sexta-feira, janeiro 2, 2026

Paraná tem prótese facial pelo SUS a pacientes – 02/01/2026 – Equilíbrio e Saúde

“Doutora, eu precisava do meu olho para o Natal.” São pedidos assim que a cirurgiã-dentista Roberta Stramandinoli Zanicotti ouve com a aproximação das festas de fim de ano, e a corrida é intensa para entregar desejos tão sensíveis.

Idealizadora do ambulatório de Prótese Facial Reconstrutiva do Hospital de Reabilitação do Paraná, ela trabalha ao lado da colega Camila Paloma para dar conta da demanda por peças de silicone que se adaptem perfeitamente ao rosto de quem sofre com a mutilação. A prótese sai com o tom de pele, a cor dos olhos, da íris e até as manchas da pele da pessoa.

“Mais de dez pacientes me mandaram mensagem perguntando se vão receber a prótese até o Natal. Eles desejam a invisibilidade, não ser o centro das atenções. Ninguém quer sentar à mesa com a família com uma cratera”, diz.

Desde a criação do serviço, que opera em Curitiba totalmente via SUS (Sistema Único de Saúde), em 2020, já foram realizados 1.500 atendimentos de pessoas com mutilações de face. Nem todos são elegíveis ao uso de prótese. Já foram entregues cerca de 200 próteses.

Das pessoas atendidas, cerca de 70% foi vítima de mutilações causadas pelo câncer e seu tratamento, e 30%, de traumas em acidentes.

Em consultórios particulares, o custo de peças de silicone para o rosto varia entre R$ 5.000 e R$ 10 mil. “A mesma qualidade que faço em meu consultório privado, faço aqui pelo SUS”, conta a cirurgiã-dentista.

Era uma naturalidade para o rosto que Marli Borges dos Santos, 59, de Irati (PR), buscava. “Todo mundo me olhava e alguns desviavam de mim na rua, como se tivesse uma doença contagiosa. Me sentia diminuída.” Foram sete anos assim, após um câncer agressivo que levou à amputação do nariz.

Ela chegou a tentar uma prótese feita em São Paulo, mas machucava a pele e desistiu de usar. Parou também de sair de casa. Quando viu uma reportagem na TV sobre o novo centro de próteses da face custeado pelo SUS, em Curitiba, conseguiu uma das primeiras vagas. Em apenas três meses, saiu de nariz novo.

“Agora eu ando na rua e ninguém fica olhando. Me senti outra pessoa, tenho qualidade de vida. Ontem fui fazer minha identidade e a foto ficou perfeita.”

Como as próteses são temporárias, ela já está na terceira. No dia a dia, porém, ela usa somente para sair, ficando em casa com um curativo no local. “É para não ficar todo dia com a cola, pois um pouco sempre machuca.”

A reabilitação começa com a entrega da prótese, mas é um processo de aprendizado, em que entram fonoaudiologia, fisioterapia, aprender a manipular a pele, colar, e terapias com psicólogo para, nas palavras da coordenadora, “gostar do novo membro”.

É nesse processo de aprendizado que está o assessor parlamentar Cristiano Teodoro Ribeiro, 47. Após uma cirurgia de retirada de tumor de seio de face, em 2019, ele perdeu quase toda a arcada dentária superior: restaram somente três dentes, e um caiu depois.

Neste ano, ele foi chamado após aguardar na fila da prótese, e em poucas visitas a recebeu pronta. “Ainda estou em processo de adaptação, não aprendi a falar normalmente com ela. Preciso conversar com as pessoas, falo muito, então iniciei tratamento com fonoaudiólogo. É bastante lento e difícil.”

Pelo país, a coordenadora do projeto estima que haja apenas 78 profissionais especialistas em prótese bucomaxilofacial, termo técnico do que ela faz. Em Curitiba, seriam somente três. “É um atendimento de alta complexidade, não dá dinheiro, e para muita gente o paciente oncológico causa medo.”

Os protótipos e moldes faciais partem de imagens de tomografias computadorizadas, impressos em 3D, num sistema desenvolvido pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).

Sua missão em prol dos mutilados vem desde 2008, quando, numa viagem de observação ao Memorial Hospital de Nova York, conheceu o laboratório de próteses.

“Quando voltei, queria fazer a mesma coisa com pacientes do SUS no Brasil. Mas fiquei 10 anos tentando, porque a reabilitação envolve um longo processo.”

Já em seu pós-doutorado, em 2016, passou a frequentar audiências públicas para defender a reabilitação completa desses pacientes, mas teve muitas recusas. Somente no final de 2019 ela conseguiu a criação do serviço pelo governo do Paraná.

“O maior mérito do serviço, além de ser público, é tirar o estigma terrível dos sequelados de traumas muito graves. O outro é que o paciente é acompanhado por uma equipe multidisciplinar, pois a pessoa tem que se sentir segura”, explica o diretor-geral da Secretaria de Saúde do Estado do Paraná, César Neves.

Segundo ele, o serviço seria um dos únicos do país dentro de um hospital de reabilitação, com treinamento de pessoal e muito individualizado.

O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.

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