Pensamento positivo pode ajudar pessoas que estão se sentindo para baixo. Políticos, por sua vez, há muito tempo entenderam que expectativas pessimistas podem acabar se cumprindo.
No fim dos anos 1970, quando os Estados Unidos enfrentavam uma crise energética e estagflação, o presidente Jimmy Carter alertou que o maior perigo do país era uma “crise de confiança”, capaz de corroer tanto as instituições públicas quanto a iniciativa privada.
Décadas depois, Shinzo Abe, o primeiro-ministro mais longevo do Japão, argumentou que a estagnação era sustentada por uma “mentalidade deflacionária” e tentou sacudir famílias e empresas para fora dela. Mais recentemente, Xi Jinping, o líder da China, fez da promoção da “energia positiva” uma prioridade nacional.
Hoje, se é que alguma vez foi diferente, energia positiva anda em falta. O pessimismo tornou-se ao mesmo tempo disseminado e persistente. Nos Estados Unidos, a confiança do consumidor está perto do menor nível já registrado.
Em toda a Europa, a confiança econômica permanece abaixo da média de longo prazo há mais de três anos, mesmo com a inflação em queda. Pesquisas realizadas no início do ano mostram a abrangência desse desânimo.
Um novo levantamento da consultoria FGS Global, com 20 mil eleitores e líderes empresariais nos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, União Europeia e Japão, revela um consenso desanimador: nos 27 países pesquisados, a maioria acredita que a vida será mais difícil para a próxima geração e que o sistema é manipulado em favor dos ricos.
Em todos, exceto na Dinamarca, a maioria considera as instituições públicas ineficazes. Outras pesquisas contam história semelhante. Em um levantamento dEm um levantamento da Gallup International com quase 60 mil adultos, pessimistas econômicos superam otimistas em cerca de 2 para 1 no Reino Unido e no Japão.orção se aproxima de 12 para 1.
O pessimismo persistente tornou-se uma das restrições mais importantes à economia global. Quando as expectativas se deterioram, as economias passam a se comportar de forma diferente —muitas vezes de maneira a neutralizar políticas que, em outras circunstâncias, seriam sensatas, além de distorcer a política.
John Maynard Keynes captou essa ideia ao falar dos “espíritos animais”, argumentando que confiança e expectativas estão no centro dos resultados econômicos. Robert Shiller, economista vencedor do Nobel, descreveu posteriormente como narrativas pessimistas podem se espalhar, moldando comportamentos de formas não previstas pelos modelos econômicos.
À medida que o desânimo se enraíza nas economias ricas, ele corre o risco de se transformar em um freio ao crescimento. As consequências do pessimismo enraizado são três: menos investimento no futuro, governos que se distanciam do crescimento e adotam políticas de proteção de soma zero, e uma política que torna a disciplina fiscal mais difícil de sustentar.
O pessimismo atua, primeiro, como um choque de incerteza. Quando o futuro parece pior, aumenta o valor da opção de esperar, e famílias e empresas adiam decisões difíceis de reverter. Alguns efeitos de curto prazo já são visíveis.
Nos Estados Unidos, tanto as contratações quanto os pedidos de demissão voluntária estão cerca de um terço abaixo dos picos do período pós-pandemia, apesar do crescimento econômico contínuo. Isso sinaliza uma desaceleração na rotatividade do mercado de trabalho que pesa sobre a eficiência.
Na zona do euro, a poupança das famílias aumentou gradualmente. A taxa ainda está acima de 15% em 2025, bem acima do padrão pré-pandemia. A baixa confiança também pode contribuir para outras mudanças sociais, como taxas de fertilidade reduzidas e queda nas matrículas no ensino superior.
Outra expressão do pessimismo é a crença de que a economia é manipulada, o que incentiva o pensamento de soma zero. Quando as pessoas acreditam que os ganhos de um grupo ocorrem apenas às custas de outro, passam a apoiar políticas que deslocam o foco do crescimento para a redistribuição e a proteção.
Pepper Culpepper, da Universidade de Oxford, e coautores mostram que, em vários países ricos, aqueles que acreditam que o sistema favorece os mais ricos tendem mais a apoiar redistribuições explicitamente de soma zero. Instintos semelhantes moldam visões sobre migração e comércio.
Stefanie Stantcheva, da Universidade Harvard, demonstra que pensadores de soma zero são mais inclinados ao protecionismo e a fronteiras mais fechadas —sentimentos hoje disseminados nas economias avançadas. A mesma lógica se aplica à mudança tecnológica.
Na pesquisa mais recente de jovens da Harvard, americanos jovens eram mais de 3 vezes mais propensos a dizer que a inteligência artificial destruiria oportunidades do que criaria. No levantamento da FGS Global, mais de 7 em cada 10 entrevistados defenderam regulação rígida e forte tributação das empresas de IA.
O resultado provável é uma guinada para uma economia defensiva, de fortaleza, que promete proteção, mas esvazia o crescimento.
O último perigo do pessimismo é que ele corrói a disciplina fiscal. Quando os eleitores acreditam que o futuro será sombrio, sua tolerância à dor de curto prazo desmorona. A consolidação fiscal da Suécia em meados dos anos 1990, por exemplo, se sustentou porque os eleitores acreditavam que o sacrifício seria recompensado, já que os primeiros resultados das reformas restauravam a confiança.
Onde essa crença está ausente, o aperto fiscal tende a se desfazer. Em grande parte do sul da Europa após 2010, a consolidação imposta em meio à estagnação econômica enfrentou forte resistência, pois os eleitores viam pouca chance de que a dor fosse recompensada com recuperação.
Quando o eleitorado é pessimista, políticos são premiados por amortecer o impacto, não por conter gastos. Esse viés mantém déficits elevados e torna a inflação mais difícil de controlar.
Essa dinâmica já é visível nas economias ricas. No ano passado, o déficit orçamentário médio nos países avançados superou 4% do PIB; nos Estados Unidos, ficou mais perto de 6%. Ainda assim, a contenção fiscal segue distante.
O presidente Donald Trump aprovou novos cortes de impostos nos EUA e acenou com mais concessões, incluindo cheques de estímulo, para apaziguar eleitores insatisfeitos. Na França, tentativas de cortar gastos rotineiramente provocam crises políticas. No Japão, o governo anunciou no fim do ano passado seu maior pacote de estímulo desde a pandemia, apesar de a dívida pública já estar entre as mais altas do mundo. O Canadá também recorreu a isenções fiscais temporárias para elevar o ânimo, aumentando custos e complexidade para as empresas.
Esse padrão aponta para uma mudança política mais ampla. O mal-estar atual criou terreno fértil para populistas que prometem proteção e gastos, em vez de reformas, criando condições para um ciclo autoalimentado no qual o desânimo impulsiona o apoio a líderes populistas, cujo governo, por sua vez, enfraquece instituições e mina o crescimento.
Pesquisas mostram que países governados por populistas sofrem danos econômicos duradouros, com renda menor e maior instabilidade muito depois de eles chegarem ao poder. A maior ameaça à economia mundial hoje é uma política moldada pelo próprio pessimismo.





