As pesquisas eleitorais são um dos personagens mais centrais em ano de eleição. São amadas e odiadas — a depender de quem aparece na frente ou na rabeira. E não será diferente em 2026, ainda mais porque os institutos tiveram um desempenho descolado da realidade das urnas no pleito de 2022 e chegam pressionados por uma calibragem mais precisa sobre os desejos dos eleitores brasileiros.
Essas sondagens não são uma previsão exata do que vai acontecer na votação e nem têm essa pretensão. Elas apontam tendências e fazem um retrato do momento em que as entrevistas foram realizadas. E por conta da metodologia adotada por cada instituto e da amostragem, são esperadas discrepâncias. Até um certo ponto.
Alguns resultados na eleição de 2022 colocaram em xeque as pesquisas eleitorais. Seja para presidente, governador ou senador, os institutos tiveram dificuldades em extrair as intenções dos eleitores e se viram questionados sobre eventuais falhas na coleta ou mesmo sobre possíveis benefícios a partidos e candidatos. Abaixo, alguns exemplos que puseram os institutos na parede:
- Na eleição para presidente, os institutos de pesquisa davam uma diferença superior a 10 pontos percentuais para Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contra Jair Bolsonaro (PL). Nos votos, Bolsonaro ficou 5,23 pontos percentuais atrás de Lula.
- Em São Paulo, Fernando Haddad (PT) liderava as pesquisas, mas Tarcísio de Freitas (Republicanos) passou ao segundo turno com quase 7 pontos percentuais à frente do petista.
- Na eleição ao Senado em São Paulo, Marcos Pontes (PL) aparecia em segundo nas pesquisas, relativamente distante de Márcio França (PSB). Nas urnas, Pontes venceu com mais de 13 pontos percentuais para França.
- No Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL) estava à frente de Marcelo Freixo (PSB na época, hoje no PT), mas sem chance de vencer no primeiro turno. Na votação, foi a 58,67% e foi eleito sem precisar da segunda volta.
- Na disputa pelo Senado no Paraná, Alvaro Dias (na época no Podemos, hoje no MDB) era o favorito nas pesquisas. Nas urnas, Sergio Moro (União Brasil) foi eleito, sendo seguido por Paulo Martins (na época no PL, hoje no Novo). Alvaro Dias ficou em terceiro lugar.
Com vários episódios discrepantes, o então presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), Alexandre Cordeiro Macedo, pediu abertura de inquérito administrativo por suposta manipulação dos resultados e um “comportamento coordenado” entre alguns institutos — Macedo havia sido indicado por Bolsonaro ao cargo. A Polícia Federal também chegou a abrir investigações contra as empresas de pesquisa.
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na época, Alexandre de Moraes, tornou sem efeito as apurações do Cade e da Polícia Federal sob o argumento de que a fiscalização dos institutos de pesquisa cabe à Justiça Eleitoral. Segundo Moraes, as investigações eram “baseadas, unicamente, em presunções relacionadas à desconformidade dos resultados das urnas” e que não apresentavam “indicativos mínimos” de ilícitos.
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Em 2024, pesquisas eleitorais ficaram mais próximas dos resultados das urnas
Após o primeiro turno das eleições de 2022, alguns institutos reconheceram as divergências e justificaram que as amostras estavam desatualizadas devido ao atraso na coleta dos dados do Censo de 2020, que foi realizado em 2022 e publicado em 2023. Com isso, a divisão dos dados demográficos teria influenciado nas pesquisas.
Outros fatores, como alta abstenção em alguns lugares, mudaram a forma da coleta das entrevistas, levando-se em conta a predisposição da amostra em votar de fato. Essas questões ajudaram os institutos a captar com mais eficiência os cenários eleitorais dois anos mais tarde, nas eleições municipais. Em 2024, das 26 capitais, somente em três — Cuiabá, João Pessoa e Natal — os institutos de pesquisa apontaram cenários diferentes das urnas.
Nos demais, os levantamentos se aproximaram do resultado das urnas. Em São Paulo, por exemplo, as empresas mostravam um empate técnico entre Ricardo Nunes (MDB), Guilherme Boulos (PSOL) e Pablo Marçal (PRTB) na casa dos 29%. Nas urnas passaram Nunes e Boulos ao segundo turno com 29,48% e 29,07% dos votos válidos, respectivamente. Marçal ficou em terceiro com 28,14%.
“Pesquisa é um instrumento estatístico e que funciona. A maioria das pessoas não entende como funciona uma pesquisa, que se trata de uma amostra do todo”, defende o diretor da Neokemp Pesquisas, Marcelo Noronha. “Quem faz corretamente tende a acertar os movimentos. Quando a pesquisa acerta, todos batem palma. Mas quando não pega esse movimento, as críticas aparecem”, acrescenta.
As eventuais divergências entre pesquisas e resultados nas urnas geram, naturalmente, uma reação de políticos que avaliam terem sido prejudicados, visto que os levantamentos podem influenciar a decisão do eleitor. Então candidato ao Senado pelo Paraná em 2022, Paulo Martins — hoje vice-prefeito de Curitiba —, esbravejou. “Vocês [Jair Bolsonaro e Ratinho Junior] não deixaram de me apoiar mesmo com a manipulação desta eleição pelos institutos de pesquisa, que apontavam que eu não era viável eleitoralmente e de boa parte da imprensa, que incentivava constantemente o ‘voto útil’ em meus adversários”, falou ele, após ter sido o segundo mais votado, apesar de aparentar não ter chance nas pesquisas.
O diretor-executivo do Paraná Pesquisas, Murilo Hidalgo, normaliza essa reação e diz que faz parte do processo eleitoral. Mesmo assim, critica a maneira com que políticos se voltam contra os institutos.
“Hoje virou torcida, perdeu-se a razão para a emoção. E nada mais importa”, comenta. Apesar disso, ele entende que a metodologia e as técnicas de coleta deixam menos margem para contestações. “A parte técnica é uma proteção, ajuda muito. A divulgação nos grandes veículos também ajuda. Mas quando cai na internet, aí é terra de ninguém”, observa.
Pesquisas são estratégicas para definições de candidaturas
Apesar de serem os principais críticos das pesquisas eleitorais, os políticos se apoiam nelas para definir candidaturas e coligações. Isso vale especialmente nos meses anteriores ao pleito e antes das convenções partidárias que definem quem serão os candidatos de cada partido.
As pesquisas servem para testar a viabilidade de alguns nomes. Muitas vezes, os próprios partidos contratam institutos para realizar os levantamentos para uso interno, sem divulgação para a imprensa. Mas também usam as pesquisas públicas para definir estratégias de candidaturas.
Não por acaso os institutos de pesquisas geram vários cenários e os mostram aos entrevistados para responder em quem pretendem — ou não — votar. Esses cenários, por exemplo, podem conter potenciais candidatos do mesmo partido sendo testados contra adversários em comum.
“As campanhas não vivem sem pesquisas”, crava Hidalgo. “O pré-candidato que está fraco nas pesquisas dificilmente vai ser candidato. Elas têm um peso decisivo para os candidatos”, acrescenta.
Judicialização atrapalha institutos de pesquisa
Na véspera do primeiro turno das eleições municipais em Curitiba, em 2024, estava prevista a divulgação de cinco pesquisas eleitorais. Entretanto, apenas duas acabaram sendo divulgadas, não sem antes passarem pela Justiça Eleitoral.
No segundo turno, uma guerra de pedidos de suspensão de pesquisas inundou o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-PR), deixando os eleitores e candidatos em uma espécie de apagão, sem saber os movimentos que aconteciam com o avanço da campanha. Foi comum, por exemplo, uma mesma pesquisa ser alvo de ambos os lados na Justiça.
Esse tipo de situação é bastante comum nas disputas municipais, mas tende a se espalhar também para o pleito deste ano. No período anterior à definição das candidaturas, o mais comum é ocorrer pedido de suspensão por determinado político não constar no questionário. Já no período eleitoral, os advogados das campanhas buscam pequenos detalhes, geralmente nas amostras, para tentar inviabilizar a divulgação das pesquisas.
“Como a estatística é uma ciência que calcula proporcionalidade, existem corpos jurídicos que vão nos detalhes e tentam impugnar. Por isso, seguimos o plano amostral o mais próximo possível da realidade para rodar as entrevistas necessárias”, explica Noronha, da Neokemp Pesquisas.
Devido às regras eleitorais, todos os institutos de pesquisa precisam registrar no sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) os levantamentos que farão, preenchendo todos os campos exigidos na legislação. Para a eleição deste ano, toda e qualquer pesquisa eleitoral precisa ser registrada, caso contrário há penalidades previstas não apenas para o instituto, mas também para quem as divulga.
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Por que a Gazeta do Povo publica pesquisas eleitorais
A Gazeta do Povo publica há anos todas as pesquisas de intenção de voto realizadas pelos principais institutos de opinião pública do país. As pesquisas de intenção de voto fazem uma leitura de momento, com base em amostras representativas da população.
Métodos de entrevistas, composição e número da amostra e até mesmo a forma como uma pergunta é feita são fatores que podem influenciar no resultado. Por isso é importante ficar atento às informações de metodologias, encontradas no fim das matérias da Gazeta do Povo sobre pesquisas eleitorais.
Pesquisas publicadas nas eleições de 2022, por exemplo, apontaram discrepâncias relevantes em relação ao resultado apresentado na urna. Feitos esses apontamentos, a Gazeta do Povo considera que as pesquisas eleitorais, longe de serem uma previsão do resultado das eleições, são uma ferramenta de informação à disposição do leitor, já que os resultados divulgados têm potencial de influenciar decisões de partidos, de lideranças políticas e até mesmo os humores do mercado financeiro.
Autor: Gazeta do Povo








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