Nas embalagens coloridas dos ovos de Páscoa pendurados nos túneis formados nos corredores dos supermercados nessa época do ano, está marcada uma informação que pode pesar na saúde: a quantidade de cacau presente no produto. Em meio à alta do preço da matéria-prima, versões com menor quantidade do ingrediente passaram a dominar o comércio.
Por regra da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), para o alimento ser considerado chocolate de verdade precisa ter no mínimo 25% de cacau —com exceção do branco, que exige ao menos 20% de manteiga da fruta. Se a porcentagem for menor que isso, o consumidor está, na verdade, ingerindo um doce com sabor de chocolate.
Segundo especialistas ouvidos pela Folha, quanto menor a quantidade de cacau, pior é a qualidade nutricional do chocolate. Isso porque, no lugar dele, os fabricantes incluem mais açúcar e gordura.
“Quanto mais cacau, melhor para a saúde”, diz o médico nutrólogo Durval Ribas Filho, presidente da Abran (Associação Brasileira de Nutrologia). Ele afirma, porém, que isso não torna o chocolate isento de açúcar e calorias.
O cacau é o principal responsável pelos efeitos positivos atribuídos ao chocolate. Rico em flavonóis e polifenóis, compostos bioativos com ação antioxidante, está associado à proteção cardiovascular, melhora da circulação, regulação da pressão arterial e redução de processos inflamatórios.
Além disso, o cacau contém substâncias como a feniletilamina e a teobromina, relacionadas à sensação de bem-estar, assim como minerais essenciais, como magnésio e ferro.
Quando a porcentagem de cacau diminui, a composição do produto muda, e não para melhor. Para manter sabor, textura e custo, a indústria tende a aumentar a adição de açúcar, gorduras e aditivos.
“Ao reduzirmos a quantidade de cacau, o produto deixa de oferecer níveis benéficos desse ingrediente, comprometendo sua qualidade nutricional e tornando-a inadequada”, afirma a nutricionista Polyana Baptista Gomes, dos hospitais Santa Paula e Samaritano Paulista.
A bióloga e nutricionista Yasmim Duro, especialista em emagrecimento e metabolismo, diz que os benefícios do cacau só são observados de forma mais consistente em chocolates com maior concentração do ingrediente.
“Para falar em propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, é preciso, no mínimo, 70% de cacau”, afirma.
É consenso entre os especialistas que o ideal é priorizar chocolates com essa porcentagem de cacau e ingerir em torno de 20 a 30 gramas por dia, o equivalente a dois ou três quadradinhos de uma barra de chocolate.
O problema é que, na prática, uma parcela significativa dos produtos disponíveis ao consumidor brasileiro apresenta baixa quantidade de cacau. Nem mesmo os rótulos que dizem conter quantidades elevadas são confiáveis.
Um estudo publicado em janeiro deste ano na revista Food Chemistry por uma equipe do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP), em Piracicaba, analisou 211 amostras de 116 marcas de chocolate em barra vendidas no país.
Os resultados mostram que chocolates ao leite, branco e meio amargo, independentemente da classificação, apresentavam entre 25% e 30% de cacau. Já os produtos rotulados como amargos, que diziam ter 60% de cacau, tinham, na verdade, entre 25% e 30% também.
“Na prática, o consumidor brasileiro vem sendo exposto a produtos que não entregam os benefícios associados ao cacau e, quando consumidos em excesso, podem contribuir para problemas como obesidade, resistência à insulina e outras doenças metabólicas”, diz Eunice Gutzeit, vice-presidente da ANPC (Associação Nacional dos Produtores de Cacau).
A ausência de critérios claros sobre o teor de cacau nos produtos levou à formulação de um projeto de lei que estabelece um percentual mínimo de cacau para os chocolates no país. O projeto tem origem no Senado e foi apresentado pelo senador Zequinha Marinho (Podemos-PA), que resgatou uma proposta de 2015 da então senadora Lídice da Mata (PSB-BA).
Em 17 de março, a Câmara dos Deputados aprovou o texto com algumas mudanças. O conteúdo foi analisado e recebeu relatório do deputado federal Daniel Almeida (PCdoB-BA), responsável por incorporar sugestões, inclusive de representantes do setor produtivo. Agora, a proposta volta para o Senado. Se o projeto for aprovado, as novas regras passarão a valer um ano depois da sanção pelo presidente Lula.
Pela proposta, produtos com pelo menos 35% de sólidos totais de cacau passam a ser classificados como “chocolate”, deixando de lado denominações como “meio amargo” e “amargo”. Esses itens também não poderão conter mais do que 5% de gorduras vegetais.
Procurada para comentar o impacto da proposta na qualidade nutricional dos chocolates, a obrigatoriedade de informar o teor de cacau nos rótulos e a eventual necessidade de revisão das normas atuais, a Anvisa disse que, em casos de projetos de lei em tramitação, limita-se a análises técnicas do conteúdo.
Segundo a agência, não é possível antecipar posicionamentos ou mudanças regulatórias enquanto o processo legislativo ainda estiver em andamento.
Para Gutzeit, da ANPC, esse projeto representa um passo necessário para corrigir uma distorção que se consolidou no mercado brasileiro, com produtos com pouco cacau, muito açúcar e gorduras substitutas sendo vendidos como chocolate.
“Mais do que uma pauta econômica, trata-se de uma questão de saúde pública, pois envolve a qualidade dos alimentos que chegam à mesa das famílias brasileiras e seus impactos no longo prazo”, diz.
Autor: Folha








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