
O Paraguai tem intensificado sua aproximação com os Estados Unidos em meio ao movimento de maior presença americana na América Latina, impulsionado por sinalizações de Donald Trump. O país busca aproveitar esse cenário para levar seu “milagre” econômico a um novo patamar.
A renovada parceria entre o governo conservador do presidente Santiago Peña e o governo de Donald Trump, principalmente na área de defesa e de minerais críticos, pode alavancar a visibilidade internacional do Paraguai, dando ainda mais sustentação a esse crescimento econômico já visto, segundo Adriana Melo, especialista em Finanças e Tributação.
Peña tem sido um dos braços de apoio a Trump na América do Sul, ao lado do argentino Javier Milei, do equatoriano Daniel Noboa e do chileno José Antonio Kast. Sob sua gestão, o Paraguai se somou a um plano estratégico da Casa Branca para a exploração de terras raras e outros minerais críticos. O objetivo do programa americano é reduzir a dependência da China e blindar a indústria dos EUA contra choques na cadeia de suprimentos.
“O Paraguai e os Estados Unidos se comprometem a intensificar os esforços de cooperação para acelerar o fornecimento seguro de minerais críticos necessários para apoiar a fabricação de tecnologias avançadas e de defesa, bem como o fortalecimento de suas respectivas bases industriais”, afirmou o Ministério das Relações Exteriores do Paraguai em fevereiro.
Neste contexto, para atrair investimentos privados no setor, o governo paraguaio está preparando uma atualização de seu código de mineração. Em janeiro, o vice-ministro de Minas e Energia do Paraguai, Mauricio Bejarano, afirmou que foram detectados “indícios” da existência de elementos de terras raras no país.
No âmbito da segurança, Peña sancionou, em março, uma parceria militar estratégica com os Estados Unidos, que permite o destacamento de militares americanos no país sul-americano, no chamado Acordo do Estatuto das Forças (Sofa, na sigla em inglês).
O texto permite que militares e funcionários civis do Departamento de Guerra dos EUA que estejam em missão no Paraguai fiquem sob responsabilidade da Justiça americana. Também autoriza a circulação de tropas, equipamentos e aeronaves militares americanas mediante notificação às autoridades locais.
A nova parceria reforça que um dos objetivos de Washington será uma maior vigilância da Tríplice Fronteira, região onde o crime organizado tem expandido sua atuação. Nessa linha, o Paraguai fez outro aceno aos Estados Unidos ao designar facções brasileiras, incluindo o Primeiro Comando da Capital (PCC), como grupos terroristas. Trump tem pressionado o Brasil a fazer o mesmo, mas a gestão do petista se recusa.
O movimento tem sido acompanhado de sinais públicos de aproximação. Recentemente, o subsecretário de Estado americano, Christopher Landau, descreveu o Paraguai como “um grande amigo” dos EUA.
Acordos podem se estender para outras áreas
A parceria entre EUA e Paraguai pode ir além da exploração de minerais e da segurança. O economista Cláudio Shimoyama, professor de Ciências Econômicas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), cita possíveis acordos na área de energia, tecnologia e agricultura.
No ano passado, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, sugeriu que a Casa Branca estaria interessada em comprar energia paraguaia produzida na hidrelétrica de Itaipu com a finalidade de abastecer projetos de inteligência artificial (IA), que seriam instalados no Paraguai.
“A energia hidrelétrica é uma fonte importante de receita para o Paraguai, com a usina de Itaipu sendo uma das maiores do mundo”, lembrou Shimoyama.
Se o acordo se firmar, segundo o economista, as negociações com o Brasil sobre uma revisão do tratado binacional de administração de Itaipu poderiam sofrer alterações com base na influência americana.
Já a agricultura, lembra o especialista, pode ser impulsionada com o aumento das exportações de produtos agrícolas para os EUA. No último ano, as vendas de carne bovina paraguaia para os EUA duplicaram, colocando os americanos como segundo maiores compradores da carne bovina paraguaia, atrás somente do Chile.
Paraguai vira o “tigre guarani” e atrai investimentos estrangeiros
Até poucos anos atrás periférico na América, o Paraguai hoje vive uma forte entrada de investimentos, inclusive de empresas brasileiras, o que lhe rendeu o apelido de “tigre guarani” – referência aos tigres asiáticos (Coreia do Sul, Taiwan, Singapura e Hong Kong) que cresceram aceleradamente nos anos 1990.
O Produto Interno Bruto (PIB) do país estimado para este ano é de 4%, impulsionado pelo setor de serviços, indústria e construção. O país também se destacou com uma das menores taxas de inflação da América Latina, situando-se próximo a 3,1% ao final de 2025 (acumulado de 12 meses), fruto de uma estabilidade cambial e da queda nos preços de combustíveis no ano passado.
Marcos Freitas, CEO da empresa de consultoria Seja AP e especialista em evolução empresarial, destaca que o país conseguiu criar um ambiente simples, com carga tributária baixa e menos burocracia, um “sonho” para todo investidor.
“Quando ele [investidor] encontra um lugar onde consegue operar com clareza e o custo não engole a operação, o movimento de migração é natural. Com isso, o Paraguai deixa de ser um ‘coadjuvante’ na região e vira uma alternativa real e estratégica para quem quer atender o mercado sul-americano com eficiência, sem carregar um piano nas costas”, avalia Freitas.
Crescimento econômico atrai estrangeiros e impulsiona o turismo
Outra métrica do crescimento do Paraguai é o aumento na entrada de estrangeiros. Em 2025, o país recebeu 47.687 pedidos de residência, alta de mais de 63% em relação ao ano anterior, segundo dados da Direção Nacional de Migração. Desse total, 40.600 autorizações foram concedidas, com crescimento superior a 42%. Brasileiros lideram com folga esse movimento, concentrando mais da metade das residências concedidas.
O turismo também tem ganhado força no país. No ano passado, o Paraguai recebeu 3,6 milhões de visitantes internacionais, um salto de mais de 91% em relação ao ano anterior, segundo dados oficiais. A maior parte das visitas veio de países vizinhos, com destaque para a Argentina e Brasil.
Nessa toada, o governo paraguaio prepara um plano para celebrar os 500 anos de Assunção, focado na revitalização da capital. O projeto conta com uma articulação do governo federal, a municipalidade de Assunção e o setor privado e a meta para entrega é 2037, ano em que a cidade completa cinco séculos de fundação.
Autor: Gazeta do Povo








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