuição relevante para ampliação da massa de rendimentos.

Prospectivamente, é esperado que o ECR continue a apresentar efeitos positivos, considerando que os adultos jovens que estão ingressando no mercado de trabalho possuem níveis de escolaridade substancialmente mais elevados do que aqueles das gerações mais velhas que estão se retirando da força de trabalho. Por outro lado, o EPO tende a ser menor nos próximos anos, diante das previsões de desaceleração no crescimento da população em idade de trabalhar, de limites para a continuidade do recuo da taxa de desocupação e da ausência de sinais de crescimento da participação na força de trabalho. Os resultados do estudo sugerem que esforços voltados à ampliação da escolaridade e ao aumento da participação na força de trabalho podem ter papel relevante para sustentar o crescimento da renda do trabalho nos próximos anos.

William Tales Leiria Campo é servidor do Departamento Econômico (Depec).

Notas

iForam utilizados dados trimestrais da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), disponíveis a partir do primeiro trimestre de 2012. A medida de rendimento considerada foi a habitual do trabalho principal, sempre deflacionada pelo IPCA, mesmo que isso não esteja explicitamente indicado ao longo do texto. Os dados agregados por grupo da população ocupada foram ajustados sazonalmente.

ii A abordagem adotada neste estudo é uma adaptação da metodologia apresentada no boxe “Análise setorial do PIB e da produtividade do trabalho” do Relatório de Inflação de dezembro de 2023, substituindo-se o valor adicionado bruto pela massa de rendimentos do trabalho e a produtividade do trabalho pelo rendimento médio do trabalho.

iii A soma do EDR e do ECR não é exatamente igual à variação da rendimento médio do trabalho em nível agregado.

iv Foram considerados quatro grupos de escolaridade e seis de idade, totalizando 24 aberturas escolaridade-idade. Escolaridade: 1) Até fundamental incompleto; 2) Fundamental completo ou médio incompleto; 3) Médio completo ou superior incompleto; 4) Superior completo. Idade: 1) 14 a 24 anos; 2) 25 a 34 anos; 3) 35 a 44 anos; 4) 45 a 54 anos; 5) 55 a 64 anos e 6) 65 anos ou mais.

v A equação (1) pode ser adaptada para fornecer as contribuições acumuladas de cada efeito em determinado período. Para mais detalhes, ver Apêndice 3 do boxe “Análise setorial do PIB e da produtividade do trabalho”.

vi Para manter consistência com a equação (1), na qual somente os ocupados com rendimentos são considerados, adotou-se uma definição modificada para a taxa de desocupação,
TD=(POsr+PD)/(POr+POsr+PD), em que
PD é a população desocupada, enquanto
POr e POsr são, respectivamente, a população ocupada com e sem rendimentos do trabalho. Assim como na equação (1), ωt(i) representa a participação do grupo
i na população ocupada com rendimentos.

vii O estudo “Taxa de participação na força de trabalho e benefícios sociais”, de Fábio José Ferreira da Silva e Leandro Siani Pires, publicado no blog do Banco Central, sugere que níveis mais baixos da taxa de participação na força de trabalho podem estar relacionados à expansão dos benefícios sociais. Essa associação negativa também aparece em “Transferências reduzem taxa de participação, mas efeito se concentra em mulheres e jovens” e “Expansão do Bolsa Família desencoraja participação no mercado de trabalho de vulneráveis”, ambos de Daniel Duque, publicados no blog do IBRE/FGV, bem como no estudo “The Role of Transfer Payments”, publicado no
IMF Country Report No. 25/194.

viii A população ocupada foi dividida em 34 setores: agropecuária; indústria extrativa; 13 setores da indústria de transformação; construção; serviços industriais de utilidade pública; e 17 setores de serviços.notas



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