sábado, dezembro 27, 2025

Oposição vê dosimetria como vitória parcial e trabalha por anistia

A aprovação do Projeto de Lei da dosimetria pelo Senado, nesta quarta-feira (17), foi celebrada pela oposição como uma vitória política relevante, ainda que insuficiente para encerrar o debate sobre as condenações do 8 de Janeiro. Para aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro, o texto aprovado representa um avanço possível dentro do atual cenário institucional e o primeiro passo de uma estratégia mais ampla que ainda inclui a defesa de anistia.

O plenário aprovou o projeto por 48 votos favoráveis, 25 contrários e uma abstenção. A proposta altera critérios de fixação de penas aplicados aos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023 e segue agora para sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que já sinalizou a possibilidade de veto. Caso isso ocorra, o Congresso poderá derrubar o veto e promulgar a lei.

A votação consolidou o esforço da oposição para avançar com uma alternativa possível à anistia ampla, frente à resistência da base governista, do PT e dos poderes Executivo e Judiciário. A matéria havia sido aprovada poucas horas antes pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), em meio a acordos políticos que geraram desgaste interno no governo.

Para o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a aprovação da dosimetria não encerra o debate. Em vídeo divulgado após a votação, ele afirmou que o projeto representa apenas o “primeiro degrau” e criticou duramente o processo que levou às condenações. Segundo o parlamentar, a oposição aceitou votar o que era possível “nessa conjuntura de interferência de forças externas dentro do poder legislativo”, ao sustentar que Jair Bolsonaro e centenas de condenados foram julgados por seus “inimigos”.

Líder da oposição no Senado, Rogério Marinho (PL-RN) afirmou no plenário que a redução das penas busca corrigir exageros que atingiram pessoas sem histórico criminal e suas famílias. Para ele, o país precisa resgatar uma tradição histórica de pacificação e reconciliação institucional.

“Não faz sentido que pessoas que picharam estátuas ou entraram em prédios públicos sejam condenadas a 14, 17 anos de prisão. Isso virou instrumento de retirada da vida pública do maior líder político do Brasil recente, que é o presidente Bolsonaro”, disse Marinho. O senador também acusou o Judiciário de invadir prerrogativas do Legislativo e defendeu que o Parlamento reassuma seu papel constitucional. “A política é o que tem que imperar”, afirmou.

VEJA TAMBÉM:

  • PL da dosimetria é aprovado pelo Senado; texto vai à sanção

  • projeto da dosimetria

    Saiba como cada senador votou no projeto da dosimetria

Anistia segue no horizonte da oposição, diz Seif

Em entrevista à Gazeta do Povo, o senador Jorge Seif (PL-SC) reforçou que a oposição não considera a aprovação da dosimetria como o fim da luta por anistia. Segundo ele, o projeto corrige distorções evidentes, mas abre espaço para discussões mais amplas no futuro.

“A dosimetria não é ponto final. É um primeiro passo possível dentro do ambiente institucional atual”, afirmou. Para Seif, o Congresso precisa agir com responsabilidade, avançando por etapas, mas sem abandonar a pauta da anistia, que segue sendo tratada como legítima por parte da oposição.

Questionado sobre um eventual veto de Lula, Seif afirmou que a derrubada da decisão presidencial é o caminho mais plausível. Segundo ele, barrar até correções técnicas tende a fortalecer a mobilização por soluções legislativas mais amplas.

“Se o veto ocorrer, ele certamente reacende o debate e fortalece a articulação por soluções legislativas mais amplas, inclusive a anistia, porque mostrará que até correções técnicas estão sendo barradas”, diz Seif.

No discurso da oposição, as chamadas “correções técnicas” dizem respeito a ajustes estritamente jurídicos na aplicação das penas, sem entrar no mérito da anistia. A ideia é revisar a dosimetria com base nos critérios tradicionais do Direito Penal, como a proporcionalidade entre a conduta e a punição, a individualização da responsabilidade penal e a diferenciação entre lideranças e participantes sem papel de comando. Também estão nesse escopo questionamentos sobre garantias processuais, como o direito à ampla defesa e ao contraditório, sob o argumento de que esses parâmetros não teriam sido plenamente observados em parte das condenações relacionadas ao 8 de Janeiro.

Nas redes sociais, o novo líder da Minoria na Câmara, Gustavo Gayer (PL-GO), adotou um tom emocional ao comemorar a aprovação. Segundo ele, a votação devolveu esperança a centenas de famílias que convivem há mais de dois anos com prisões consideradas injustas. Gayer afirmou que a luta não terminou e que a oposição continuará mobilizada por uma anistia completa.

Ao acompanhar a aprovação do projeto no plenário do Senado, o líder do Novo na Câmara, deputado Marcel van Hattem (RS), afirmou que a redução das penas é apenas o início para amenizar injustiças, mas a reparação total será garantida apenas com a anistia ampla, geral e irrestrita. Segundo o parlamentar, a aprovação da dosimetria não encerra o debate. Ele afirmou que a oposição seguirá mobilizada para corrigir o que considera injustiças cometidas contra pessoas sem histórico criminal, condenadas em processos que, na avaliação do grupo, não garantiram plenamente o direito à ampla defesa e ao contraditório.

Van Hattem ainda reforçou que “a gente recupera o nosso país por meio da ação legislativa, por meio do Congresso Nacional, ou a gente abre mão de fazer aquilo que a democracia define, que é a participação popular por meio dos seus representantes”.

VEJA TAMBÉM:

  • oposição

    Novo líder da oposição, Cabo Gilberto aposta em Flávio e vê espaço para crescimento até as eleições

  • Lindbergh Farias (PT-RJ), líder do PT na Câmara dos Deputados.

    Líder petista adianta que irá ao STF caso PL da dosimetria seja aprovado

Oposição sai fortalecida, mas dosimetria pode ser ponto final

Para o cientista político Adriano Cerqueira, a oposição sai fortalecida do episódio, enquanto o governo demonstrou incoerência e fragilidade. Ele avalia que a votação se insere em um contexto político mais amplo, que envolve a reorganização da direita para 2026 e a tentativa de manter Jair Bolsonaro influente no cenário eleitoral por meio do filho, Flávio Bolsonaro.

“O Congresso se uniu em torno dessa agenda. Agora, Executivo e STF terão de reagir. O problema é que o Supremo se tornou um fator de instabilidade institucional, porque não há garantia de que decisões legislativas serão respeitadas”, afirmou Cerqueira, ao classificar o resultado como uma vitória clara da oposição.

Sobre o possível veto do presidente Lula, Cerqueira aponta que isso terá menos efeito institucional e mais peso simbólico dentro da própria base governista.

“Se Lula vetar, será uma resposta política voltada essencialmente à base dele, que é majoritariamente contrária à dosimetria”, afirmou. Para Cerqueira, o presidente tem consciência de que o veto tende a ser derrubado pelo Congresso, mas ainda assim pode optar por esse caminho como forma de reforçar o vínculo com o eleitorado petista.

Na leitura do analista, mesmo com a derrota previsível no Parlamento, o custo político para Lula seria limitado. “Ele sabe que vai perder o veto, mas a derrota não será tão grande porque ele usa esse gesto para sinalizar alinhamento ideológico com sua base”, avaliou.

Por outro lado, não se sabe também se a aprovação da lei da dosimetria entrou na negociação diplomática entre Lula e o presidente americano Donald Trump para a retirada de sanções contra o ministro do STF Alexandre de Moraes.

Já o analista político Alexandre Bandeira tem uma leitura mais cautelosa sobre os próximos passos. Para ele, a aprovação da dosimetria tende a ser o limite do que é politicamente viável neste momento.

“Não haverá espaço para uma anistia ampla, geral e irrestrita. Esse foi o ponto negociado, inclusive com a anuência de Bolsonaro”, avaliou. Bandeira destacou ainda a incerteza sobre a sanção presidencial e apontou que o governo já trabalha com a possibilidade de veto ou judicialização, utilizando o tema como instrumento político para tensionar a relação com o Congresso e alimentar o discurso eleitoral de 2026.

“Ontem mesmo, após a votação, ministros do governo e parlamentares da situação davam como certo o veto ou a cassação pelo STF, mostrando que o governo teria um entendimento diferente sobre a matéria com o aval e parceria do Supremo”, declarou.

Bandeira ainda destacou o posicionamento do líder do governo, Jaques Wagner (PT-BA), – após ele ter sido criticado pela base governista por ter aceitado um acordo para o avanço da dosimetria. Em troca de deixar passar a dosimetria, o governo teria tido a colaboração da oposição para aprovar também na quarta-feira (17) um projeto que reduz benefícios fiscais e aumenta tributos.

Pelas redes sociais, Wagner negou ‘troca de votos ou qualquer acordo nesse sentido”, mas ressaltou: “lamentável é nos rendermos ao debate raso e superficial. É despachar divergências de governo por rede social”.

“Essa declaração de Jaques Wagner simboliza seu descontentamento com um possível veto pós votação no Senado. Ou seja, vale mais a crítica nas redes sociais do que a articulação no parlamento”, avalia Bandeira.

Próximos passos dependem de Lula ou do STF

Com o texto aprovado e o recesso parlamentar se aproximando, a definição sobre sanção, veto ou eventual contestação judicial deve ficar para 2026. Até lá, a oposição mantém o discurso de vitória parcial e reforça a estratégia de tratar a dosimetria como um degrau inicial.

Líderes do PT argumentam que, mesmo que o texto tenha sido suavizado para restringir os benefícios apenas aos envolvidos no 8 de janeiro considerados como “soldados” (participantes sem papel de liderança), o veto integral seria a melhor estratégia. Essa posição é defendida mesmo sabendo que a decisão, provavelmente, será revertida pelo Congresso Nacional. O Parlamento pode derrubar o veto presidencial e promulgar a lei.

O desfecho, porém, não dependerá apenas do Congresso. A reação do Executivo e, eventualmente, do Supremo Tribunal Federal será determinante para saber se a mudança nos critérios de pena se consolidará como correção de excessos ou como mais um capítulo do embate entre os Poderes.

Autor Original

Destaques da Semana

Temas

Artigos Relacionados

Categorias mais Procuradas

spot_imgspot_img