
Em janeiro, os Estados Unidos surpreenderam a comunidade internacional ao decidir realizar uma operação na Venezuela para capturar o ditador Nicolás Maduro. No último dia de fevereiro, os americanos voltaram a causar impacto ao realizar, junto com Israel, a ampla operação em curso contra o regime do Irã, que já culminou na explosão de centros militares e de governo e na morte do líder supremo Ali Khamenei. Em um intervalo de dois meses, dois regimes considerados adversários históricos de Washington sofreram golpes diretos.
As operações indicam que o presidente Donald Trump passou a usar operações militares repentinas e de grande impacto como instrumento central de sua política externa – uma estratégia que, segundo analistas, também pode acabar influenciando outras disputas geopolíticas que estão sendo conduzidas por Washington neste momento, como a pressão americana sobre o regime de Cuba e a ameaça de anexação da Groenlândia.
O economista e doutor em Relações Internacionais Igor Lucena disse à Gazeta do Povo que as operações autorizadas pela Casa Branca nos últimos meses têm um efeito simbólico importante no sistema internacional: reforçar a percepção de que os Estados Unidos continuam exercendo forte capacidade de projeção de poder global.
“O presidente Trump está conseguindo demonstrar uma presença americana muito significativa”, disse Lucena.
A professora doutora e pesquisadora de Relações Internacionais do Centro Universitário de Brasília (CEUB), Aline Thomé, avalia que essas operações militares dos EUA tendem a fortalecer a posição americana em negociações internacionais em curso.
“Isso aumenta o poder de barganha dos Estados Unidos, porque outros países passam a considerar que tal situação pode acontecer com eles”, afirmou.
Pressão sobre Groenlândia e Cuba
Cuba é um dos países que mais está sentindo essa pressão de Trump. O governo dos EUA já alertou o regime comunista para que inicie mudanças políticas e econômicas e impôs novas barreiras ao país. Uma das principais é o bloqueio do envio de petróleo venezuelano à ilha, que agravou a crise energética no país. Trump também ameaçou com tarifas os países que continuarem abastecendo a ditadura de Miguel Díaz-Canel.
“Cuba terá que fazer acordos e, muito provavelmente, avançar em uma nova abertura econômica, como Delcy Rodríguez vem conduzindo na Venezuela, tanto no campo econômico quanto político”, disse Lucena, referindo-se à vice de Maduro que foi alçada ao comando da Venezuela após a captura do ditador. Desde que assumiu o poder, Delcy já fez várias concessões ao governo Trump, inclusive removendo cubanos de cargos de contrainteligência na Venezuela.
A Groenlândia também é alvo dos interesses de Trump, que argumenta que a região do Ártico, onde está localizado o território, possui importância estratégica para a segurança nacional americana. Desde o ano passado ele defende que os Estados Unidos passem a ter controle sobre a ilha, que atualmente possui o status de território autônomo pertencente ao Reino da Dinamarca. O Ártico vem ganhando relevância militar e econômica com a presença crescente de Rússia e China.
Dois dias após o ataque americano ao Irã, a Dinamarca anunciou sua adesão a um programa de dissuasão nuclear liderado pela França, ao lado de outros sete países europeus. Embora a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, tenha justificado o movimento como resposta à ameaça russa e o acordo não envolva proteção à Groenlândia, o gesto ilustra a tensão que o novo estilo de política externa de Trump pode provocar dentro da própria Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), da qual fazem parte EUA e Dinamarca.
Para o estrategista internacional e doutor em Filosofia Cezar Roedel, o recente acordo nuclear entre Dinamarca e França não pode ser interpretado apenas como uma resposta à postura agressiva de Moscou após a invasão à Ucrânia. Na avaliação dele, o movimento também ocorre em meio a um ambiente de crescente incerteza estratégica entre governos europeus em relação aos Estados Unidos, o que tem levado parte do continente a discutir com mais intensidade a necessidade de ampliar sua autonomia em matéria de segurança.
“Quando os Estados Unidos sinalizam interesses geopolíticos próprios sobre um território que pertence a um país da Otan, isso produz um efeito psicológico profundo nas capitais europeias”, disse ele.
Por sua vez, a analista Aline Thomé pontua que outros países da Otan podem se sentir ameaçados caso os Estados Unidos decidam avançar com alguma ação mais agressiva sobre a Groenlândia.
Mas, no caso da Groenlândia, a questão parece caminhar mais pelo campo diplomático. Trump anunciou, em janeiro, um acordo preliminar com a Otan voltado à segurança do Ártico e à ampliação da cooperação militar na região, o que poderia incluir maior presença americana na Groenlândia.
Lucena acredita que a cooperação militar com os americanos pode se ampliar nos próximos anos, o que, em sua avaliação, pode ser considerado salutar e positivo para a defesa do território e pode deixar Trump satisfeito. O analista acrescenta que a disputa tende a se desenvolver no campo estratégico, não em uma intervenção militar.
Zonas de influência e o avanço da China e da Rússia
A recente postura bélica de Washington pode ser lida também dentro de uma perspectiva mais ampla de reposicionamento global dos Estados Unidos diante de uma competição crescente com China e Rússia, duas potências que passaram a pressionar nos últimos anos de forma mais direta a posição americana como principal ator global.
Na visão de Aline Thomé, as operações militares dos EUA funcionam como um sinal de que Washington não pretende abrir mão de sua influência em regiões consideradas estratégicas para sua segurança nacional, como a América Latina, onde Rússia e China tentavam avançar por meio de influência.
“O ataque à Venezuela, em alguma medida, dá o recado tanto para a China quanto para a Rússia de que os Estados Unidos também querem essa região [a América Latina] como zona de influência”, afirmou.
Segundo o professor de Relações Internacionais do CEUB Lucas Portela, essa disputa por zonas de influência também entra no interesse americano por recursos estratégicos presentes nessas regiões: energia, minerais e rotas comerciais que ganham peso crescente em um cenário de competição entre grandes potências.
“Quando olhamos para esses movimentos – a pressão política sobre a Venezuela, as discussões envolvendo a Groenlândia, tensões comerciais com o Brasil e as recentes ações envolvendo o Irã – percebemos diferentes episódios que, embora tenham origens regionais próprias, também se relacionam com regiões que concentram recursos energéticos ou minerais relevantes para a economia global”, afirmou o professor.
Sinais para Brasil, México, Colômbia, Canadá e Nicarágua
As operações no Irã e na Venezuela também enviam um sinal forte para outros países que mantêm ou já mantiveram tensões abertas com Washington. Entre eles estão tanto regimes autoritários, como a Nicarágua, quanto nações mais democráticas que enfrentam atritos pontuais com os Estados Unidos, como o Canadá, o México, a Colômbia e o próprio Brasil.
O Canadá foi alvo de ameaças diretas do próprio Trump no ano passado, quando o presidente americano chegou a falar em anexar o país e não descartou o uso da força para isso. A justificativa americana gira em torno da segurança nacional: Washington alega que Ottawa não controla adequadamente suas fronteiras, o que abriria margem para a entrada de drogas e para a influência de potências estrangeiras no território norte-americano.
No México, Trump já ameaçou usar a força contra os cartéis de drogas, classificados por seu governo como organizações terroristas e como uma ameaça direta à segurança dos Estados Unidos. O Brasil, por sua vez, embora tenha normalizado recentemente as relações com Washington, também foi alvo de críticas do governo americano no ano passado, em um período de maior tensão diplomática entre os dois países. Já o regime da Nicarágua tem sido alertado pela Casa Branca para que promova fortes mudanças políticas e cesse a perseguição contra opositores.
Segundo Thomé, as recentes operações contra Venezuela e Irã mostram que, caso os EUA entendam que devem usar a força contra México, Canadá, Colômbia, Nicarágua e Brasil, eles vão usar.
“É um recado muito claro”, disse ela. A analista listou, contudo, os custos que esse tipo de iniciativa pode trazer. Para ela, agir contra aliados históricos, como por exemplo o Brasil, México, Canadá e Colômbia, é uma equação muito mais delicada do que enfrentar regimes autoritários como Venezuela e Irã ou Nicarágua.
Na visão de Lucena, ainda que as operações contra Venezuela e Irã ampliem a pressão sobre os demais países que estão no foco dos EUA, o uso da força tende a permanecer pontual e direcionado a regimes amplamente criticados pela comunidade internacional. Na avaliação do economista, as disputas com Brasil, México, Canadá e Colômbia, por exemplo, devem continuar sendo conduzidas principalmente no campo comercial e diplomático.
“Os Estados Unidos continuarão utilizando negociações e barganhas com outros países, principalmente com base no comércio”, afirmou.
Como foram as operações na Venezuela e no Irã
A operação realizada na Venezuela no começo de janeiro marcou uma mudança na política dos EUA para a América Latina, região que foi o foco da última atualização da política de segurança nacional dos americanos. Na metade do ano passado, a Casa Branca passou alguns meses tentando negociar uma saída pacífica de Maduro do poder – mesmo ele estando em sua lista de procurados – mas o ditador chavista se negava a sair do comando do país sul-americano. Maduro chegou a caçoar de Trump em diversos comícios feitos na Venezuela e debochou dos alertas que eram emitidos por Washington. Em 3 de janeiro, contudo, em uma operação rápida e sem baixas para o lado americano, Maduro foi capturado e levado para os EUA, onde agora está preso e aguardando julgamento sob acusação de liderar um cartel de drogas.
O caso iraniano é distinto. Teerã já havia sido alvo dos EUA durante a guerra de junho do ano passado, quando várias instalações nucleares iranianas foram bombardeadas e, segundo Trump, praticamente destruídas. Os EUA apoiaram Israel naquela guerra, que visava impedir o regime islâmico de alcançar a produção de armas nucleares. A guerra, que durou cerca de 12 dias, foi encerrada por meio de um esforço do próprio Trump, que barrou novos ataques de Israel contra o Irã e mediou um cessar-fogo.
Naquele momento, Washington sinalizou que esperava que o regime iraniano voltasse à mesa de negociações para discutir, pacificamente, um novo acordo nuclear. O regime se dispôs a conversar, mas manteve uma posição considerada inaceitável pelos Estados Unidos na defesa de sua segurança nacional: não concordava em abandonar completamente seu programa nuclear, insistindo no direito de manter atividades de enriquecimento de urânio no país. Essa divergência acabou travando as negociações e manteve o impasse que culminou no ataque de sábado (28), quando os EUA atingiram em cheio o coração do poder do regime islâmico.
Autor: Gazeta do Povo








.gif)












