O senador Flávio Bolsonaro deve apresentar até o fim de março as diretrizes do seu plano de governo, dentro de uma estratégia já definida: a economia será o centro da campanha.
Nos bastidores, aliados ouvidos pela Gazeta do Povo afirmam que a ideia é lançar o programa já acompanhado de um nome forte para comandar a área — uma tentativa de repetir a estratégia que, em 2018, ajudou a impulsionar a candidatura de Jair Bolsonaro com a escolha antecipada de Paulo Guedes.
A aposta é usar o “superministro” como âncora de credibilidade junto ao mercado financeiro e como sinal claro de compromisso com ajuste fiscal, corte de gastos e retomada de reformas. Mas, ao contrário do cenário de oito anos atrás, a escolha agora é mais complexa.
A definição do nome se tornou o principal foco de articulação da pré-campanha e expôs uma disputa interna no entorno de Flávio. De um lado, interlocutores do Partido Liberal (PL) defendem um economista com trânsito na Faria Lima, capaz de reduzir resistências e dar previsibilidade à política econômica.
De outro, cresce a pressão do núcleo duro do bolsonarismo, que rejeita nomes considerados independentes demais ou menos alinhados ideologicamente.
É nesse grupo que ganha força o nome de Adolfo Sachsida. Ex-ministro de Minas e Energia no governo Bolsonaro e defensor do liberalismo econômico, Sachsida reúne, na avaliação de aliados, um diferencial decisivo: a fidelidade política ao ex-presidente.
Mas não é apenas a proximidade ideológica que conta a seu favor: o ex-ministro é doutor em Economia pela UnB, pós-doutor pela Universidade do Alabama e também advogado. Atuou como professor no Brasil e nos Estados Unidos, com ampla produção acadêmica e mais de 2 mil citações em pesquisas.
Sachsida, que também é colunista da Gazeta do Povo, já participou de reuniões com investidores e empresários em São Paulo ao lado de Flávio, como uma espécie de ponte entre a campanha e o mercado. Procurado pela reportagem, o ex-ministro preferiu não comentar.
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Flávio Bolsonaro tem mais nomes na lista
Outros nomes seguem no radar, mas com menos probabilidade. Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central, é bem avaliado por investidores e chegou a ser sondado, mas já sinalizou que não pretende deixar a iniciativa privada.
O ex-ministro Paulo Guedes também foi procurado, mas a princípio recusou a participação.
Mansueto Almeida, ex-secretário do Tesouro e atual economista-chefe do BTG, é outro nome respeitado no mercado e frequentemente citado nas conversas.
Ainda assim, segundo uma fonte do setor financeiro, não há qualquer definição: “Não está claro se o Mansueto toparia. Isso ainda precisa ser construído”, diz.
O ex-presidente do BNDES, Gustavo Montezano, também já teve interlocução com integrantes da campanha e participou de agendas com investidores. As conversas, no entanto, seguem em caráter preliminar.
Flávio já sinalizou publicamente compromisso com corte de gastos e privatizações, mas evita cravar nomes enquanto tenta equilibrar as diferentes pressões dentro da própria base. “Isso tudo está na cabeça do Flávio”, resume um interlocutor próximo.
Agenda deve incluir ajuste e privatizações
Na Faria Lima, centro financeiro do país, o cenário eleitoral já é acompanhado de perto, mas a avaliação predominante ainda é de cautela. Para agentes do mercado, é cedo para cravar nomes para a equipe econômica de um eventual governo Flávio Bolsonaro.
“Mais do que nomes, é preciso entender qual é a agenda”, diz Roberto Mantovani, economista-chefe do Banco Votorantim. “Imagino que deve haver uma contraposição à agenda do governo atual, de expansionismo fiscal.”
Para ele, uma agenda liberal tem duas prioridades hoje no Brasil: ajuste fiscal e privatizações. “É por aí que a agenda deve seguir, linha que já apareceu em 2019 e que o mercado conhece bem.”
Ainda assim, o histórico recente pesa na avaliação. “A gestão econômica do governo Bolsonaro foi confusa, e isso sempre gera apreensão sobre o que poderia ser um eventual governo Flávio Bolsonaro,” diz Mantovani.
Segundo ele, a gestão Bolsonaro avançou pouco em reformas, como a administrativa, e nas privatizações, além de ter ampliado os gastos públicos no último ano de mandato, mirando a reeleição.
Para Mantovani, o único consenso hoje na Faria Lima é que a eleição será apertada e altamente competitiva. “Não vejo ninguém fazendo apostas claras sobre quem será o vencedor, justamente porque a margem é muito estreita. O que predomina é a imprevisibilidade.”
A incerteza, no entanto, não elimina a necessidade de que qualquer governo eleito tenha de implementar algum tipo de ajuste. A questão, segundo Mantovani, é como será feito.
“Haverá custo político e econômico desse movimento”, diz. “Um governo com maior credibilidade faz com que os mercados antecipem o ajuste fiscal nos preços — câmbio, juros e bolsa. Já um governo com menor credibilidade tende a enfrentar maior pressão nos ativos, o que caracteriza o estresse financeiro.”
Autor: Gazeta do Povo








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