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Olimpíadas de Inverno: clima inviabilizará sedes – 05/02/2026 – Esporte

Fez 24 negativos na véspera da abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno em Cortina D’Ampezzo, em 1956. Setenta anos depois, o resort italiano encara 4 graus negativos, neve que caiu apenas nos últimos dias e muitos problemas ao receber o evento pela segunda vez, a partir desta sexta-feira (6). Em 2050, uma terceira edição talvez seja inviável.

Segundo estudo encomendado pelo COI (Comitê Olímpico Internacional) e publicado em 2024, quando os Jogos de Inverno completaram cem anos de história, menos de 20 países serão capazes de receber os Jogos a partir da metade do século.

Bem mais sensíveis à mudança climática do que as Olimpíadas de Verão, as modalidades disputadas sobre neve e gelo vivem uma crise existencial diante do aquecimento global. Se em 1956 era possível erguer um estádio de hóquei ao ar livre, agora a única opção é manter o que for possível dentro de um ginásio —já existente, indica o COI, receita que não foi seguida pelos organizadores italianos.

Ocorre que boa parte dos esportes de inverno só podem ser disputados em montanhas, sua origem. De acordo com a pesquisa de Robert Steiger, da Universidade de Innsbruck, na Áustria, e Daniel Scott, da Universidade de Waterloo, no Canadá, cada vez menos locais serão capazes de atender aos padrões exigidos pelo evento.

De 93 locações possíveis, 87 eram “climaticamente confiáveis” para realizar as competições no período de referência adotado pelo estudo (1981-2010); 6 eram “marginalmente confiáveis” e nenhuma inviável. No atual cenário de emissões de gases de efeito estufa, o número de locações confiáveis cairia para 52 sedes em 2050 e para 46 em 2080.

Ou seja, mais da metade das estações de esqui se tornarão inviáveis para o esporte na segunda metade do século. Cortina, que divide com Milão e outras localidades esta 25ª edição dos Jogos, ainda não chega a esse ponto, mas assustou as autoridades olímpicas.

O começo do inverno foi ameno, empilhando preocupações sobre um evento já marcado por atrasos, estouros de orçamento e uma pegada ambiental que especialistas consideram exagerada. Em janeiro, no entanto, os termômetros baixaram nas Dolomitas, a cadeia montanhosa que abriga Cortina, amenizando a situação.

“Estamos nas mãos dos deuses, mas também precisamos dos recursos para produzir neve, e as capacidades necessárias para isso estão disponíveis”, disse Johan Eliasch, o presidente da FIS, a federação que rege o esqui e o snowboard, quando a neve começou a cair na região durante uma visita de inspeção no mês passado.

Eliasch é bastante vocal sobre a questão. Além de cartola e dono da marca de equipamentos esportivos Head, sustenta a ONG Cool Earth. Em sua frustrada campanha para a presidência do COI, no ano passado, lançou a ideia de sedes fixas em altas altitudes para os esportes de inverno, com garantia de neve e redução de custos.

Em Cortina, ele voltou ao assunto. “O que fica claro aqui é que a garantia de neve está muito ligada à altitude dos locais”, afirmou. “Mas isso é apenas uma parte dessa equação. Também é uma questão de manter as sedes, e isso requer competições contínuas.”

O uso frequente, segundo o dirigente, seria garantido por etapas da Copa do Mundo, a disputa anual das diversas modalidades de montanha. “Isso é muito mais eficiente do que tentar reinventar a roda em novos destinos.”

Eliasch evitou a menção explícita, mas o COI passou por essa fase de experimentações na última década, admitindo edições dos Jogos em sedes exóticas como o balneário russo de Sochi, em 2014, e Pequim, em 2022, viabilizadas por uma quantidade colossal e dispendiosa de neve artificial.

O recurso é uma prática obrigatória em eventos de alto nível, já que determinadas condições de pista são exigidas para as diversas modalidades –a grosso modo, 30 cm de neve fresca, não compactada, camada que precisa ser reposta constantemente se a temperatura estiver acima de zero grau, entre outras variáveis.

Neve derretida e recongelada, por outro lado, vira gelo, trazendo perigo às pistas, uma situação cada vez mais frequente com o aquecimento global. Em 2023, um salto no número de cancelamentos de provas e acidentes fez mais de 400 atletas pedirem providências à FIS, assim como mais transparência na ação climática relacionada ao esporte.

Além de maquinário, neve artificial exige grandes volumes de água, transporte e até a guarda dos flocos em depósitos. Livigno, sede do snowboard e esqui freestyle neste ano, vai usar neve do inverno anterior para suprir a alta demanda dos Jogos.

Não faltam números a indicar que a situação é insustentável. Segundo o estudo, dos anos 1920, década de estreia dos Jogos de Inverno, aos anos 1950, a temperatura média máxima das sedes foi de 0,4°C; dos anos 1960 aos 1990, de 3,1°C; neste século, de 6,3°C.

“A viabilidade e o sucesso dos futuros Jogos Olímpicos de Inverno dependerão do cumprimento, por parte da comunidade internacional, das metas estabelecidas pelo Acordo de Paris“, escreveram os autores do estudo, em um complemento da análise publicado no fim do ano passado, por ocasião do evento em Cortina e Milão.

Falta, é claro, combinar com os países. O limite de aquecimento global do tratado, de 1,5°C no fim do século, vai ser superado em algum momento do segundo semestre de 2029, segundo as últimas estimativas. Antes da próxima edição dos Jogos, nos Alpes franceses.

Autor: Folha

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