Um dos empreendimentos faraônicos idealizados pelo ex-bilionário Eike Batista, o Porto do Açu hoje é administrado pela Prumo Logística, controlada pelos fundos EIG e Mubadala, em parceria com uma subsidiária do Porto de Antuérpia-Bruges, da Bélgica.
Com uma área de 130 km² no norte do estado do Rio de Janeiro, o porto vive em pé de guerra com Eike, que ocupa ainda uma fatia de cerca de 2,5% do local por meio da OSX, sua empresa de construção naval que enfrenta uma segunda recuperação judicial.
A companhia entrou em recuperação no começo de 2024 com dívidas que somavam R$ 7,9 bilhões, sendo que o Porto do Açu é um dos principais credores.
Em entrevista ao Painel S.A., Eugenio Figueiredo, que já trabalhou na holding de Eike, a EBX, e hoje é CEO do porto, disse que a OSX usa uma área do local sem pagar aluguel, e que o terreno é desperdiçado enquanto há planos de construir no complexo um terminal voltado para a exportação de grãos, data centers e plantas de hidrogênio verde.
Consultada, a OSX disse que não se manifesta sobre o assunto, que é objeto de procedimento arbitral em curso entre as partes.
A OSX culpa a gestora do Porto do Açu pela sua recuperação judicial, dizendo que ela quer asfixiar a empresa para tomar seu espaço no local…
Esse é um caso muito simples. Imagine que você tem um apartamento e o alugou. Um dia o inquilino diz que não vai mais pagar o aluguel e continua morando lá por 10, 15 anos, sem pagar nenhum real. Você pede que ele saia e ele responde que vai ficar, apesar de inadimplente. É isso que a OSX faz. A crise, na verdade, é da OSX. Fomos envolvidos porque ela ocupa uma área grande e importante do nosso complexo industrial.
Quanto a empresa deve para a gestora do porto?
Em torno de R$ 2,5 bilhões. Essa dívida cresce a cada dia que passa e a companhia não tem a menor condição de se reestruturar. A receita da OSX é de R$ 70 milhões e eles devem R$ 9 bilhões, somando outros credores. Isso nunca vai ter uma solução através de uma recuperação judicial. A empresa tinha que estar falida há muito tempo. Mas, por questões da situação jurídica brasileira, a situação vem se arrastando.
Qual é a solução para esse imbróglio?
A probabilidade de que essa solução aconteça de forma a salvar a companhia é muito baixa. Mas deve haver acordo entre, pelo menos, a maioria dos credores. O que importa para nós é que eles ocupam uma área do nosso complexo que poderia estar sendo usada para projetos mais nobres.
Quais?
A instalação de novos terminais, de novas estruturas.
A saída da OSX ajudaria o porto em seus planos de fixar uma rota alternativa para o agronegócio no Rio?
Poderia ajudar se ocupássemos aquela área. Mas há toda uma questão logística também. Estamos tentando furar um bloqueio, porque já existem portos e rotas consagradas para fazer a exportação de grãos, como Paranaguá, Santos, Arco Norte.
Por que criar uma nova rota?
Hoje há muita tecnologia e investimento [no agronegócio], mas pouca melhora no escoamento. Há rotas estabelecidas, mas não necessariamente elas são as mais eficientes. E há uma característica do Brasil, que é usar pouco os modais hidroviário e ferroviário. Com isso, cria-se um desbalanceamento entre a grande demanda de movimentação dos grãos em direção à saída do país e o afunilamento que atrasa esse processo. Por outro lado, não há crescimento nos terminais para o escoamento da exportação.
Como o Porto do Açu entra nisso?
Estamos olhando para uma distância econômica, em vez da física. Nem sempre elas são proporcionais. Às vezes é mais vantajoso não pagar a taxa de espera nos portos e andar alguns quilômetros a mais no caminhão. Nosso porto não tem fila de espera, então o custo total fica mais interessante para a exportação.
O negócio principal do porto hoje é o petróleo. Os últimos acontecimentos na Venezuela preocupam?
Flutuações de preço acontecem o tempo todo por diferentes fatores. É um investimento tão grande colocar aquele negócio para produzir. As projeções estão lá entre os 60 bilhões, 70 bilhões a 180 bilhões de dólares, porque a produção hoje está sucateada. Mas depois que começar, não vai mais parar. Enquanto isso, as oscilações são parte do jogo, acontece.
Havia planos de instalar data centers no Porto do Açu. Isso avançou?
Ainda não temos nenhum contrato firme e definitivo de atração de um data center. Mas já fizemos o pedido de conexão para puxar a demanda de energia através da infraestrutura que temos lá no porto. Nosso provedor de energia é a Atlas Renováveis, que fará a solução elétrica de acesso e conexão. Agora, procuramos clientes. Isso está acontecendo neste exato momento.
Raio-X
Eugenio Figueiredo, 48
1977, Rio de Janeiro
Foi diretor financeiro da Prumo por 13 anos antes de chegar ao posto de CEO do Porto do Açu. Tem 20 anos de experiência em finanças para projetos, fusões e aquisições e desenvolvimento de negócios. Passou pela Vale e pelo grupo EBX, holding de Eike Batista.
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