Quando Jessica Layeux, 42, especialista em cibersegurança em Minnesota começou a tomar o medicamento para perda de peso Zepbound no ano passado, ela não teve nenhum dos efeitos colaterais sobre os quais tinha ouvido falar. Também não sentiu muita mudança na fome ou nos desejos por comida.
No início, Layeux, estava otimista que veria resultados à medida que aumentasse a dose. Mas com o passar dos meses e quase nenhuma perda de peso, ela começou a se culpar. Passou a ficar obcecada se estava armazenando o medicamento na temperatura certa ou aplicando a injeção no lugar correto. Nas consultas médicas, ela se apressava em dizer que estava comendo de forma saudável e se exercitando, para que seu médico não pensasse que a culpa era dela.
Ao longo de 15 meses usando Zepbound, Layeux perdeu apenas um ou dois quilos. “Não importa o que eu faça, esses ‘medicamentos milagrosos’ não funcionam”, diz ela.
Medicamentos GLP-1 como o Zepbound ajudaram milhões de pessoas a perder peso significativo. Mas também existem os casos atípicos frequentemente ignorados: em ensaios clínicos, cerca de uma em cada dez pessoas que tomaram os medicamentos foram “não respondedoras”, perdendo menos de 5% do peso corporal, em comparação com a média de 15% a 21%. Com tanta atenção nos benefícios desses medicamentos, as experiências dos não respondedores são frequentemente negligenciadas.
Os cientistas não têm certeza de por que algumas pessoas perdem tão pouco peso enquanto outras perdem uma quantidade enorme. Mas é uma pergunta que agora estão tentando responder.
Genética, hormônios e outros fatores
Uma teoria promissora sugere que a genética desempenha um papel, diz Marie Spreckley, pesquisadora da Universidade de Cambridge.
A genética pode influenciar os níveis de fome, saciedade e metabolismo, ou seja, como o corpo queima energia. Os cientistas acreditam que cada um desses fatores contribui para o desenvolvimento da obesidade e para como alguém pode responder aos medicamentos para perda de peso.
A semaglutida e a tirzepatida, os compostos nos dois medicamentos para perda de peso mais populares, funcionam principalmente reduzindo o apetite e silenciando o “ruído alimentar“. Isso significa que pessoas cuja obesidade não está relacionada à ingestão de alimentos podem ver menos efeito com esses medicamentos, diz Amy Sheer, médica especialista em obesidade da University of Florida Health.
Como os medicamentos atuam no centro de recompensa do cérebro, diferenças em quanto prazer alguém obtém ao comer também podem afetar a eficácia dos medicamentos, diz Megan Capozzi, professora na University of Washington Medicine que estuda tratamentos para diabetes e obesidade.
Pode haver outros fatores biológicos que afetam como uma pessoa responde aos medicamentos. A semaglutida e a tirzepatida atuam em apenas dois hormônios, que estão principalmente envolvidos na regulação do apetite e do açúcar no sangue.
“Quando pensamos em toda a sopa de letrinhas de hormônios que controlam nosso peso, é quase constrangedor pensar que podemos resolver a obesidade abordando apenas dois”, diz Beverly Tchang, médica especialista em obesidade da Weill Cornell Medicine que presta consultoria para a Novo Nordisk, fabricante do Wegovy.
O estrogênio, por exemplo, interage com as vias do GLP-1 no intestino e no cérebro, potencialmente tornando o corpo ainda mais sensível aos efeitos supressores de apetite dos medicamentos. Isso pode explicar por que os homens parecem ter mais probabilidade de serem não respondedores do que as mulheres, e por que a terapia de reposição hormonal pode melhorar os resultados de perda de peso entre mulheres na pós-menopausa, diz Diana Thiara, médica especialista em obesidade da Universidade da Califórnia.
Alguns especialistas também acreditam que o tempo importa. Quanto mais tempo alguém vive com obesidade, menos provável é que os medicamentos GLP-1 funcionem bem, diz Zoobia Chaudhry, diretora da residência em medicina da obesidade da Johns Hopkins Medicine. Pessoas com diabetes tipo 2, por exemplo, tendem a ter mais dificuldade em perder peso com os medicamentos do que aquelas sem diabetes. Outras condições inflamatórias também podem tornar alguém menos propenso a responder à medicação.
Prevendo a resposta do paciente
Pode levar muito tempo, dinheiro e angústia antes que os pacientes percebam que um medicamento GLP-1 não funcionará para eles. Sheer diz que espera de quatro a seis meses para um paciente responder antes de apresentar outras opções, como cirurgia bariátrica ou trocar para outro medicamento.
Mas alguns pesquisadores estão procurando maneiras de prever quem será um não respondedor desde o início.
Em ensaios recentes, pesquisadores analisaram vários genes envolvidos no apetite, saciedade e metabolismo. Eles encontraram diferenças nos perfis genéticos entre pessoas que perderam peso com um medicamento GLP-1 mais antigo e aquelas que não responderam bem a ele. Esses não respondedores, por sua vez, perderam uma quantidade significativa de peso com outro medicamento, chamado fentermina-topiramato. Esse medicamento parece agir de forma diferente dos GLP-1s nas vias cerebrais que suprimem o apetite.
Outros pacientes que não respondem aos medicamentos GLP-1 existentes podem em breve ter outras opções. As empresas farmacêuticas já estão desenvolvendo novos medicamentos que atuam em hormônios adicionais.
Autor: Folha








.gif)












