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O que a Inteligência Artificial ensina sobre sermos mais humanos

Pense em como funciona a relação do ser humano com um cavalo. Ele é forte, veloz e, em muitos aspectos, imprevisível. O homem, por sua vez, aprende a observar seus sinais, compreender seus limites e estabelecer uma comunicação feita de gestos, confiança e paciência. Não há domínio absoluto, mas um acordo silencioso entre duas inteligências diferentes que precisam se adaptar uma à outra para alcançar harmonia. A verdadeira maestria nessa relação não está na força, mas na sensibilidade de quem sabe ouvir e responder ao outro.

Da mesma forma, a relação humana com a Inteligência Artificial exige escuta, cuidado e consciência. Não se trata de domar uma máquina, mas de aprender a dialogar com algo que pensa de maneira diferente – que não sente, mas interpreta. Assim como o cavalo amplia nossa força, a IA amplia nossa mente. Mas isso só acontece quando sabemos guiá-la com propósito, ética e sensibilidade.

Como todo espelho, a Inteligência Artificial também pode distorcer o que reflete. Quando os dados de treinamento carregam preconceitos ou representações desiguais da realidade, a máquina reproduz essas distorções de forma ampliada

E então surgem as questões: se a IA é apenas uma ferramenta que requer cautela, o que ela realmente nos ensina sobre humanidade? Como algo sem consciência pode nos levar a refletir sobre ética e responsabilidade? Talvez justamente porque seu uso nos coloca diante de nós mesmos, de nossas intenções, limites e consequências. É nesse espelho tecnológico que somos obrigados a pensar sobre o que nos torna, afinal, humanos.

Esse espelho tecnológico se revela ainda mais nítido quando observamos como a Inteligência Artificial é construída: cada modelo é treinado a partir de dados humanos. Apesar dos filtros, tudo o que está ali foi treinado com dados e nasceu de informações produzidas por nós. Como afirma João Cortese: “Treinar uma IA é, em última instância, treinar uma versão condensada da humanidade – seus textos, seus gestos, seus erros.” ( Inteligência Artificial reconduz o ser humano à antropologia filosófica, IHU Unisinos, 2023).

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Mas, como todo espelho, a Inteligência Artificial também pode distorcer o que reflete. Quando os dados de treinamento carregam preconceitos ou representações desiguais da realidade, a máquina reproduz essas distorções de forma ampliada. A University College London (UCL) descobriu que sistemas de IA tendem a absorver e amplificar nossos próprios vieses humanos, criando um ciclo de retroalimentação. Em um dos estudos, interagir com IA tendenciosa fez as pessoas subestimarem o desempenho de mulheres e superestimarem a probabilidade de homens brancos ocuparem cargos de status elevado.

Apesar dos riscos e distorções, há também reflexos luminosos nesse espelho. Em 2023, pesquisadores do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, desenvolveram um modelo de IA capaz de detectar precocemente sinais de câncer de pulmão em radiografias, reduzindo o tempo de diagnóstico em até 40%. O sistema não substitui o médico, mas o auxilia, permitindo que o profissional se concentre no que nenhuma máquina pode fazer: interpretar o sofrimento humano, acolher o paciente e decidir com sensibilidade. Esses avanços mostram que, quando usada com propósito ético, a Inteligência Artificial não nos desumaniza; ao contrário, nos lembra do poder que temos de unir precisão técnica e empatia para salvar vidas.

Cada avanço da IA nos confronta com um dilema ético: o que fazemos com o poder de criar algo que aprende? Ela espelha não apenas nossa inteligência, mas também nossas intenções. Por isso, mais do que discutir a tecnologia em si, precisamos discutir o humano por trás dela – quem decide, com que propósito e a quem serve.

Assim como o cavalo, a IA não é boa nem má: ela apenas responde à mão que a conduz. O perigo não está na força que tem, mas na direção que damos a ela. A Inteligência Artificial é, ao mesmo tempo, um espelho e um teste moral, um reflexo ampliado de nossas escolhas. E talvez, no fim, o verdadeiro aprendizado não seja ensinar a máquina a pensar, mas reaprendermos nós mesmos a guiar com ética, paciência e sensibilidade.

Roger Finger é head de Inovação da Positivo Tecnologia.

Autor: Gazeta do Povo

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